08 de setembro de 2026

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Como prevenir o suicídio além do Setembro Amarelo

Vídeos Geral 08/09/2026 11:12 youtube.com

A prevenção do suicídio não pode ser apenas uma campanha. Sinais de alerta: como prevenir o suicídio no dia a dia, além do Setembro Amarelo https://www.bra1.com.br/689768 Siga o BRA 1 para não perder nada. #sinais #alerta #como #notícias

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Como prevenir o suicídio além do Setembro Amarelo

O Brasil registrou 15.507 mortes por suicídio em 2021, o que equivale a uma morte a cada 34 minutos, segundo dados do Ministério da Saúde, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 720 mil pessoas morrem por ano no mundo em decorrência do problema. A campanha Setembro Amarelo, instituída oficialmente pela Lei nº 15.199 em 2025, busca ampliar o debate público sobre o tema, mas especialistas alertam que a prevenção exige ações contínuas que vão além do mês de setembro. A neuropsicóloga Luanda Rosa, em entrevista à reportagem, destaca que é preciso reconhecer o sofrimento, fortalecer vínculos, reduzir o preconceito e garantir acesso rápido a atendimento adequado.

O suicídio é um fenômeno complexo, que envolve fatores emocionais, sociais, econômicos, familiares, culturais e de saúde. A OMS aponta que o problema está entre as três principais causas de morte de pessoas de 15 a 29 anos no mundo, o que reforça a urgência de políticas públicas e estratégias comunitárias de prevenção. No Brasil, os dados oficiais mostram que 77,8% das mortes por suicídio ocorrem entre homens, um recorte que exige atenção específica para questões de gênero, saúde mental masculina e acesso a serviços. A campanha ganhou status legal em 2025, com a Lei nº 15.199, que define 10 de setembro como o Dia Nacional de Prevenção do Suicídio e 17 de setembro como o Dia Nacional de Prevenção da Automutilação.

  • Mudanças persistentes de comportamento, isolamento e falas de desesperança são sinais que merecem atenção imediata.
  • Falar sobre suicídio de forma responsável não incentiva a prática, mas abre espaço para escuta e cuidado.
  • Escolas e empresas têm papel central na prevenção ao reduzir situações de isolamento, humilhação e sobrecarga.
  • Pessoas autistas e neurodivergentes podem apresentar sofrimento de formas menos reconhecidas, exigindo suporte individualizado.
  • Em emergências, o CVV atende pelo telefone 188, 24 horas, e o Samu pode ser acionado pelo 192.

De acordo com a neuropsicóloga Luanda Rosa, é comum que a população acredite que falar sobre suicídio possa incentivar a prática, mas a especialista afirma que o oposto é verdadeiro. "Falar sobre prevenção de forma responsável não incentiva o suicídio; ao contrário, pode abrir uma porta para a escuta e para o cuidado", explica. Ela também ressalta que não existe um sinal isolado que preveja uma crise, mas a combinação de mudanças persistentes, sofrimento intenso, isolamento, desesperança e perda de funcionamento na vida cotidiana deve ser levada a sério.

O Ministério da Saúde orienta que os sinais não sejam analisados isoladamente e que pessoas próximas ofereçam escuta, acolhimento e apoio para o acesso aos serviços de saúde. Em vez de interpretar o sofrimento como drama, fraqueza ou manipulação, familiares e colegas devem fazer perguntas diretas e respeitosas, como "você está em segurança?", "você tem pensado em se machucar ou em morrer?" e "como posso ajudar você a buscar atendimento?". A recomendação oficial é que, diante de risco imediato, a pessoa não fique sozinha e que sejam restringidos, de maneira segura, meios que possam ser usados para autoagressão.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e 24 horas pelo telefone 188, além de atendimento por chat e e-mail. A rede pública de saúde também é uma porta de entrada: as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são responsáveis pelo cuidado em saúde mental. Em situações de emergência, a orientação é acionar o Samu pelo 192 ou procurar uma UPA, pronto-socorro ou hospital.

Sinais de alerta e como agir

A especialista lista uma série de comportamentos que podem indicar sofrimento: falas de desesperança, culpa intensa, sensação de ser um peso, ausência de perspectiva de futuro, comentários sobre morrer ou desaparecer, isolamento incomum, mudanças marcantes de humor, irritabilidade, apatia, perda de interesse por atividades significativas, alterações persistentes no sono e no apetite, uso mais frequente de álcool e outras drogas, queda abrupta no desempenho e organização de despedidas ou entrega de pertences. Luanda Rosa ressalta que a presença de um ou mais desses sinais não permite concluir que alguém pretende se matar, mas exige investigação cuidadosa e acolhimento.

Quando houver suspeita, a recomendação é escolher um momento reservado, sem pressa e sem exposição, para conversar. A pessoa deve demonstrar disponibilidade para ouvir sem minimizar, moralizar, ironizar ou transformar o relato em discussão. É importante incentivar o atendimento com psicólogo, psiquiatra, médico de família, UBS ou CAPS e, se possível, oferecer-se para acompanhar a pessoa até o serviço. Acionar familiares, amigos ou pessoas de confiança indicadas por quem está em sofrimento também é uma medida recomendada, respeitando a privacidade na medida do possível.

O papel da escola e do trabalho na prevenção

A prevenção não deve ficar restrita à família ou aos consultórios. Escolas e ambientes de trabalho podem contribuir ao reduzir situações de isolamento, humilhação, discriminação e sobrecarga, além de criar canais claros de acolhimento e encaminhamento. "Uma instituição não precisa se transformar em serviço de saúde para colaborar com a prevenção. Ela precisa construir uma cultura em que o sofrimento não seja tratado como falha de caráter", afirma Luanda Rosa. Isso inclui acolher mudanças de comportamento, evitar exposição pública, oferecer espaços de conversa e encaminhar para a rede de cuidado quando necessário.

No ambiente escolar, episódios de bullying, exclusão persistente, mudanças no rendimento, faltas frequentes e afastamento do convívio devem ser observados com seriedade. A resposta mais eficaz não é punir ou constranger o estudante, mas investigar o contexto, ouvir a família e organizar suporte pedagógico e psicológico. No trabalho, isolamento, exaustão, faltas recorrentes, mudanças abruptas de produtividade ou conflitos podem sinalizar sofrimento, embora não constituam diagnóstico. Empresas devem oferecer canais confidenciais de escuta, práticas de gestão que não naturalizem sobrecarga e encaminhamento para serviços especializados.

Neurodivergência exige cuidado individualizado

A campanha também amplia a necessidade de olhar para grupos que podem enfrentar barreiras adicionais para pedir ajuda. Pessoas autistas e outras pessoas neurodivergentes podem vivenciar sobrecarga sensorial, dificuldades de comunicação, exaustão pelo esforço de adaptação social, experiências de rejeição e problemas de saúde mental associados. Nenhuma dessas características determina risco por si só, mas elas exigem escuta qualificada e suporte adaptado às necessidades individuais. Uma meta-análise publicada em 2024, que reuniu dados de 10,4 milhões de pessoas, estimou risco relativo de morte por suicídio 2,85 vezes maior em pessoas autistas em comparação com pessoas não autistas.

Uma revisão de estudos também encontrou associação entre autismo e maior probabilidade de comportamentos autolesivos e suicidalidade, mas os resultados variam conforme idade, presença de transtorno intelectual, condições associadas e contexto social. "Não é o autismo que explica sozinho uma crise. É preciso considerar a história daquela pessoa, possíveis transtornos associados, vivências de bullying e exclusão, demandas sensoriais, comunicação, autonomia, rede de apoio e acesso a profissionais que compreendam seu modo de funcionamento", afirma Luanda Rosa. A especialista destaca que sinais de sofrimento em pessoas neurodivergentes podem aparecer de formas menos reconhecidas socialmente: aumento de crises, retraimento, irritabilidade, exaustão intensa, piora do sono, mudança de rotina, abandono de interesses, queda abrupta na autonomia ou redução da comunicação. A comparação deve ser com o funcionamento habitual daquela pessoa, não com um padrão genérico de comportamento.

A Organização Mundial da Saúde resume a prevenção em medidas individuais, comunitárias e institucionais: identificar precocemente pessoas em sofrimento, garantir avaliação e acompanhamento, promover habilidades socioemocionais entre adolescentes, qualificar a abordagem da mídia e limitar o acesso a meios de alta letalidade durante crises. No cotidiano, a prevenção começa antes da emergência: relações em que seja possível falar de dor sem julgamento, acesso a atendimento em saúde mental, escolas e empresas atentas à exclusão, além de famílias que saibam pedir ajuda quando não conseguem lidar sozinhas com a situação. "Não é preciso esperar uma frase explícita ou uma tentativa para levar o sofrimento a sério. Mudanças persistentes, perda de esperança e afastamento da vida cotidiana já justificam o cuidado. Procurar ajuda não é um exagero; é uma medida de proteção", conclui Luanda Rosa.