28 de outubro de 2026

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O que a IA teria mudado em Cem Anos de Solidão?

Tecnologia 28/10/2026 14:57 Marcus Fontoura (Microsoft)

Executivo da Microsoft analisa o processo criativo de Gabriel García Márquez e questiona: com a IA, a obra seria igual?

O escritor Gabriel García Márquez, conhecido como Gabo, passou dezoito meses escrevendo em tempo integral a história da cidade de Macondo e da família Buendía, que virou o livro Cem Anos de Solidão. Nesse período, sua esposa Mercedes teve que pagar no crédito até o supermercado e o aluguel. Quando as economias acabaram, eles tentaram penhorar as joias de Mercedes para financiar a escrita, mas descobriram que as pedras eram de vidro. Então penhoraram o carro da família. Mesmo assim, ao terminar, Gabo não tinha dinheiro para enviar o manuscrito inteiro ao editor. Ele e Mercedes dividiram o original em duas partes, porque só podiam pagar o envio de metade. Por engano, mandaram a segunda parte primeiro. Por sorte, antes de conseguirem juntar dinheiro para postar o início, receberam o dinheiro do editor, que já estava ansioso para ler o resto.

Gabo escreveu a obra entre 1965 e 1966. A história da escrita e publicação do livro daria um livro à parte, pelas dificuldades financeiras da família e pela forma como Mercedes conseguiu manter tudo. Em um discurso, Gabo disse: Parece inacreditável, mas um dos meus problemas mais urgentes era arrumar papel para a máquina de escrever. Ele também admitia: Tinha a má educação de acreditar que palavras escritas errado, deslizes ou erros de gramática eram criações genuínas. Quando percebia, rasgava a página, jogava na lixeira e começava de novo.

  • Gabo precisou de 18 meses para escrever a obra, com muitas dificuldades financeiras.
  • A esposa Mercedes penhorou até as joias (que eram de vidro) para ajudar.
  • O manuscrito foi enviado em duas partes por falta de dinheiro para o correio.
  • A IA existe desde 1956, muito antes do ChatGPT.
  • O primeiro corretor ortográfico foi criado em 1961 e só conferia palavras com dicionários fixos.

A dificuldade de um escritor sem tecnologia

Nunca saberemos como esse controle de qualidade afetou o livro, mas, se Gabo tivesse as ferramentas atuais, teria sido mais fácil, barato e rápido enviar o manuscrito por e-mail, sem precisar de dois pacotes. O e-mail, porém, só surgiu décadas depois.

Les Earnest criou o primeiro corretor ortográfico computadorizado em 1961, no Laboratório de IA de Stanford. Ele não sugeria correções; apenas verificava cada palavra contra um dicionário fixo de dez mil palavras. Em 1971, Ralph Gorin, estudante de Earnest, escreveu o SPELL, o primeiro software de correção ortográfica de verdade. Ele buscava no dicionário correções para erros de uma letra ou troca de letras, como pro em vez de por. Mas como olhava uma palavra por vez, erros que formavam outras palavras existentes, como pais em vez de país, passavam despercebidos.

Desde então, a tecnologia de processamento de texto evoluiu muito, principalmente com a chegada dos computadores pessoais nos anos 80. Primeiro vieram corretores com dicionários maiores e correção gramatical. Depois, o Microsoft Word introduziu o AutoComplete e o AutoCorrect, que sugeriam palavras e corrigiam erros automaticamente. No início dos anos 2000, a tradução automática avançou: em 2006, o Google Tradutor foi lançado, usando estatísticas para aprender com bilhões de textos bilíngues. Diferente dos sistemas antigos, que seguiam regras fixas, o Google Tradutor melhorava conforme recebia novos dados.

Da tradução automática à IA generativa

Na década de 2020, surgiram sistemas como o Google Smart Compose, que sugere frases completas. Com o ChatGPT e o Microsoft Copilot, essas ferramentas passaram a resumir textos, escrever e-mails, slides e até códigos. Isso se deve à IA generativa (GenAI), que gera conteúdo novo a partir de dados públicos. Mas atenção: corretores e tradutores também usam IA, mas não são generativos.

A GenAI não tenta aprender regras fixas, como as de tradução. Em vez disso, usa grandes volumes de dados e muito poder de computação para criar modelos que entendem a língua. Esses modelos podem fazer várias tarefas. A GenAI só foi possível graças à computação em nuvem e à internet. Apesar disso, a IA não começou com o ChatGPT: o termo foi criado por John McCarthy em 1956, na Conferência de Dartmouth.

E se Gabo tivesse IA

Antes do ChatGPT, já usávamos IA em buscas, recomendações, traduções e correções. O que mudou é a visibilidade atual da IA generativa e as questões sobre criatividade, autoria e produtividade. E se entregássemos ao Gabo de 1965 as ferramentas atuais Ele provavelmente escreveria mais rápido e com menos sofrimento. Mas a pergunta importante é: a história, criada com dificuldades, seria igual Nunca saberemos.

Sobre o autor: Marcus Fontoura é vice-presidente corporativo e technical fellow na Microsoft, atuando como CTO do Azure Core. Escreveu os livros A tecnologia e você: quem controla quem (2026) e Tecnologia intencional (2024), ambos pela Citadel.