O número de novos casos no Judiciário atingiu 40,9 milhões em 2025. Especialistas alertam que a Inteligência Artificial barateou a criação de petições, facilitando fraudes em massa, mas também oferece ferramentas para combatê-las.
O sistema de justiça brasileiro enfrentou um desafio recorde em 2025, com a entrada de 40,9 milhões de novos casos. Esse é o maior volume registrado desde 2009, conforme dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A situação é especialmente grave na Justiça Federal, onde a alta foi de 19,8% em apenas um ano. Por trás desse crescimento explosivo, há um novo motor: a inteligência artificial generativa.
A tecnologia reduziu drasticamente o custo de produção de petições, o que abriu portas para a litigância abusiva e para fraudes em larga escala. O alerta foi dado por Alexandre Stumpf, CTO da empresa doc9, durante a Fenalaw 2026, em São Paulo. Em sua palestra, ele destacou que o volume de litígios dobrado na base de clientes da companhia.
- 40,9 milhões: número recorde de novos casos no Judiciário em 2025.
- 19,8%: aumento de casos na Justiça Federal em relação ao ano anterior.
- 81%: redução no tempo de análise de fraudes com uso de IA pela doc9.
- 8 mil: quantidade de ações fraudulentas identificadas contra uma operadora de saúde.
- 82-89%: percentual de textos idênticos encontrados em laudos médicos de casos suspeitos.
Como a IA facilita a fraude em massa
Alexandre Stumpf explicou que, quando a produção de documentos perde seu limite natural, a capacidade passa a ser de larga escala. Hoje, é possível gerar centenas de peças jurídicas em minutos, com variações de texto que dão aparência de legitimidade. A IA criou o problema em escala, e só ela consegue resolver na mesma proporção. O caminho é experimentar com intensidade e governar com rigor, afirmou o executivo.
O roteiro das fraudes digitais
O CTO da doc9 descreveu que essa indústria de litígios abusivos segue um roteiro conhecido. Ela começa na captação de listas de potenciais autores e na utilização de procurações com indícios de irregularidade. Depois, passam por ações iniciais geradas por IA e terminam em demandas fragmentadas por diferentes comarcas. Segundo Stumpf, a boa notícia é que esse movimento digital deixa marcas.
Tudo o que fazemos no digital deixa rastro. A IA produz peças diferentes com objetivos iguais, e isso aparece nos dados em forma de volume desproporcional por região, documentos reutilizados em vários processos, picos de distribuição e vínculos ocultos entre as partes, disse o executivo.
Tecnologia detecta laudos médicos falsos
Um caso real apresentado durante o evento ilustra essa dinâmica. Mais de 8 mil ações contra uma operadora de saúde foram analisadas. Uma tecnologia de similaridade, parecida com a usada para detectar plágio em trabalhos acadêmicos, comparou os laudos médicos anexados. O sistema encontrou documentos de pacientes com idades, cidades e doenças diferentes, mas com 82% a 89% do texto idêntico, além de mesmo signatário e mesmo advogado.
Em escritórios clientes da iuria.doc9, a ferramenta de IA jurídica da empresa reduziu em 81% o tempo de processamento e identificação de fraude e risco. No entanto, a decisão final sempre permanece nas mãos de especialistas humanos. O Judiciário também já reage a essa nova realidade. A Recomendação 159/2024 do CNJ trouxe diretrizes para identificar e prevenir a litigância abusiva, e tribunais como TJPB, TRF-2 e TJPE já usam IA para detectar esses abusos.

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