21 de outubro de 2026

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Empresas pagam caro para funcionários refazerem tarefas por falhas de tecnologia

Tecnologia Produtividade 21/10/2026 11:46 MCB Consulting

Falhas na integração entre sistemas de gestão fazem empresas brasileiras pagarem para que funcionários repitam tarefas, como digitar dados em mais de um programa. Isso aumenta custos, causa erros e prejudica a tomada de decisões, mesmo quando a empresa investe em tecnologia.

Empresas investem em tecnologia, mas continuam pagando pelo retrabalho

Falhas na integração de sistemas fazem funcionários repetir tarefas, aumentam despesas e comprometem a produtividade e as decisões dos negócios

Uma venda registrada pelo comercial precisa ser digitada novamente pelo financeiro. O estoque depende de planilhas para atualizar informações e gestores gastam horas reunindo dados que já deveriam estar disponíveis. O retrabalho nas empresas continua consumindo tempo e recursos, mesmo em organizações que investem em tecnologia para ganhar produtividade.

  • 32% das empresas brasileiras usam ferramentas adequadas, mas exigem acesso a múltiplos sistemas para uma única tarefa.
  • O custo do retrabalho está escondido em salários e tarefas repetitivas, não aparecendo isolado nos relatórios.
  • 89% dos líderes de operação nos EUA identificaram motivos para investimentos em tecnologia não terem dado o resultado esperado.
  • A solução não é comprar mais software, mas ajustar configurações e automatizar processos existentes.
  • Crescer sem corrigir processos manuais amplia os erros e prejudica a gestão do dinheiro.

Para Mariana Cicala Bretas, especialista em sistemas de gestão empresarial e CEO da MCB Consulting, consultoria especializada em sistemas de gestão empresarial, o problema está na maneira como a tecnologia é incorporada à operação.

A executiva explica que muitas empresas transferem aos funcionários a responsabilidade de conectar processos que deveriam funcionar de forma integrada. Quando um profissional precisa copiar informações de um sistema para outro, a empresa está pagando para compensar uma falha operacional. O custo não está apenas no tempo gasto, mas nos erros e nas decisões que atrasam porque os dados não chegam corretamente a quem precisa deles, explica.

O funcionário vira a ponte entre sistemas

Um levantamento da Pipefy, divulgado em setembro de 2026, mostra que 32% das empresas brasileiras consultadas utilizam ferramentas consideradas adequadas, mas ainda exigem que os profissionais acessem diferentes sistemas para concluir uma única atividade.

A situação é comum em organizações que possuem ferramentas para controlar vendas, finanças, estoque e recursos humanos, mas não conseguem fazer com que as informações circulem automaticamente entre os departamentos.

Um pedido pode ser aprovado pelo comercial sem que o financeiro receba os dados para faturamento. Uma movimentação pode não atualizar o estoque imediatamente. No RH, controles de férias e benefícios podem continuar em planilhas, mesmo com sistemas específicos para essas atividades. Uma empresa pode ter um bom sistema de gestão e continuar trabalhando como se tudo dependesse de controles manuais. O funcionário vira uma ponte entre sistemas, transportando dados e corrigindo divergências. Quanto maior a operação, maior tende a ser o impacto dessas falhas sobre a produtividade, afirma a especialista.

Os sistemas de gestão empresarial, conhecidos pela sigla ERP, do inglês Enterprise Resource Planning, foram desenvolvidos para centralizar informações e integrar diferentes áreas. Sua eficiência, entretanto, depende de processos bem definidos e da comunicação entre as ferramentas.

O custo invisível do retrabalho

Diferentemente das despesas com software e infraestrutura, o custo do retrabalho raramente aparece de maneira isolada nos relatórios financeiros. Ele fica distribuído entre salários, tarefas repetitivas, correções de registros e atrasos nas entregas.

Uma equipe financeira que confere manualmente informações de vendas pode demorar mais para concluir o fechamento mensal. No estoque, dados desatualizados podem provocar compras desnecessárias, enquanto a demora para consolidar indicadores compromete decisões estratégicas. Imagine uma empresa que continua comprando mercadorias porque o estoque registrado não corresponde à quantidade disponível. Ela pode comprometer recursos financeiros necessários para outras atividades. O retrabalho deixa de ser apenas uma questão de produtividade e passa a afetar diretamente a gestão do dinheiro, ressalta a executiva.

Mais tecnologia não significa mais produtividade

A Pesquisa sobre Tendências Digitais em Operações 2026, da PwC, realizada com 767 líderes de operações e cadeias de suprimentos de empresas dos Estados Unidos, apontou que 89% dos entrevistados identificaram pelo menos um motivo para os investimentos em tecnologia não alcançarem plenamente os resultados esperados.

À frente da MCB Consulting, que já realizou mais de 300 projetos para mais de 250 empresas, a executiva acompanha desafios relacionados à implantação e evolução de sistemas de gestão. Segundo ela, um erro recorrente é acreditar que novas plataformas resolverão problemas que começam na organização dos processos. Quando uma atividade demora mais do que deveria, a primeira reação de algumas empresas é procurar outro software. Mas, se ninguém avaliou como a informação é registrada e quais etapas poderiam ser automatizadas, existe o risco de apenas acrescentar uma ferramenta à operação. Antes de investir mais, é preciso aproveitar melhor a tecnologia existente, destaca.

Como identificar e corrigir o problema

Um dos principais sinais de alerta é a existência de controles paralelos. Quando profissionais mantêm planilhas para acompanhar informações já registradas no sistema, pode haver falhas na configuração das ferramentas ou na integração entre departamentos.

Outros indícios são a demora para fechar resultados financeiros, diferenças entre estoque físico e digital e a necessidade frequente de solicitar informações que já deveriam estar disponíveis. Uma pergunta simples ajuda a revelar o problema: quantas vezes a mesma informação precisa ser digitada até que um processo seja concluído Se cada departamento precisar registrar novamente os mesmos dados, existe uma oportunidade de melhoria. O objetivo é direcionar o trabalho das pessoas para atividades que realmente exigem conhecimento e capacidade de decisão, explica a especialista.

A correção dessas falhas nem sempre exige substituir os sistemas. Ajustes nas configurações, revisão de cadastros e automação de tarefas podem reduzir controles manuais e melhorar a confiabilidade das informações.

Crescer exige corrigir processos

Com as empresas iniciando o planejamento para 2027, revisar as rotinas operacionais pode ser tão importante quanto definir metas de faturamento. Aumentar as vendas sem corrigir falhas de integração também pode ampliar o retrabalho necessário para sustentar a operação. Antes de aumentar a equipe ou contratar outro software, o empresário precisa descobrir quanto tempo seus profissionais gastam para fazer sistemas conversarem entre si. Crescer mantendo processos manuais significa levar os mesmos problemas para uma operação maior, com mais informações e possibilidades de erro, afirma a executiva.

A especialista reforça que o ganho de produtividade depende de processos bem estruturados, informações confiáveis e ferramentas integradas. Uma empresa eficiente não é necessariamente aquela que tem mais sistemas, mas aquela que consegue fazer a informação chegar ao lugar certo, no momento necessário e sem precisar ser refeita várias vezes. Quando isso acontece, as pessoas deixam de gastar energia corrigindo processos e passam a contribuir efetivamente para os resultados do negócio, conclui a executiva.