Escritórios de advocacia usam inteligência artificial e dados para melhorar a gestão comercial e atender melhor clientes, agindo de forma ética e sem violar as normas de publicidade da Ordem dos Advogados do Brasil.
Escritórios de advocacia no Brasil estão utilizando inteligência artificial e análise de dados para melhorar sua eficiência comercial. Essa mudança visa crescer no ambiente digital sem ultrapassar os limites impostos pela OAB à publicidade jurídica. O movimento se intensificou em 2025, com a adoção de IA generativa no setor subindo de 14% para 26%, segundo a Thomson Reuters, enquanto a OAB discute a atualização das regras para divulgação de serviços.
Athos Vilarins, CEO da Assessoria Alpha, empresa especializada em estratégias de aquisição de clientes e inteligência de dados, explica que a tecnologia ajuda a profissionalizar a gestão. A IA na advocacia pode ajudar o escritório a entender melhor de onde vem a demanda, quanto tempo leva para responder e onde existem perdas no processo. O objetivo não é automatizar a captação proibida, mas tornar mais eficiente aquilo que já pode ser feito de maneira ética, afirma.
- A adoção de IA generativa no setor jurídico dobrou de 14% para 26% em 2025.
- O Provimento 205 da OAB permite marketing, mas proíbe prometer resultados ou induzir litígios.
- 89% dos profissionais veem a IA como útil, mas 48% das bancas ainda não têm políticas formais de uso.
- A tecnologia é mais usada na revisão de documentos (74%) e pesquisa jurídica (73%).
- O foco da estratégia é organizar o relacionamento com quem já demonstrou interesse legítimo.
IA na advocacia exige separar aquisição de captação
Essa distinção é central para qualquer estratégia de crescimento no setor jurídico. O Provimento 205 permite o marketing jurídico, a produção de conteúdo, a presença em redes sociais e anúncios em determinadas condições. Ao mesmo tempo, proíbe mecanismos destinados a induzir diretamente a contratação, estimular litígios, prometer resultados ou transformar o serviço jurídico em produto sujeito às mesmas práticas comerciais de outros segmentos.
Na prática, isso desloca parte da discussão para dentro da operação do escritório. Sistemas de relacionamento, análise da origem dos contatos, acompanhamento do tempo de resposta e organização de informações podem ser usados para identificar gargalos sem depender de abordagens indiscriminadas. O próprio anexo do Provimento estabelece que ferramentas tecnológicas podem auxiliar advogados a aumentar a eficiência, desde que não substituam a responsabilidade e o poder de decisão do profissional.
Gustavo de Oliveira, fundador da Assessoria Alpha e especialista em desenvolvimento comercial, reforça a importância de focar no relacionamento. Existe uma diferença importante entre perseguir pessoas na internet e estruturar melhor o relacionamento com quem já demonstrou interesse legítimo pelo escritório. Muitas vezes, o crescimento está em responder melhor, organizar informações, acompanhar oportunidades e entender quais canais trazem contatos mais qualificados, diz.
Tecnologia começa a sair da produção de conteúdo
O movimento já aparece na forma como profissionais jurídicos usam inteligência artificial. Entre os usuários ouvidos pela Thomson Reuters em 2025, a revisão de documentos apareceu entre as aplicações mais frequentes, citada por 74%, seguida de pesquisa jurídica, com 73%, e resumo de documentos, com 72%. A pesquisa também identificou que 89% dos profissionais de escritórios consideravam a tecnologia aplicável ao trabalho jurídico, embora 48% das bancas ainda não tivessem políticas formais para seu uso.
Para o CEO da Assessoria Alpha, o próximo passo é levar a mesma lógica de eficiência para as áreas de gestão, sem transformar automação em prospecção indiscriminada. A IA na advocacia não deveria servir para enviar mais mensagens para mais pessoas. Ela pode ser mais útil quando ajuda a organizar dados, identificar padrões, reduzir falhas de atendimento e dar ao escritório informação para decidir onde concentrar tempo e investimento, afirma.
A preocupação com os limites não é apenas teórica. Em decisão publicada pelo Diário Eletrônico da OAB em 30 de abril de 2026, o Tribunal de Ética e Disciplina da seccional paulista aplicou o Provimento 205 ao analisar publicidade realizada em redes sociais. O acórdão reforçou critérios como discrição e sobriedade e afastou práticas consideradas incompatíveis com as normas de marketing jurídico.
Crescer no digital não exige transformar advogado em influenciador
A discussão também atinge a maneira como os escritórios constroem autoridade. Conteúdos técnicos, artigos, vídeos educativos e participação em debates são admitidos pelas normas da OAB desde que preservem o caráter informativo e não sejam usados para prometer resultados ou estimular diretamente a contratação. A revisão do Provimento 205 foi criada justamente para atualizar essas fronteiras diante das transformações tecnológicas e das novas formas de comunicação profissional. Em dezembro de 2025, o Conselho Federal informou que o processo havia entrado em sua fase final.
Advogado não precisa virar influenciador para construir presença digital. É possível desenvolver autoridade pela qualidade da informação e, paralelamente, profissionalizar processos internos para que o interesse gerado não se perca por falta de organização, afirma o especialista em desenvolvimento comercial. A Assessoria Alpha afirma reunir cerca de 400 profissionais, ter atendido mais de 3 mil clientes e atribuir aproximadamente R$539 milhões em receita aos negócios atendidos. Depois de desenvolver sua metodologia inicialmente no food service, a empresa iniciou a adaptação do modelo para medicina, odontologia, advocacia e contabilidade, com uso de inteligência de dados e IA. No setor jurídico, porém, a expansão exige uma camada adicional, qualquer estratégia de aquisição precisa nascer subordinada às regras profissionais da advocacia.

Athos Vilarins, CEO da Assessoria Alpha




