Artigo destaca que o Brasil precisa consolidar infraestrutura de segurança digital e confiança antes de expandir o uso de IA, citando dados sobre vulnerabilidades e a necessidade de governança.
O Brasil está preparado para a nova era da inteligência artificial
Por Mirella Kurata, fundadora e CEO da DMK3
- A chamada terceira via da IA, defendida por líderes mundiais, propõe que ética e soberania digital sejam vantagens competitivas.
- 77% das empresas brasileiras já sofreram ao menos um incidente de segurança após expandir sua infraestrutura tecnológica.
- Apenas 31% das organizações possuem um plano formal de resposta a incidentes cibernéticos.
- A integração de plataformas pode gerar ganhos de produtividade de 20% a 40%, mas amplia a superfície de ataque.
- A segurança e a governança não são apenas custos, mas condições indispensáveis para a inovação e a confiança no ambiente digital.
A discussão sobre o futuro da inteligência artificial ganhou uma nova dimensão nos últimos meses. Mais do que uma disputa tecnológica, diferentes países passaram a debater qual deve ser o papel da ética, da regulação, da sustentabilidade e da soberania digital no avanço da IA.
A ascensão da terceira via da inteligência artificial
É nesse contexto que surge a chamada terceira via da inteligência artificial, defendida por lideranças como o presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, durante o VivaTech 2026, em Paris. A proposta parte da ideia de que esses princípios podem ser vantagens competitivas e não obstáculos à inovação.
Para o Brasil, essa discussão é especialmente relevante, pois já avançamos em temas como privacidade e proteção de dados, inclusive com a LGPD, além de acompanhar movimentos regulatórios internacionais, como o AI Act europeu. Porém, existe uma questão anterior que precisa ser enfrentada: estamos preparados, em termos de infraestrutura e segurança, para sustentar essa próxima etapa da transformação digital
Os números revelam lacunas críticas na infraestrutura
Os dados indicam que ainda há um caminho importante a percorrer. Segundo levantamentos baseados em relatórios das parceiras SolarWinds, Sangfor e Kaspersky, 77% das empresas já sofreram pelo menos um incidente de segurança depois de expandirem sua infraestrutura tecnológica. Ao mesmo tempo, apenas 31% possuem um plano formal de resposta a incidentes.
Já a integração de plataformas e a ampliação da infraestrutura digital podem gerar ganhos relevantes de produtividade, estimados entre 20% e 40%, além de reduzir em até 30% os custos relacionados a ferramentas redundantes. No entanto, quanto maior e mais conectado é o ambiente tecnológico, maior também pode ser a superfície de ataque.
É justamente aqui que a maturidade digital deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma condição indispensável. Não dá para falarmos em inteligência artificial ética, transparente e sustentável se as organizações ainda não possuem estruturas básicas de proteção e resposta. Avançar digitalmente sem governança e maturidade não é inovação, mas sim exposição.
Novos desafios: identidades digitais não humanas
Uma nova camada de complexidade
A chegada da IA aos ambientes corporativos acrescenta outro desafio: as chamadas identidades digitais não humanas. Agentes de inteligência artificial, copilotos corporativos, APIs e sistemas automatizados já fazem parte da operação de muitas organizações. Em alguns casos, esses sistemas podem até superar numericamente os próprios colaboradores humanos. Ainda assim, sua gestão permanece pouco explorada.
Durante muito tempo, a preocupação central da segurança da informação esteve relacionada ao controle de acessos de funcionários, fornecedores e parceiros. Agora, porém, é preciso ampliar essa visão. Sistemas, aplicações e agentes de IA também passam a atuar dentro dos ambientes, com diferentes níveis de acesso e diferentes capacidades de ação. Isso exige uma mudança de perspectiva.
Uma empresa pode ter processos bem definidos para administrar seus colaboradores e, ao mesmo tempo, ter pouca visibilidade sobre tudo aquilo que está conectado aos seus sistemas. Com a expansão da inteligência artificial, essa diferença tende a se tornar ainda mais crítica. A segurança precisa acompanhar não apenas quem acessa determinado ambiente, mas também quais sistemas estão autorizados a executar ações, quais dados podem consultar e quais são os limites dessas operações.
Nesse cenário, o modelo Zero Trust também precisa evoluir para incorporar essas novas camadas de risco. Privacidade e segurança da informação já não podem ser tratadas apenas como custos operacionais ou requisitos de conformidade, mas sim integrar a própria estratégia de negócio.
O papel do setor público na soberania digital
O setor público também precisa amadurecer
Essa discussão ganha ainda mais relevância quando olhamos para o setor público. A digitalização dos processos elevou significativamente a exigência de capacitação tecnológica dos governos e das empresas que fornecem soluções para esse ecossistema. Não basta apresentar uma tecnologia interessante ou uma solução tecnicamente sofisticada, a maturidade digital passa a funcionar como um verdadeiro critério de avaliação.
Uma solução pode ser tecnicamente adequada, mas institucionalmente frágil se não houver uma infraestrutura confiável por trás dela, mecanismos de proteção de dados e capacidade efetiva de resposta diante de um incidente. Por isso, entregar tecnologia não é suficiente, sendo necessário comprovar que a infraestrutura é confiável, os dados estão protegidos e existe capacidade de resposta.
Isso está diretamente relacionado ao conceito de soberania digital. Em um cenário no qual governos, empresas e cidadãos dependem cada vez mais da tecnologia, ter controle e governança sobre a infraestrutura deixa de ser uma questão exclusivamente técnica.
Confiança como pré-requisito para a IA em escala
Antes da IA em escala, precisamos de confiança
A terceira via da inteligência artificial propõe que o desenvolvimento tecnológico caminhe junto com princípios como ética, sustentabilidade e soberania digital. Para o Brasil, porém, essa visão só poderá se tornar prática quando houver uma base tecnológica capaz de sustentá-la. Isso significa investir em segurança, governança, visibilidade dos ambientes digitais e capacidade de resposta, além de reconhecer que a infraestrutura não é apenas o suporte da inovação, mas parte dela.
A IA, por sua vez, pode transformar processos, modelos de negócio e serviços públicos. Porém, para que essa transformação seja sustentável, precisamos construir confiança no ambiente em que ela acontece. Na era da digitalização, isso deixou de ser apenas uma necessidade técnica e tornou-se um diferencial competitivo.

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