22 de julho de 2026

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Startup usa inteligência artificial para reduzir desperdício de alimentos em supermercados

Tecnologia Desperdicio 22/07/2026 14:40 Alessandra Mello - AgFeed agfeed.com.br

A startup Aravita desenvolveu uma tecnologia que usa inteligência artificial para ajudar supermercados a evitar o descarte de frutas, legumes e verduras. A empresa já conectou mais de 100 lojas e sua receita mais que triplicou em 2026, mas ainda busca crescer mais e convencer novos clientes.

Os dados sobre o desperdício de alimentos sempre impressionam. No Brasil, segundo uma estimativa da Embrapa feita há dois anos, são 75 kg de comida por pessoa, a cada ano, que vão para o lixo. Se considerada a produção de frutas, verduras e hortaliças, o cálculo é de que mais de 40% sejam desperdiçados.

É a partir dessa constatação que novas iniciativas vêm surgindo para tentar implementar políticas ou ferramentas de gestão que pelo menos minimizem o problema.

  • A startup Aravita usa inteligência artificial para ajudar supermercados a comprar a quantidade certa de frutas, legumes e verduras.
  • Com a tecnologia, os clientes da empresa reduziram em 25% o desperdício e em 30% a falta de produtos nas gôndolas.
  • A receita da startup mais que triplicou nos primeiros seis meses de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025.
  • A empresa já conectou mais de 100 lojas de supermercados, mas ainda não atingiu o ponto de equilíbrio financeiro.
  • No futuro, a Aravita planeja levar seus benefícios também para os produtores rurais, ajudando a equilibrar a cadeia de alimentos.

É um incômodo gigantesco que a gente tinha, a humanidade deveria estar preocupadíssima com isso, afirmou Marco Perlman, um dos três fundadores da Aravita, startup que desde 2023 vem trabalhando com o uso de inteligência artificial (IA) em sistemas de gestão voltados aos supermercados.

Em entrevista, o CEO ressaltou que o problema é muito antigo, mas acredita que agora, com o avanço da tecnologia, é possível olhar com outros olhos, na busca de soluções.

O desafio é maior no segmento ao qual se dedica a Aravita, que são as frutas, legumes e verduras, o chamado FLV.

São geralmente produtos que têm curtíssima vida útil. Além disso, na outra ponta, você tem uma volatilidade muito grande de oferta e de demanda, seja por fatores sazonais ou climáticos, especialmente temperatura e chuva, que faz uma diferença muito grande em como esses produtos são gerados e como são consumidos, explica.

Neste cenário, a IA tem sido a grande aliada para melhorar a tomada de decisão, aprimorando a gestão do varejo de alimentos. A Aravita optou por trabalhar com grandes redes de supermercados, considerando que são os agentes econômicos mais fortes da cadeia, no caso dos alimentos frescos, e quem tem, adicionalmente, os dados de melhor qualidade.

No primeiro ano a startup atuava com 30 lojas conectadas, agora já são mais de 100, segundo o CEO. Uma das redes é a St. Marche, de São Paulo, que tem contrato há dois anos. Outras duas estariam utilizando a ferramenta, mas os nomes não são divulgados.

Em busca do ponto de equilíbrio

Desde que foi criada, no começo de 2023, a Aravita teve apenas uma rodada de captação, de R$ 12 milhões.

Na conversa, Perlman disse que o ponto de equilíbrio ainda não foi atingido, mas que o crescimento vem ocorrendo ano a ano. Em 2025, por exemplo, a receita quintuplicou em relação ao ano anterior.

Acho que o primeiro grande teste de uma startup é saber se a dor existe. E essa é uma certeza que a gente tem desde cedo, ressaltou.

A segunda etapa na jornada seria comprovar que a solução tecnológica desenvolvida pela empresa funciona, o que também já teria sido cumprido, segundo ele.

A gente ainda está gastando, mas tem sido cuidadoso, a empresa tem 13 pessoas, então temos três fundadores e mais 10. Então estamos longe de ser aquelas coisas que saem contratando dezenas de pessoas e vamos ver o que acontece, ponderou.

O foco maior tem sido no desenvolvimento de novas funcionalidades para o sistema, que ele considera bem complexo.

Na verdade, ele (sistema) tem uma combinação de duas coisas. O principal produto que a gente entrega hoje é a otimização da compra. E estamos cada vez mais trabalhando nas outras decisões que complementam isso para otimizar a venda e o desperdício. Mas para poder fazer isso, existe não só a inteligência de processamento de dados, mas um sistema inteiro de preparar o pedido.

Além disso, Perlman diz que a empresa está ampliando o esforço comercial, conversando com mais gente para ver qual é a melhor forma de crescer, de forma organizada.

Esse é o desafio atual. A gente tem um produto que funciona bem, gera valor, agora a questão é se a gente consegue convencer todo mundo a pagar o que a gente acha que vale.

Apesar do desafio, o executivo garante que os resultados em 2026 seguem positivos. A receita de janeiro a junho deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025, também teria mais que triplicado.

A redução do desperdício vem sendo atingida. Segundo a Aravita, os clientes tiveram uma quebra (termo usado no varejo) 25% menor com o uso da solução. Também foi registrada uma diminuição de 30% na ruptura, que é a ocorrência de falta de produto na gôndola.

Os algoritmos fazem uma previsão de qual será o consumo de determinado produto, descontam quanto ainda há de estoque e cruzam com outros dados de mercado que ajudam não só a evitar o desperdício mas também a garantir que o vendedor não perca oportunidade de comercialização (casos onde a oferta na gôndola acabava várias horas antes do fechamento da loja, por exemplo).

O interesse pela tecnologia, a abertura para começar a testar, vem crescendo, segundo o CEO. A grande dúvida é qual vai ser a nossa capacidade de vender isso em escala, e é isso que a gente tem que provar esse ano.

Um dia chegará no campo

O foco nas grandes redes de supermercado tem a ver com o fato de contarem com tecnologia mais avançada, o que facilita na integração dos sistemas e no ganho de escala.

Enquanto não conquista novos clientes do varejo, a Aravita também vem conversando com distribuidores e acredita que um dia (ainda muito distante, é verdade) haverá benefício direto também ao produtor rural.

A expectativa é de que em algum momento seja possível pelo menos dar orientações ao produtor. Indicar, por exemplo, uma hora mais propícia para colher, em função de uma demanda maior que está sendo prevista para o período.

A gente acredita que trabalhando de trás para frente, a gente tem condição de aproveitar melhor o alimento e aí trabalhar os dois impactos que nos interessam, que são o impacto social, não deixar a gente comer mal e comer pouco, e o impacto ambiental, não gastar recurso do jeito errado, afirmou.

O CEO da Aravita lembra que na cadeia de hortifruti os intermediários existem porque eles têm a informação sobre a demanda. Mas como eles assumem os riscos, acabam determinando o preço ao produtor.

O distribuidor já é obrigado a tomar a decisão de estocar sem saber se vai vender ou não. Então ele compra do produtor e assume o risco. Quando ele assume o risco, ele paga menos.

Quando for possível ter um equilíbrio mais inteligente entre oferta e demanda, o empresário acredita que o dinheiro será distribuído de forma mais eficiente ao longo da cadeia.

O custo da ineficiência vai ficando pela cadeia. Todo mundo tem que empurrar isso para o mais fraco. E o mais fraco, não sempre, mas muitas vezes, é o produtor, que não tem como dizer não, avaliou.