21 de julho de 2026

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O que ainda define a experiência humana?

Tecnologia Memória 21/07/2026 07:31 Maria Félix Fontele (LC Agência)

Neste artigo, a escritora Maria Félix Fontele reflete sobre como a memória é essencial para a experiência humana, mas está sendo cada vez mais deixada de lado por causa da tecnologia. Ela alerta que o uso excessivo de inteligência artificial e telas pode prejudicar nossa memória, criatividade e até diminuir o QI das novas gerações.

Nada é tão importante para as pessoas como a memória. É através dela que lembramos momentos especiais e também os mais difíceis. No dia a dia, entre erros e acertos, vamos construindo uma identidade, um arquivo pessoal único que só pode ser passado adiante por meio da palavra, seja escrita ou falada.

  • A memória é a base da nossa identidade e experiência como seres humanos.
  • Estudos mostram que depender da inteligência artificial para respostas prontas pode prejudicar o cérebro e a criatividade.
  • O QI (quociente de inteligência) está caindo nas gerações mais jovens, e o uso excessivo de telas é um dos motivos.
  • Um neurocientista francês alerta que os dispositivos digitais estão afetando negativamente o desenvolvimento do cérebro de crianças e jovens.
  • A inteligência artificial já pode criar memórias falsas, o que muda a nossa percepção da realidade.

O historiador e escritor Amadou Hampâté Bâ (1901-1991), nascido em Mali, na África, e um grande defensor da tradição oral, dizia que "na África, cada ancião que morre é uma biblioteca que se queima". Isso mostra como a oralidade é importante para preservar a memória daquele continente.

O perigo de esquecer

Falando em queima, logo lembramos do filme "Fahrenheit 451". Dirigido por François Truffaut e lançado em 1966, baseado no livro do escritor Ray Bradbury, o filme mostra uma sociedade onde um governo totalitário proíbe e queima livros, enquanto as pessoas se entregam a uma tecnologia alienante. A solução dos rebeldes foi decorar livros inteiros para passar o conhecimento para as próximas gerações.

Então, a pergunta é: estamos perdendo a memória à medida que dependemos mais da tecnologia e deixamos até de pensar por conta própria

O que a ciência diz

A resposta é sim. Um estudo recente do MIT Media Lab (laboratório do Instituto de Tecnologia de Massachusetts) mostra que depender de respostas prontas da inteligência artificial afeta a memória, prejudica a atividade cerebral e a criatividade, e ainda facilita a criação de memórias falsas com conteúdos que parecem reais. O estudo alerta que "o descarregamento cognitivo pode atrofiar o cérebro e dificultar o aprendizado, enquanto as deepfakes alteram a percepção da realidade".

Pesquisas recentes mostram que o QI tem caído nas gerações mais jovens e que, pela primeira vez na história, os filhos têm QI menor que o dos pais. Um dos motivos para isso é o uso excessivo de telas.

O neurocientista francês Michel Desmurget, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França, lançou em 2021 o livro "A fábrica de cretinos", que é cada vez mais lido. Nele, ele mostra, com dados, que "os dispositivos digitais estão afetando seriamente e para pior o desenvolvimento neural de crianças e jovens". Em entrevista à BBC News, ele disse que "as evidências são claras, tanto que os testes de QI já mostram que as novas gerações são menos inteligentes".

O que ainda é humano

Então, se a inteligência artificial já pode alterar lembranças e diminuir a inteligência, o que ainda define a experiência humana Seriam as nossas emoções, memórias, sensibilidade e capacidade de criar

E se um dia a inteligência artificial deixar de ser apenas matemática avançada e passar a ter consciência Será que ela seria nós no futuro Vamos pensar sobre isso.