Uma empresa alemã chamada Planet A Foods desenvolveu um chocolate inovador que não leva cacau. Em vez disso, ele é feito principalmente com sementes de girassol. Esse produto, o ChoViva, já chamou a atenção de grandes empresas como Nestlé, Lindt e Barry Callebaut, que estão fazendo parcerias para usá-lo. Além de ter um gosto e textura parecidos com o chocolate tradicional, ele é muito mais sustentável, pois reduz as emissões de carbono em até 85%.
É possível produzir chocolate sem cacau e, ainda assim, entregar um produto praticamente igual ao tradicional, com sabor e cremosidade semelhantes Para a startup alemã Planet A Foods, a resposta é sim.
Com sede em Planegg, perto de Munique, na Alemanha, a empresa desenvolveu o ChoViva, uma alternativa ao chocolate que tem como base o cacau e é feita principalmente a partir da fermentação de sementes de girassol, além de usar também outros ingredientes como aveia e sementes de uva.
- O ChoViva é feito de sementes de girassol fermentadas, torradas e moídas, imitando o sabor do chocolate.
- Ele reduz a poluição causada pelo carbono em até 85,7% em comparação com o chocolate comum.
- Grandes marcas como Nestlé, Lindt e Barry Callebaut já fecharam parcerias para usar o ChoViva.
- A startup já levantou mais de 45 milhões de dólares de investidores para crescer.
- O produto já está disponível em mais de 100 mil lojas em toda a Europa e Ásia.
O grande diferencial do produto é a sustentabilidade. Segundo a Planet A Foods, o ChoViva chega a ter uma pegada de carbono até 85,7% menor do que a do chocolate convencional, dependendo da receita.
O principal motivo para essa diferença é o processo de produção, já que o cacau está historicamente ligado ao desmatamento nas principais regiões produtoras, que ficam na África.
É por isso, inclusive, que o nome da startup é "Planet A", já que, na visão de seus fundadores, não existe um plano B para o planeta.
"A Planet A Foods não é mais apenas uma startup: estamos a caminho de nos tornarmos uma empresa líder em tecnologia alimentar, remodelando a indústria de alimentos sustentáveis", disse Maximilian Marquart, CEO e cofundador da empresa, após fechar uma rodada de investimentos de 30 milhões de dólares em meados de 2024.
Até agora, a empresa já captou mais de 45 milhões de dólares com investidores, atraiu o interesse de gigantes da indústria, como Nestlé, Lindt e Barry Callebaut, e colocou o produto em dez países da Europa e da Ásia.
Como surgiu a ideia do chocolate sem cacau
A ideia surgiu a partir de uma preocupação dos irmãos Sara e Maximilian Marquart em 2021, quando criaram a startup. Durante a pandemia, os dois buscavam uma forma mais sustentável de produzir chocolate, cuja produção enfrenta desafios cada vez maiores.
Um estudo publicado em março do ano passado pela revista acadêmica Agricultural and Forest Meteorology indicou que as mudanças climáticas podem reduzir pela metade a área adequada para o cultivo de cacau na África Ocidental e Central até 2050.
É justamente nessa região que estão os maiores produtores de cacau do mundo, como Camarões, Costa do Marfim, Gana e Nigéria.
Só a Costa do Marfim perdeu 79% de sua cobertura florestal entre 2000 e 2024, sendo a expansão do cacau um dos principais motivos para isso, segundo um levantamento da organização sem fins lucrativos Trace, repassado à agência Reuters.
Esse cenário cria um problema para a cadeia do chocolate. Ao mesmo tempo em que o aquecimento global ameaça a produção e reduz as áreas disponíveis para o cultivo, a demanda mundial continua crescendo, pressionando ainda mais um mercado que já sofre com desmatamento, perda de biodiversidade e baixa remuneração dos produtores.
"Nosso abastecimento de alimentos está ameaçado por causa da forma como nos alimentamos", disse Max Marquart ao site americano TechCrunch no ano em que a startup foi criada. "Adoramos chocolate; no entanto, percebemos que existem alguns riscos à sustentabilidade e queríamos fazer algo a respeito para que ainda possamos tê-lo no futuro."
Como o ChoViva é feito
A resposta encontrada pela Planet A Foods para resolver o problema da produção de cacau foi substituir o fruto por sementes de girassol cultivadas na Europa Oriental. Esse processo não foi simples, contou Maximilian Maquart à CNN.
"Entre o nosso primeiro protótipo e a fórmula atual, tivemos 500 versões e nada daquele produto inicial sobreviveu até a versão comercial", disse.
O processo tenta reproduzir as mesmas transformações químicas que acontecem com os grãos de cacau. As sementes passam por um processo de fermentação, torra e moagem até virarem um concentrado rico em compostos aromáticos parecidos com os do chocolate.
Na etapa seguinte, esse concentrado é misturado com outros ingredientes, recebe gorduras vegetais e passa pelo processo de conchagem, uma técnica tradicional da indústria do chocolate que dá textura cremosa e acabamento ao produto.
Hoje, o ChoViva é vendido em quatro versões: ao leite, meio amargo, branco e vegano. Mais recentemente, também foi lançada uma versão sem adição de açúcar, que usa o adoçante maltitol.
Parcerias com grandes marcas
A Planet A Foods, no entanto, não vende diretamente para o consumidor final. Ela opera no modelo B2B, ou seja, faz acordos com outras empresas para que elas fabriquem produtos à base de ChoViva, como biscoitos, bombons de manteiga de amendoim e granola.
"Não estamos competindo com o seu Cadbury Milk ou com suas barras de chocolate puro, esse não é o nosso objetivo", disse Marquart à CNN.
A quantidade usada por outros fabricantes varia bastante. "Ele pode aparecer como cobertura de castanhas, em cookies ou até compor barras inteiras. Dependendo do produto, pode representar desde uma pequena fração até 100% da receita", afirmou Sara Marquart, cofundadora e diretora de tecnologia da Planet A Foods.
Até o momento, o ChoViva já foi usado em mais de 120 países da Europa e Ásia e, em diferentes formatos, está presente em mais de 100 mil lojas no mundo todo.
Apesar da proposta inovadora, a empresa evita colocar o ChoViva como um substituto definitivo do chocolate tradicional. "O interesse por alternativas ao cacau está crescendo, mas elas precisam coexistir com as categorias já existentes, sem competir diretamente com o chocolate convencional", afirmou Maximilian.
Segundo o executivo, a principal preocupação das grandes fabricantes não é necessariamente a sustentabilidade, mas a segurança no abastecimento diante da crescente instabilidade da produção mundial de cacau. "A sustentabilidade é um benefício importante, mas, para muitas empresas, garantir o fornecimento é o fator decisivo."
Embora ainda seja uma operação relativamente pequena, a Planet A Foods vem conquistando espaço entre as maiores empresas do setor.
Em março deste ano, a Nestlé anunciou uma parceria com a startup para lançar uma linha de produtos voltada para a geração Z, os snacks Choco Crossies Snack Vibes, com três sabores, todos usando ChoViva como matéria-prima base.
"A cooperação com a Nestlé fortalece o papel da ChoViva como parceira estratégica para fabricantes de marcas", afirmou Maximilian Marquart no anúncio do acordo. "Apoiamos nossos clientes a se conectarem com as novas gerações e construírem relevância de longo prazo."
Poucos meses depois, em maio deste ano, a Planet A Foods também ampliou sua parceria com a Barry Callebaut, líder mundial na fabricação de chocolates e produtos de cacau para profissionais. A startup alemã já tinha firmado um acordo com a companhia, a maior compradora de cacau do mundo, no fim de 2025, para expansão comercial na Europa e, neste ano, também passou a levar o ChoViva para os Estados Unidos.
"Estamos muito entusiasmados em ampliar nosso portfólio e compartilhar soluções que atendam às necessidades em constante evolução dos clientes e da indústria", afirmou Laura Bergan, diretora de marketing para marcas e clientes da Barry Callebaut. As empresas não divulgaram os volumes e valores envolvidos nos contratos.
Além da Nestlé e da Barry Callebaut, a startup alemã também já fechou acordos comerciais com a suíça Lindt, que lançou, em 2024, uma edição limitada de uma barra de chocolate vegana, e com a companhia aérea Lufthansa, com a varejista europeia Rewe, além de várias outras empresas de alimentos e bebidas do mercado europeu.
Investimentos e crescimento
Desde sua fundação, a Planet A Foods vem financiando esse crescimento por meio de sucessivas rodadas de investimento. A mais recente delas se encerrou em maio de 2024, quando a startup levantou 30 milhões de dólares em uma rodada do tipo série B, liderada pela Burda Principal Investments e pela Zintinus, com participação da World Fund, Bayern Kapital, Cherry Ventures, Tengelmann Ventures, BayWa Venture e Omnes Capital.
Essa rodada permitiu que a startup alemã ampliasse sua produção de 2 mil toneladas para 15 mil toneladas por ano de ChoViva em uma fábrica na cidade de Pilsen, na República Tcheca.
"O momento foi perfeito", diz Maximilian ao site GreenQueen. "Com as mudanças climáticas afetando a indústria do cacau e os preços subindo, a ChoViva oferece uma solução com impacto a longo prazo no mercado. Demonstrar que a ChoViva pode crescer e, ao mesmo tempo, ter um sabor convincente, nos deu confiança mesmo em um ambiente difícil."
A Planet A Foods não está sozinha no mercado. Outras empresas como a britânica Nukoko, que produz chocolate a partir de fava (uma leguminosa que faz o papel de feijão na Europa), e a brasileira Cellva também estão tentando entrar no mercado de chocolates sem cacau.
A Cellva, em especial, levantou 4 milhões de dólares em uma rodada de investimento pré-série A recentemente, com o objetivo de montar uma unidade semi-industrial em Manaus (AM). A startup brasileira está empenhada em colocar de pé o CoffeeCoa, um substituto de sólidos de cacau feito a partir do fruto do café arábica, mas não do grão, e sim do que sobra dele.
O resultado é um ingrediente natural capaz de substituir sólidos de cacau em receitas de bolos, brownies, biscoitos, sorvetes e bebidas. "Onde houver chocolate, pode haver CoffeeCoa", disse o CEO da empresa, Sérgio Pinto, ao AgFeed em março passado.

Barras do ChoViva, o chocolate alternativo produzido pela Planet A Foods


