13 de julho de 2026

?? ºC São Paulo - SP
?? ºC Salvador - BA
?? ºC Cuiabá - MT

IA sem dados: o palpite que pode custar caro

Tecnologia Dados 13/07/2026 16:46 Thiago Nalesso Cardoso, executivo com mais de 25 anos de experiência

A inteligência artificial (IA) pode ser uma ferramenta poderosa, mas seu sucesso depende totalmente da qualidade dos dados que a alimentam. Sem uma base de dados confiável e organizada, a IA não passa de adivinhação, podendo automatizar erros e tomar decisões injustas. Este artigo explica por que a organização dos dados é o primeiro e mais importante passo para usar a IA de verdade nos negócios.

Toda geração enfrenta uma tecnologia que parece, ao mesmo tempo, a solução de todos os problemas e a origem de todos os medos. A imprensa foi acusada de corromper o conhecimento. A eletricidade, de destruir empregos. A internet, de fragmentar a sociedade. E, hoje, a inteligência artificial ocupa esse lugar ambíguo: símbolo de progresso e objeto de desconfiança em igual medida.

A história, porém, oferece um padrão consistente. Em cada uma dessas ondas tecnológicas, o problema nunca foi a ferramenta em si, mas a forma como a sociedade escolheu usá-la. A pergunta relevante não é se a IA é boa ou má. A pergunta é: estamos preparados para usá-la bem

  • A IA aprende a partir dos dados que recebe. Se os dados forem ruins, a IA vai aprender coisas erradas e tomar decisões ruins.
  • Estudos mostram que apenas 3% dos dados em grandes empresas têm qualidade básica. Cientistas de dados gastam até 80% do tempo apenas limpando informações.
  • Um erro de dado pode custar até 10 vezes mais para ser corrigido depois de processado. 10% de dados ruins podem gerar 90% de custos extras.
  • Antes de pensar em IA, as empresas precisam organizar seus dados. Sem autonomia e governança, a inteligência artificial não passa de confusão automatizada.
  • O futuro não é da empresa que comprar a ferramenta mais cara, mas daquela que souber combinar inteligência artificial com inteligência humana, construindo uma base de dados confiável.

Preparação, nesse contexto, tem um significado muito específico, e ele começa muito antes do algoritmo.

A lição que a história não cansa de repetir

Andrew McAfee, pesquisador do MIT e autor de "More from Less", documentou algo que contraria o pessimismo corrente: nas últimas décadas, o mundo produziu mais alimentos, mais energia, mais conhecimento e mais conforto usando, proporcionalmente, menos matéria-prima, menos terra agrícola e menos recursos por unidade produzida. O crescimento não parou. A eficiência aumentou.

Os dados sustentam essa visão com uma clareza difícil de ignorar. Em 1800, a expectativa de vida global girava em torno de 30 anos. Hoje, ultrapassa 72. Naquele século, cerca de 40% das crianças morriam antes dos cinco anos de idade; atualmente, esse índice está abaixo de 4%, segundo dados compilados por Hans Rosling e pela plataforma Our World in Data. A proporção da humanidade vivendo em pobreza extrema caiu de mais de 80% para cerca de 8%.

Essas transformações não aconteceram por acaso. Foram resultado direto da aplicação sistemática de tecnologia - vacinas, antibióticos, agricultura moderna, comunicação global. Poucas forças na história salvaram mais vidas do que a inovação tecnológica bem aplicada.

O smartphone é, talvez, o exemplo mais didático da era atual. Um único aparelho substituiu a câmera fotográfica, o GPS, a agenda, o rádio, a calculadora, o mapa impresso e o despertador. Mais valor, menos matéria. É o que os economistas chamam de desmaterialização, e é exatamente o que a IA promete fazer com o trabalho cognitivo.

A ressalva de McAfee, no entanto, merece atenção: ao mesmo tempo em que resolvemos muitos problemas materiais, surgiram novos desafios - solidão, ansiedade, falta de propósito, isolamento social. O maior problema do século 21 talvez não seja tecnológico. Seja humano, e nenhuma IA resolve isso sozinha.

O que a IA não aprende sem dados corretos

Se a história mostra que a tecnologia amplia a capacidade humana, ela também mostra que ferramentas mal alimentadas produzem resultados perigosos. E é aqui que reside o problema central da adoção de inteligência artificial nas organizações hoje.

Um sistema de IA não aprende a realidade. Ele aprende a representação da realidade que os dados entregam. Se essa representação for incompleta, enviesada ou fragmentada, o modelo vai automatizar a confusão - não a inteligência.

Um caso real ilustra o risco com precisão brutal: uma mulher teve analgésicos negados por um sistema automatizado de saúde porque prescrições feitas para seu cachorro foram, por erro cadastral, atribuídas a ela. O modelo a classificou como risco de dependência de opioides. O dado estava tecnicamente no sistema. O problema era que representava mal a pessoa. A decisão foi injusta e automatizada.

Os números agregados confirmam que esse tipo de problema não é exceção, é estrutural. Segundo artigo publicado na Harvard Business Review, apenas 3% dos dados avaliados em grandes organizações atendem a padrões básicos de qualidade. Cientistas de dados relatam gastar até 80% de seu tempo apenas limpando dados - sem conseguir corrigir o que não sabem que está faltando. E dado ausente também ensina errado.

A "Regra dos Dez", amplamente documentada na literatura de engenharia de qualidade, estabelece que corrigir um erro de dado após o processamento custa até dez vezes mais do que tê-lo prevenido na origem. Em termos práticos: 10% de dados ruins podem gerar 90% do custo adicional de uma operação.

A base importa mais do que a ferramenta

Há uma tendência natural, especialmente em ambientes de negócio sob pressão de resultados, de pular etapas. Comprar a ferramenta de IA antes de organizar os dados. Contratar o modelo antes de governar a fonte. É a versão corporativa de querer falar da inteligência artificial para frente antes de organizar a inteligência artificial para trás.

A cadeia lógica é simples, mas frequentemente ignorada: pessoas geram processos, processos geram dados, dados alimentam a IA, a IA gera decisões, decisões geram valor. Quebrar qualquer elo dessa corrente compromete o resultado final. E o elo mais frágil, na maioria das organizações brasileiras, ainda é o dado.

Qualidade de dados, nesse contexto, não é responsabilidade exclusiva da área de tecnologia da informação. É uma questão estratégica de negócio. O dado é técnico na forma, mas é estratégico no impacto. Quem registra, quem usa e quem decide com base nele precisam compartilhar essa responsabilidade.

A experiência prática em distribuição ilustra bem esse ponto. Antes de pensar em IA, aplicativos ou automação, é necessário resolver um problema mais básico: os dados precisam estar sob plena autonomia da empresa. Quando sistemas de ERP são compartilhados entre diferentes unidades de um grupo, quando informações comerciais se misturam com estruturas de outras companhias, a fundação está comprometida. O primeiro movimento precisa ser separar, organizar e governar. Sem autonomia sobre os dados, não existe inteligência própria.

Quando os dados estão certos, a IA muda a decisão

O contraste entre operar com dados fragmentados e operar com dados organizados é radical e mensurável. Com dados soltos, um sistema de IA pode dizer genericamente que um cliente "tem potencial". Com uma base organizada, ele consegue cruzar comportamento de compra, histórico de ruptura, sazonalidade, dados de mercado e perfil de consumidores semelhantes para gerar uma recomendação específica: "este cliente vende bem produtos de limpeza, mas compra pouco amaciante; clientes com perfil similar compram lava-roupas líquido, desinfetante e limpadores perfumados; recomendo visita comercial nos próximos sete dias com foco em ampliação de mix e correção de ruptura". A diferença não está no algoritmo, está na qualidade da informação que o alimenta.

Quando a base está pronta, novos sistemas deixam de ser projetos isolados e passam a se conectar a uma arquitetura comum. Planejamento de demanda, controle de estoque, roteirização logística, execução comercial, comunicação interna - cada um desses processos ganha inteligência própria porque compartilha uma fundação confiável. A velocidade para criar soluções aumenta, o custo de manutenção cai, e a confiança nos resultados cresce.

O que a IA não substitui

A inteligência artificial pode calcular, analisar, resumir e automatizar com uma velocidade e escala que nenhum humano alcança. Mas ela não pode amar, liderar pelo exemplo, criar confiança ou exercer caráter. Não pode substituir o julgamento formado pela experiência, a empatia construída pelo relacionamento ou a responsabilidade que vem da consciência. Por esse motivo, o futuro não pertencerá às empresas que comprarem a ferramenta mais sofisticada, mas sim àquelas que souberem combinar inteligência artificial com inteligência humana - e que tiverem a disciplina de construir, antes de tudo, a base que torna essa combinação possível.

Pânico paralisa; qualificação posiciona; a tecnologia muda o trabalho; a responsabilidade decide quem cresce com ela.