30 de junho de 2026

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Redes privadas: controle local, mas dependentes de patentes mundiais

Tecnologia 30/06/2026 17:17 Brenda Albuquerque, especialista em patentes do Di Blasi, Parente & Associados

As redes privativas, como as baseadas em 4G e 5G, dão mais controle e segurança para empresas, mas ainda dependem de tecnologias protegidas por patentes globais. Isso cria um paradoxo: mesmo com autonomia local, é preciso pagar licenças para grandes empresas de tecnologia. Entenda como isso afeta setores como indústria, logística e até transmissões de TV.

As redes privativas têm se tornado uma solução importante para setores que precisam de alto desempenho, baixa latência e mais controle sobre a comunicação. Essas redes, baseadas em tecnologias 4G LTE e 5G, permitem que empresas e organizações tenham sistemas dedicados, com mais segurança, confiabilidade e eficiência. Mas, mesmo com essa autonomia, há um problema: a dependência de padrões tecnológicos globais, que são protegidos por patentes essenciais (SEPs).

Esses padrões incluem tecnologias fundamentais para o funcionamento das redes móveis modernas, como modulação, codificação, acesso ao meio e gerenciamento de mobilidade. Grande parte dessas soluções é protegida por patentes de empresas como Qualcomm, Ericsson, Nokia e Huawei. Isso significa que qualquer rede que use esses padrões precisa, obrigatoriamente, usar essas tecnologias patenteadas.

  • O que são redes privativas São redes de comunicação exclusivas para uma empresa ou organização, oferecendo mais controle e segurança.
  • Por que elas dependem de patentes Porque usam tecnologias padronizadas globalmente, como 4G e 5G, que são protegidas por patentes de grandes empresas.
  • O que é uma patente essencial (SEP) É uma patente necessária para que um produto ou serviço funcione de acordo com um padrão tecnológico, como o 5G.
  • Como isso afeta as empresas Elas precisam negociar licenças com várias empresas detentoras de patentes, o que pode ser caro e complicado.
  • Exemplos de uso: Redes privativas são usadas em indústrias para automação, em portos para rastreamento de cargas, em minas para controle de veículos e até em eventos como o Carnaval para transmissão de TV.

É aí que surge o paradoxo: embora as redes privativas permitam controle local sobre a operação, elas ainda estão ligadas a um sistema global de propriedade intelectual. Na prática, as empresas que implementam essas redes precisam negociar licenças com vários donos de patentes, geralmente em condições justas e razoáveis, chamadas de FRAND.

Exemplo no Brasil: Carnaval com 5G

Um exemplo claro desse paradoxo aconteceu no Brasil. Durante o Carnaval do Rio de Janeiro e de São Paulo, o Grupo Globo usou infraestrutura 5G para transmitir os desfiles. A Globo usou soluções da Ericsson, integradas à rede 5G da Claro. Isso permitiu a transmissão de vídeo em alta definição diretamente das câmeras para a produção, com mais mobilidade e menos cabos. Essa operação, que parece uma rede privativa, na verdade usou tecnologias protegidas por patentes globais.

Outros setores que usam redes privativas

Essa dependência de patentes também aparece em outros setores:

  • Indústria: Redes privativas ajudam na automação de processos e no controle de máquinas e robôs em tempo real.
  • Portos e logística: Permitem rastrear cargas e operar equipamentos remotamente.
  • Mineração: Controlam veículos autônomos em áreas de risco.
  • Grandes eventos: Como a Copa do Mundo, onde redes dedicadas dão suporte para transmissão e serviços ao público.

No Brasil, essa situação envolve questões tecnológicas, comerciais e também institucionais. O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concede as patentes, enquanto a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) regula o uso do espectro e a implementação das redes. A coordenação entre esses órgãos é essencial para criar um ambiente que incentive a inovação sem prejudicar o acesso às tecnologias necessárias.

Portanto, o avanço das redes privativas mostra um equilíbrio delicado entre autonomia e dependência tecnológica. Esse paradoxo não é apenas teórico, mas prático, influenciando decisões de investimento, estratégias de inovação e políticas de regulamentação. Entender essa dinâmica é fundamental para que empresas e formuladores de políticas aproveitem todo o potencial dessas redes, lidando de forma eficiente com as patentes essenciais.