29 de junho de 2026

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Energia geotérmica: investimento necessário para desenvolver novas tecnologias

Tecnologia Geotérmica 29/06/2026 16:11 Christine Ro, BBC News bbc.co.uk

Empresas estão criando novas formas de usar o calor natural do interior da Terra para gerar eletricidade. Essas tecnologias inovadoras podem ser usadas em mais lugares do que nunca, mas ainda são caras e precisam de mais dinheiro para se tornarem viáveis. Democratas e republicanos nos Estados Unidos concordam que essa é uma boa fonte de energia limpa e que pode ajudar o país a ser mais independente.

É difícil encontrar políticos democratas e republicanos que concordem em muitas coisas hoje em dia, mas os benefícios da energia geotérmica são uma área rara de consenso.

A energia geotérmica aproveita o calor natural do interior da Terra. A nova geração de tecnologias consegue acessar locais mais quentes, mais profundos e mais variados do que nunca.

  • Democratas e republicanos nos EUA concordam que a energia geotérmica é boa.
  • Novas tecnologias perfuram mais fundo e mais rápido, usando até ondas de micro-ondas para derreter rochas.
  • A empresa Fervo Energy abriu seu capital na bolsa de valores, avaliada em US$ 7,7 bilhões.
  • O Google já comprou energia geotérmica da Fervo para seus data centers.
  • Ainda é caro, mas a expectativa é que os preços caiam com o tempo e a tecnologia se torne mais barata que o gás natural.

De forma geral, as baixas emissões de gases do efeito estufa das usinas geotérmicas agradam os liberais. Já os conservadores gostam da independência energética que ela traz, além do uso de técnicas de perfuração já conhecidas na indústria de petróleo e gás.

Alguns estados dos EUA estão tentando acelerar as licenças para usinas geotérmicas. Em abril, senadores dos dois partidos apresentaram uma lei para apoiar o desenvolvimento da próxima geração de sistemas de energia geotérmica.

Um tipo novo é chamado de sistemas geotérmicos aprimorados (EGS, na sigla em inglês). Nele, a rocha subterrânea é fraturada hidraulicamente. Isso é feito bombeando fluido pressurizado em um poço e depois coletando vapor ou água quente de outro poço.

Mais conhecido como fraturamento hidráulico (fracking), essa técnica se tornou famosa e polêmica na indústria de petróleo e gás.

"São as mesmas técnicas e, até certo ponto, a mesma indústria", resume Gernot Wagner, economista do clima da Columbia Business School, em Nova York. Mas "do ponto de vista climático, há uma grande diferença", acrescenta.

Para ele, o risco de atividade sísmica, ao criar rachaduras no subsolo, é superado pelos benefícios de uma fonte de energia renovável, que funciona sempre e tem grande capacidade.

"Com base em onde estamos, avançar muito mais rápido e de forma muito maior na direção de usar muito mais energia geotérmica é, francamente, uma ótima notícia", diz Wagner.

Perfurando mais fundo com tecnologia de micro-ondas

Para ir mais rápido e mais fundo, são necessários avanços nas tecnologias de perfuração. Empresas estão desenvolvendo equipamentos de perfuração mais estáveis ao atravessar rochas duras em altas temperaturas. Algumas empresas estão até tentando penetrar na rocha sem usar brocas comuns.

A Quaise, uma empresa com raízes no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), está usando uma tecnologia chamada perfuração por ondas milimétricas. A frequência é semelhante à das micro-ondas.

A aplicação da Quaise envolve "enviar ondas eletromagnéticas na faixa de micro-ondas e ondas milimétricas para derreter e vaporizar a rocha", explica Harry Kelso, gerente de comunicação da empresa.

A energia geotérmica tradicional se concentra em pontos quentes na superfície da Terra, onde rochas muito quentes podem ser acessadas facilmente. "A perfuração por ondas milimétricas permite acessar energia geotérmica superquente em praticamente qualquer lugar do mundo", diz Kelso.

Embora a Quaise planeje usar alguma perfuração convencional no projeto que está desenvolvendo no Oregon, Kelso diz que as brocas convencionais começam a se desgastar mais rapidamente quando atingem rochas muito duras. A substituição das brocas aumenta o custo e o tempo de perfuração. No caso da Quaise, "a perfuração por ondas milimétricas é o que realmente muda isso, porque não usamos uma broca física".

Outras empresas também estão trabalhando em tecnologia de perfuração avançada, como projéteis que se movem várias vezes mais rápido que a velocidade do som.

Água reciclada e custos ainda altos

Outro recurso crucial no processo é a água. Embora alguns tipos de energia geotérmica de próxima geração possam criar riscos de contaminação ou consumo excessivo de água, um projeto cuidadoso pode evitar esse problema.

Inicialmente, o sistema da Quaise requer muita água, mas, de acordo com Kelso, uma vez que a água está no sistema, ela é continuamente circulada sobre as rochas superquentes. "Estamos essencialmente reciclando a água repetidamente", diz ele.

A Quaise continua captando recursos, com o objetivo de ter seu projeto no Oregon em funcionamento até 2030. Como outras versões iniciais de sistemas geotérmicos, é um projeto caro para colocar em funcionamento. "A economia é um pouco desafiadora", admite Kelso. "A energia geotérmica hoje ainda é mais cara porque você não obtém tanta energia do poço quanto obteria se usasse aquele poço para combustível fóssil."

Mas a Quaise espera que, ao atingir temperaturas muito altas, entre 300°C e 500°C, a economia melhore. Embora o extremo superior dessa faixa de temperatura seja ambicioso, quanto mais quente, melhor. "Isso permite obter 10 vezes mais energia por poço de energia geotérmica, o que muda a economia e o potencial de energia da geotérmica", segundo Kelso.

Fervo Energy: a primeira empresa do setor a abrir capital

Em maio, a empresa texana Fervo Energy gerou enorme interesse ao se tornar a primeira empresa de energia geotérmica de próxima geração a abrir seu capital na bolsa de valores. Foi inicialmente avaliada em cerca de US$ 7,7 bilhões. No momento da publicação, as ações estão cerca de 18% acima do preço da oferta pública inicial.

A Fervo cita um custo de construção para sua usina em Utah de US$ 7.000 por quilowatt de eletricidade, o que, segundo ela, é comparável à energia nuclear tradicional. E, embora seja caro, a Fervo ressalta que, como outras fontes de energia renovável, não tem custos contínuos com combustível. "Com o tempo, nosso objetivo é alcançar escala e reduzir os preços para que possamos superar o gás", disse a empresa em seu documento de abertura de capital.

A Fervo tem um cliente de alto perfil: em 2021, fechou um acordo para vender sua energia para o Google, que precisa de enormes quantidades de eletricidade para seus novos data centers. Também tem o apoio da Breakthrough Energy, um empreendimento do fundador da Microsoft, Bill Gates, para acelerar a produção inovadora de eletricidade.

Futuro promissor, mas ainda incerto

Esse tipo de investimento é muito necessário para as empresas de energia geotérmica de próxima geração, que têm enormes custos de capital. Os projetos de data centers por si só não serão suficientes para fazer a diferença, segundo a Agência Internacional de Energia.

Tanto a demanda dos clientes quanto os custos permanecem incertos. A organização de soluções climáticas Project Drawdown observa que "os primeiros projetos carregam um risco significativo de estouro de custos".

No entanto, o pesquisador da Columbia, Wagner, acredita que a energia geotérmica tem um potencial tremendo e não é apenas hype. Ele enfatiza que commodities como petróleo, gás e carvão são vulneráveis a interrupções políticas, mas "a energia geotérmica é uma tecnologia" e mais segura. Wagner está confiante de que a energia geotérmica agora decolou e só vai melhorar e baratear com o tempo.