Novas empresas estão criando formas inovadoras de usar o calor da Terra para gerar energia. A energia geotérmica, que aproveita o calor natural do subsolo, está ganhando atenção nos EUA. Democratas e republicanos concordam em apoiar essa tecnologia limpa. Mas será que o custo vai valer a pena no final?
É difícil fazer com que políticos democratas e republicanos concordem em muitas coisas no momento, mas os benefícios da energia geotérmica são uma área rara de consenso.
A energia geotérmica usa o calor natural que existe abaixo da superfície da Terra. A nova geração de tecnologias consegue acessar locais mais quentes, mais profundos e mais variados do que nunca.
- Democratas e republicanos concordam que a energia geotérmica é boa, mas por razões diferentes
- Novas tecnologias permitem perfurar rochas mais profundas e quentes, em qualquer lugar do mundo
- Uma empresa usa ondas de rádio para derreter e vaporizar a rocha, em vez de usar brocas comuns
- Outra empresa já abriu seu capital na bolsa de valores, mostrando que o setor está crescendo
- O grande desafio é o custo alto para construir as usinas, mas a energia gerada não precisa de combustível
De modo geral, as usinas geotérmicas liberam poucos gases que causam o efeito estufa. Isso agrada os liberais. Já os conservadores gostam da independência energética que a geotérmica traz, além do uso de técnicas de perfuração que já são conhecidas na indústria do petróleo e do gás.
Alguns estados americanos estão tentando acelerar as autorizações para usinas geotérmicas. Em abril, senadores dos dois partidos apresentaram a Lei de Pesquisa e Desenvolvimento de Geotérmica de Próxima Geração.
Essa lei pede que o Departamento de Energia dos EUA ajude a desenvolver e vender a nova geração de sistemas de energia geotérmica.
O que são os novos sistemas geotérmicos
Um tipo novo é chamado de sistemas geotérmicos aprimorados (EGS). Nesse sistema, a rocha subterrânea é fraturada usando pressão. Isso é feito bombeando um fluido pressurizado em um poço e, depois, coletando vapor ou água quente de outro poço.
Essa técnica é mais conhecida como fraturamento hidráulico, ou "fracking". Ela ficou famosa e também gerou polêmica na indústria do petróleo e do gás.
"São as mesmas técnicas e, até certo ponto, a mesma indústria", resume Gernot Wagner, economista do clima da Columbia Business School, em Nova York. Mas "do ponto de vista do clima, há uma grande diferença", ele acrescenta.
Para Wagner, o risco de causar pequenos terremotos ao criar rachaduras no subsolo é menor do que os benefícios de ter uma fonte de energia que é renovável, está sempre disponível e tem grande capacidade.
"Baseado em onde estamos, ir muito mais rápido e maior na direção de usar muito mais energia geotérmica é, francamente, uma ótima notícia", diz Wagner.
Como furar mais fundo
Para ir mais rápido e mais fundo, é preciso avançar nas tecnologias de perfuração. Empresas estão criando equipamentos de perfuração mais estáveis para quebrar rochas duras em altas temperaturas. Algumas empresas estão até tentando perfurar a rocha sem usar brocas comuns.
A Quaise, uma empresa que começou no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), está usando uma tecnologia chamada perfuração por ondas milimétricas. A frequência é parecida com a de micro-ondas.
O método da Quaise envolve "enviar ondas eletromagnéticas na faixa de micro-ondas e ondas milimétricas para derreter e vaporizar a rocha", explica Harry Kelso, gerente de comunicação da Quaise.
A energia geotérmica tradicional fica concentrada perto de pontos quentes na superfície da Terra, onde rochas muito quentes são fáceis de acessar. "A perfuração por ondas milimétricas permite acessar calor geotérmico superquente em praticamente qualquer lugar do mundo", diz Kelso.
Embora a Quaise planeje usar alguma perfuração convencional em seu projeto no Oregon, Kelso diz que as brocas comuns começam a quebrar mais rápido quando encontram rochas muito duras. Trocar as brocas aumenta o custo e o tempo da perfuração. "A perfuração por ondas milimétricas muda isso porque não usamos uma broca física", afirma Kelso.
Outras empresas também estão trabalhando em tecnologia de perfuração avançada, como projéteis que se movem várias vezes mais rápido que a velocidade do som.
O papel da água
Outro recurso importante no processo é a água. Embora alguns tipos de geotérmica de próxima geração possam causar riscos de contaminação da água ou consumo excessivo, um projeto cuidadoso pode evitar esse problema.
Inicialmente, o sistema da Quaise precisa de muita água, mas, de acordo com Kelso, depois que a água entra no sistema, ela é continuamente circulada sobre as rochas superquentes. "Estamos basicamente reciclando a água repetidamente", ele diz.
A Quaise continua levantando fundos, com o objetivo de que seu projeto no Oregon esteja funcionando até 2030.
O desafio do custo
Como outras versões iniciais de sistemas geotérmicos, é um projeto caro para sair do papel. "A economia é um pouco desafiadora", admite Kelso. "A energia geotérmica hoje ainda é mais cara porque você não obtém tanta energia do poço quanto obteria se usasse aquele poço para combustível fóssil."
Mas a Quaise espera que, ao mirar em temperaturas muito altas, entre 300°C e 500°C, a economia melhore. "Isso permite obter 10 vezes mais energia por poço de energia geotérmica, o que muda a economia e o potencial de energia da geotérmica", segundo Kelso.
Em maio, a empresa texana Fervo Energy gerou enorme interesse ao se tornar a primeira empresa de energia geotérmica de próxima geração a abrir seu capital na bolsa. Ela foi inicialmente avaliada em cerca de US$ 7,7 bilhões. As ações subiram cerca de 18% desde o preço da oferta pública inicial.
A Fervo cita um custo de construção para sua usina em Utah de US$ 7.000 por quilowatt de eletricidade, o que, segundo ela, é comparável à energia nuclear tradicional. E, embora isso seja caro, a Fervo destaca que, como outras fontes de energia renovável, não há custos contínuos com combustível.
"Com o tempo, nosso objetivo é alcançar escala e reduzir os preços para que possamos superar o gás", disse a empresa em seu documento de abertura de capital.
A Fervo tem um cliente de alto perfil: em 2021, fechou um acordo para vender sua energia para o Google, que precisa de enormes quantidades de eletricidade para seus novos centros de dados. A empresa também tem o apoio da Breakthrough Energy, um empreendimento do fundador da Microsoft, Bill Gates, para acelerar a produção inovadora de eletricidade.
O futuro da energia geotérmica
Esse tipo de investimento é muito necessário para as empresas de geotérmica de próxima geração, que têm custos de capital enormes. Projetos de centros de dados sozinhos não serão suficientes para fazer a diferença, segundo a Agência Internacional de Energia.
Tanto a demanda dos clientes quanto os custos permanecem incertos. A organização de soluções climáticas Project Drawdown observa que "os primeiros projetos carregam um risco significativo de estouro de custos".
No entanto, o pesquisador Wagner, da Universidade Columbia, acredita que a geotérmica tem um potencial tremendo e não é apenas moda. Ele enfatiza que commodities como petróleo, gás e carvão são vulneráveis a perturbações políticas, mas "a geotérmica é uma tecnologia" e mais segura. Wagner está confiante de que a energia geotérmica agora decolou e só vai melhorar e ficar mais barata com o tempo.

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