Vilarejos no Himalaia estão criando geleiras artificiais para garantir água para suas plantações na primavera. Uma nova tecnologia automatizada transforma água congelada em torres de gelo, ajudando agricultores que sofrem com a falta de água causada pelo aquecimento global.
A quase 4.000 metros de altitude, com quase nenhuma chuva, o vilarejo de Sakti, no Himalaia, é um lugar muito difícil para se viver da agricultura.
- A vila de Sakti fica a quase 4.000 metros de altitude, em uma região de deserto frio.
- As geleiras pequenas que forneciam água para as plantações desapareceram por causa do aquecimento global.
- Uma nova tecnologia chamada AIR cria torres de gelo de forma automatizada, sem risco de canos congelarem.
- O sistema usa sensores e um computador para controlar a água e o gelo, economizando recursos.
- Com mais água, os jovens da vila não precisam mais ir para as cidades em busca de trabalho.
"Ladakh tem uma estação de cultivo muito curta e difícil", conta Gelak Gutme, que cultiva trigo, ervilhas e batatas há 65 anos. "É um deserto com um clima extremo."
As condições pioraram muito na vida dele. O aquecimento global fez as pequenas geleiras, que ficavam perto das vilas e forneciam água para as plantações, desaparecerem completamente.
"Agora falta água. No ano passado, perdi tudo: minha plantação inteira secou por falta de água", diz Gutme.
"Por gerações, as pequenas geleiras agiam como torres de água congelada, guardando água no inverno e liberando na primavera, na época do plantio", explica Lobzang Fardod, que trabalha em um comitê local de gestão de água em Ladakh. "Agora essas geleiras sumiram e viraram um deserto de pedras secas. Não sobrou nada para derreter."
O verão nas montanhas é curto. Os agricultores precisam plantar até maio, senão as colheitas não ficam prontas antes do inverno. Por isso, ter água no começo da primavera é essencial para eles.
Para conseguir essa água, algumas vilas de Ladakh tentaram criar seus próprios reservatórios de gelo no começo dos anos 2010. O sistema antigo levava água das montanhas mais altas no inverno e a borrifava no ar. A água congelava e formava grandes torres de gelo, chamadas de "estupas de gelo".
Essas torres derretiam na primavera e forneciam água, mas eram um pesadelo de manejar no inverno rigoroso, diz Fardod. Se a temperatura caía abaixo de -20°C, ou às vezes -30°C, a água nos canos congelava, rachando os canos e estragando todo o sistema.
Para evitar isso, grupos de quatro ou cinco agricultores acampavam perto da fonte de água durante o inverno, prontos para desentupir os canos com água fervendo, geralmente durante a noite, quando o frio era mais forte.
Uma nova tecnologia salva a lavoura
Essa vida difícil nas montanhas congeladas pode acabar. Uma nova parceria com a empresa Acres of Ice criou um sistema mais moderno, chamado AIR (Reservatório Automático de Gelo).
"Como os sistemas antigos de água estão falhando, Ladakh virou um centro de ideias inovadoras para engenharia hidráulica", diz Murtaza Ali, engenheiro do governo local.
O novo sistema também usa canos para trazer água das montanhas, mas tem um controle muito mais preciso. A água chega com pressão no vale e sai por um bico vertical, formando um "chuveirão gigante", explica o Dr. Suryanarayanan Balasubramanian, fundador da Acres of Ice.
Um computador, dentro de uma caixa à prova de clima, controla o fluxo de água. A caixa é alimentada por painéis solares e uma bateria. O sistema está ligado a uma estação meteorológica que monitora o tempo e a temperatura da água dentro do cano.
Se os sensores detectarem que a temperatura do ar está caindo rápido demais, ou que a água no cano está perto de congelar, o sistema age automaticamente. Ele fecha a válvula no topo do cano e abre outra na base, drenando toda a água parada.
Isso evita que os canos rachem. Além disso, o sistema é mais eficiente para fazer gelo. Em vez de borrifar água sem parar, o AIR dispara uma névoa fina, cobre o gelo existente e para.
"O sistema espera o tempo exato para aquela camada de gotículas congelar, baseado no vento e na umidade, e então dispara a névoa de novo", explica Balasubramanian. Ele diz que o sistema transforma quase toda a água em gelo.
Tudo funciona automaticamente, usando uma rede sem fio local para conectar a caixa de controle e as válvulas. Os moradores podem usar um comando manual se precisarem.
Resultados na vida das pessoas
O sistema está fazendo diferença na vida das vilas. "Os moradores estão dizendo que a água do subsolo está sendo reabastecida e as nascentes estão voltando. Eles estão recebendo água na hora certa", conta Ali. "Estamos planejando um estudo científico para ver o impacto exato."
No inverno de 2025, a Acres of Ice e o governo local instalaram 10 sistemas AIR em Ladakh. "Nosso maior desafio agora é melhorar a tecnologia para construir muito mais reservatórios de gelo. Com o mesmo sistema que fazia um reservatório, podemos fazer uma dúzia", pergunta Balasubramanian.
De volta a Sakti, o agricultor Gutme está mais esperançoso. O sistema AIR criou uma fonte de água mais confiável, e ele espera que a vila construa pelo menos mais duas dessas geleiras artificiais.
"Sou agricultor. A terra é tudo que tenho para sobreviver. Não entendo de tecnologia, só sei que agora tenho água para minhas plantações. Vivemos em um clima muito difícil, e a falta de água estava criando mais problemas. Muitos jovens da vila queriam ir para as cidades trabalhar. Isso teria sido um desastre."

Vista aérea de picos de montanhas cobertos de neve em Ladakh





