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Energia solar o tempo todo: baterias baratas vão revolucionar o Brasil

Tecnologia Energia 09/06/2026 09:52 Sergio Jacobsen cnnbrasil.com.br

O custo das baterias para armazenar energia solar caiu muito nos últimos anos. Agora, é possível ter energia limpa 24 horas por dia. O Brasil precisa atualizar suas leis e impostos para não ficar para trás nessa revolução mundial.

No dia 15 de maio, o jornal Financial Times publicou uma reportagem que deveria mudar a conversa sobre energia no Brasil: a energia solar 24 horas por dia virou realidade. O diretor-geral da Irena, Francesco La Camera, disse que o problema da intermitência das energias renováveis argumento usado por muito tempo para defender os combustíveis fósseis foi finalmente superado. O motivo é a queda enorme no custo das baterias (BESS). Desde 2022, o custo de instalação de baterias para uso em larga escala caiu mais de 50%, sendo que só no último ano a queda foi de 27%, segundo a BloombergNEF.

  • Baterias mais baratas: O custo para instalar baterias de grande porte caiu mais da metade desde 2022, tornando a energia solar viável 24 horas por dia.
  • Projeto gigante: O maior projeto solar com baterias do mundo está sendo construído em Abu Dhabi e vai fornecer energia firme o tempo todo, competindo com usinas a gás.
  • Problema brasileiro: No Brasil, a energia solar e eólica cresce tanto que, em alguns momentos, precisa ser cortada por falta de estrutura para armazená-la. As baterias resolveriam isso.
  • Imposto alto: Os impostos sobre equipamentos de armazenamento de energia no Brasil podem chegar a 70% do valor do produto, o que é considerado absurdo para uma tecnologia limpa.
  • Oportunidade no interior: Em regiões remotas do Brasil, usar baterias com energia solar já é mais barato que geradores a diesel, mesmo com os impostos altos.

Enquanto isso, no Brasil, o debate sobre armazenamento de energia enfrenta resistência. Alguns artigos e vídeos insistem em dizer que as baterias são arriscadas ou inadequadas para o sistema elétrico nacional. O problema é que essa 'prudência' muitas vezes esconde uma resistência à mudança, especialmente quando os argumentos favorecem setores que lucram com os combustíveis fósseis.

Baterias não são mais experimentais

As baterias não são tecnologia de laboratório. O maior projeto solar com armazenamento do mundo está sendo construído em Abu Dhabi: são 5 GW de painéis solares ligados a baterias, fornecendo 1 GW de energia firme, 24 horas por dia. O custo estimado é de US$ 70 por MWh, valor competitivo com novas usinas a gás, que segundo o banco Lazard custam entre US$ 48 e US$ 109 por MWh. Na Austrália, a empresa Fortescue está construindo um sistema 100% livre de combustíveis fósseis para mineração de ferro, com previsão de término para 2028. Segundo a Irena, países como China, Índia e o próprio Brasil já têm fontes renováveis com armazenamento que fornecem energia por mais de 95% do tempo, a custos competitivos.

Por que o Brasil precisa das baterias

O sistema elétrico brasileiro tem características que tornam as baterias não apenas úteis, mas essenciais. O crescimento explosivo da energia solar e eólica criou um problema crescente de 'curtailment' que é o corte da geração renovável por falta de capacidade de absorção. As baterias resolvem isso: armazenam o excesso de energia durante o dia e a liberam na rede entre 18h e 21h, quando a demanda é máxima e a geração solar é zero. Além disso, cada MW de bateria pode evitar a construção de MWs adicionais de geração e transmissão que ficariam ociosos 20 horas por dia, sem emitir CO2 e sem depender de combustível importado sujeito a crises geopolíticas.

O que trava o Brasil

Se as baterias são tecnologia madura e com benefícios comprovados, por que o Brasil avança tão devagar A resposta está nas regras e nos impostos. Existem incertezas sobre como as baterias serão tarifadas pelo uso da rede elétrica, questão que a Aneel ainda está analisando. E a carga tributária sobre equipamentos de armazenamento pode chegar a 70% do valor do produto. Setenta por cento. Para um equipamento que reduz emissões, aumenta a eficiência do sistema e viabiliza a integração de renováveis, esse nível de tributação não tem lógica econômica nem ambiental.

Há ainda um dado concreto frequentemente ignorado: no Brasil, usinas híbridas com baterias já viabilizam energia em regiões remotas, comunidades rurais e operações agroindustriais 'off-grid' com menos da metade do custo de um gerador a diesel operando 10 horas por dia. E isso com a carga tributária atual de até 70%. Imagine o que seria possível com uma equiparação tributária às demais fontes renováveis. O potencial de transformação para o interior do Brasil é imenso.

É verdade que baterias não são uma solução mágica nenhuma tecnologia é. Mas usar as limitações de qualquer solução para defender a permanência do problema é um erro que não resiste a uma análise séria. As termelétricas também não são perfeitas: são caras, poluem, dependem de combustível importado e operam com baixíssimo uso no sistema brasileiro.

O argumento de que o Brasil deve avançar devagar porque o sistema tem forte variabilidade hidrológica e intermitência renovável é, na verdade, o argumento contrário: é exatamente por essas características que as baterias são essenciais. Um sistema com alta variabilidade precisa de flexibilidade, e flexibilidade, hoje, tem nome: armazenamento por baterias.

A competição, como disse La Camera ao Financial Times, já não é mais entre fósseis e renováveis. É entre quem avança mais rápido. O Brasil tem sol, tem vento, tem uma matriz elétrica invejável como ponto de partida. O que nos falta é clareza nas regras, justiça nos impostos e coragem para tomar decisões que coloquem o interesse do sistema elétrico acima de interesses que buscam atrasar a transição. O leilão de reserva de capacidade de baterias é uma oportunidade histórica. Perder essa janela seria um erro que as próximas gerações não nos perdoarão. As baterias já chegaram. O mundo já sabe disso. É hora de o Brasil saber também.

*Sergio Jacobsen é CEO da Micropower, fundador e conselheiro da Asabe, vice-presidente de armazenamento da Absolar.