O ex-vice-governador do Amazonas Samuel Hanan critica as promessas falsas dos candidatos nas eleições, mostrando que o Brasil dos sonhos da campanha não existe. Ele destaca os graves problemas sociais, como pobreza, desemprego e baixa qualidade da educação, e alerta que a corrupção continua sendo um mal que impede o progresso de verdade.
Existe uma ideia que diz que o sucesso de políticos mentirosos e sem vergonha não é só culpa deles, mas também da sociedade que os tolera e os elege, e daqueles que se omitem e se orgulham de odiar a política. Essa ideia, criada pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), explica muito do que acontece no Brasil.
Brecht já avisava: o pior analfabeto é aquele que não sabe que o preço do feijão, do remédio, do ônibus, do trem, do metrô, da luz e do aluguel depende muito da política. E é desse povo que esses políticos mentirosos precisam nos 45 dias de campanha eleitoral.
- 42% da população brasileira tem renda menor que um salário mínimo.
- Quase 10 milhões de pessoas vivem em extrema pobreza, com menos de R$ 280 por mês.
- 38,8 milhões de trabalhadores estão na informalidade, sem carteira assinada.
- O Brasil caiu no ranking do PISA: 53º em leitura, 62º em matemática e 61º em ciências.
- A corrupção é um dos problemas que mais preocupam os brasileiros.
O Brasil da propaganda não existe
Nesse curto período, os candidatos à presidência, com a ajuda de marqueteiros caros, inventam um Brasil dos sonhos, um país idealizado por todos os 213,4 milhões de brasileiros. Um Brasil com crescimento econômico forte, potência mundial, com a menor taxa de desemprego da história. Um país onde as pessoas têm renda maior e mais dinheiro no bolso, com impostos mais justos. Uma nação com escolas de primeiro mundo, saúde disponível em todas as cidades, segurança total, direito de ir e vir e moradia digna para todos.
Tudo isso é uma mentira dita muitas vezes na propaganda eleitoral no rádio e na TV, com um único objetivo: ganhar votos. A verdade é que existe outro Brasil, onde as pessoas vivem ou sobrevivem 365 dias por ano. Esse Brasil real tem enormes injustiças sociais: mais de 90 milhões de pessoas (42% da população) ganham menos que um salário mínimo por mês. Nesse Brasil, quase 10 milhões vivem em extrema pobreza, com renda menor que R$ 280 por mês, segundo a Fundação Getúlio Vargas. Em 27,5% dos lares, as pessoas não têm nenhuma renda do próprio trabalho, dependendo de aposentadoria de até um salário mínimo ou do Bolsa Família. Além disso, 38,8 milhões de trabalhadores estão na informalidade, sem carteira assinada, sem férias e sem 13º salário, e quase 6 milhões estão desempregados.
A educação no Brasil está em crise
Por que o Brasil dos 45 dias de campanha não tem nada a ver com o Brasil real Essa pergunta pode ser respondida, em parte, pelos dados do PISA, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, que compara o desempenho de alunos de 15 anos em vários países.
Em 2000, o Brasil estava em 32º lugar em leitura, matemática e ciências. Agora, mais de 20 anos depois, nossa posição é ainda pior: 53º em leitura, 62º em matemática e 61º em ciências, entre 80 países avaliados. Estamos muito atrás da média dos 38 países da OCDE. Nem precisamos dizer que sem educação de qualidade, o desenvolvimento de qualquer país fica comprometido.
Corrupção ameaça a república
No Brasil real, a segurança pública e a corrupção estão entre as principais preocupações dos cidadãos em qualquer pesquisa. São problemas antigos, nunca resolvidos, apenas piorados. Ulysses Guimarães, conhecido como Sr. Diretas e um dos principais criadores da Constituição de 1988, já alertava: "A corrupção é o cupim da República. A República suja pela corrupção impune cai nas mãos de políticos demagogos que, com a desculpa de salvá-la, a tiranizam".
É triste ver que o Brasil das últimas décadas ignorou o alerta do Dr. Ulysses, que também disse: "Não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem rouba, este é o primeiro mandamento da moral pública." O caso Vorcaro - Banco Master mostra o contrário, ou seja, a união do crime com políticos, envolvendo os três poderes.
O cupim da corrupção continua corroendo tudo, porque falta a melhor arma para combatê-lo. A solução foi dada pelo líder sul-africano Nelson Mandela: "A educação é a arma mais poderosa para mudar as pessoas e o mundo".
Não há como o país evoluir enquanto a educação continuar sendo trocada por votos em candidatos com histórico de corrupção e que, durante a campanha, prometem de tudo, sem compromisso com a verdade ou a ética. Eles usam a falta de controle para aumentar a dívida do país e oferecem aos pobres e endividados coisas como pagamento parcial de dívidas, redução da jornada de trabalho sem cortar salário, mais dias de folga para a família e transporte grátis nos fins de semana. O que foi negado durante quatro anos é oferecido na véspera da votação, como um programa de TV "Tudo por dinheiro", agora na versão "tudo pelo voto". É o preço da reeleição, pago com dinheiro do próprio povo.
É o cupim avançando, abalando as bases do país, enquanto se ignora o aviso de que, se nada for feito, essa praga pode destruir a casa toda.
É impossível ver o que está acontecendo no Brasil sem lembrar da frase de Winston Churchill: "Não há nada que o governo possa lhe dar que ele já não tenha tirado de vocês antes".
Precisamos abrir os olhos para a velha prática de empobrecer a população para torná-la dependente do governo, ao mesmo tempo em que nega a ela uma boa educação, ou seja, conhecimento. Se não quebrarmos esse círculo vicioso, grande parte da população estará condenada a uma escravidão moderna, sem dinheiro, sem educação e, como consequência, sem liberdade política e de expressão. Isso é o que os 45 dias de campanha escondem atrás da fachada de um país que só existe na promessa e na propaganda.

Samuel Hanan



