Análise do Cimi mostra que, após as eleições de 2026, a bancada anti-indígena no Congresso ficou mais radical, com PL e Novo ganhando força, enquanto a bancada pró-indígena perdeu espaço, mas ficou mais coesa.
Depois das eleições de 2026, a bancada anti-indígena do Congresso Nacional mudou de composição. O número de partidos que votam contra os direitos indígenas quase não mudou, mas esses partidos ficaram mais radicais. Partidos como PL e Novo, que votam contra os indígenas em mais de 95% dos casos, ganharam mais espaço.
O mesmo ocorreu com os partidos favoráveis aos indígenas, que vão da centro-esquerda à esquerda. Embora o número de cadeiras deles tenha mudado pouco, eles ficaram mais coesos na defesa dos povos originários.
- PL e Novo são os partidos que mais votam contra os direitos indígenas.
- No Senado, a bancada radicalmente anti-indígena cresceu 57%.
- A bancada pró-indígena perdeu assentos, mas ficou mais unida.
- O senador Romário é um caso único, pois vota a favor dos indígenas mesmo estando no PL.
- Propostas como PDL 717/2024 e PEC 48/2023 ameaçam a demarcação de terras indígenas.
Na Câmara e no Senado, a mudança após as eleições de 2026 segue o mesmo padrão: os partidos com posições mais definidas, a favor ou contra os indígenas, aumentaram.
Os dados vêm da plataforma Congresso Anti-Indígena (CAI), que analisou 110 votações nominais na Câmara, no Senado e no Congresso entre 2019 e 2026. Essas votações tiveram 41,9 mil votos, classificados como favoráveis ou não aos indígenas.
A comparação considera a composição das bancadas após a janela partidária de abril de 2026, quando os parlamentares podem trocar de partido sem perder o mandato.
Entre os partidos anti-indígenas, aqueles que votaram contra os direitos indígenas em mais de 90% das vezes aumentaram suas bancadas em 57% no Senado, indo de 23 para 36 cadeiras.
Senado Federal: bancada radicalmente anti-indígena cresceu 57%
No Senado, os partidos que votam contra os indígenas a maioria das vezes tiveram um leve aumento, passando de 63 para 65 senadores. Eles continuam sendo a grande maioria, ocupando 80% das 81 cadeiras da Casa.
Desse grupo, os partidos mais radicais (mais de 90% de votos contra) cresceram 57%, indo de 23 para 36 cadeiras. O PL, partido de Flávio Bolsonaro, aumentou de 16 para 28 senadores; o Novo foi de 1 para 3 senadores; o Republicanos caiu de 6 para 5.
O PL é o partido que mais votou contra os indígenas: 96% dos seus votos foram contra. O Novo votou 100% contra, com 427 votos. O Republicanos, quarto colocado em votos contra, teve 90% de seus 2,9 mil votos prejudicando os indígenas.
O crescimento dos radicais veio às custas de partidos menos radicais, como PSDB, União Brasil, PP, Podemos, PSD, MDB e Avante, que caíram de 40 para 29 cadeiras. O Avante ficou sem senadores. Esses partidos votaram contra os indígenas entre 66% e 89% das vezes.
Bancada pró-indígena no Senado: menor, mas mais consistente
No lado oposto, os partidos pró-indígenas perderam cadeiras, caindo de 18 para 15. PDT e PSB, que votavam a favor dos indígenas em cerca de 70% dos casos, caíram de 9 para 2 senadores.
Mas PT e Rede, que votam quase 100% a favor dos indígenas, subiram de 9 para 10 cadeiras. O PT manteve seus 9 senadores, e a Rede elegeu Luizianne Lins no Ceará.
O senador Romário é um caso único. Mesmo sendo do PL, ele votou a favor dos indígenas na maioria das vezes. Ele está no PL do Rio de Janeiro, o partido mais anti-indígena, e isso não se encaixa nas categorias.
Em agosto, Romário deixou o PL para apoiar Eduardo Paes (PSD) ao governo do estado. Paes disputa com Douglas Ruas, do PL, que é investigado por corrupção e é apoiado pelos Bolsonaro.
O PSD de Paes também é anti-indígena, com 81% de votos contra. Por causa do comportamento pessoal de Romário, sua história e sua saída do PL, não dá para classificá-lo em nenhum grupo.
Na Câmara, o número total de deputados de partidos anti-indígenas caiu de 385 para 383, mas eles ficaram mais radicais, porque PL e Novo ganharam mais cadeiras.
Câmara dos Deputados: extrema direita aumenta índice anti-indígena
Na Câmara, quase não mudou a proporção: três quartos das 513 cadeiras são de partidos anti-indígenas, e um quarto (124) é de partidos favoráveis.
A quantidade de deputados anti-indígenas caiu de 385 para 383, mas PL e Novo cresceram: PL de 97 para 121, e Novo de 5 para 10 deputados, tornando o grupo mais radical.
Somando PL, Novo e Republicanos (que elegeu 41 deputados), a bancada dos partidos que votam contra os indígenas em mais de 90% dos casos cresceu 19%, de 145 para 172 deputados.
Os partidos pró-indígenas mantiveram 124 cadeiras, mas ficaram mais unidos.
PV, PDT e PSB, que votam a favor dos indígenas em 64% a 72% dos casos, perderam 4 cadeiras e terão 28 deputados. Já PT, PSOL, PCdoB e Rede, que votam cerca de 100% a favor, ganharam 4 cadeiras e terão 96 deputados em 2027.
Indefinição e tendência anti-indígena
Ainda há dois partidos na Câmara que não se encaixam em nenhum dos lados, mas tendem a se alinhar aos anti-indígenas por causa do histórico e do domínio da extrema direita.
O primeiro é o PRD, que agora tem 5 deputados. Ele surgiu da fusão de PTB e Patriota, que eram muito anti-indígenas. O PRD votou metade a favor e metade contra, mas seu histórico é anti-indígena.
O segundo é o partido Missão, que tem apenas um deputado: Kim Kataguiri. Ele não votou desde que criou o partido, mas quando estava em outros partidos, votou contra os indígenas em 88 das 90 vezes.
Congresso Nacional
No Congresso Nacional, a bancada anti-indígena continua com 448 parlamentares, dos 594 no total.
A bancada pró-indígena caiu de 142 para 139, e os três assentos que saíram agora são de posição indefinida.
PSOL, Rede e PDT não alcançaram a cláusula de barreira, então podem ter restrições em financiamento e propaganda se não se reorganizarem.
PL, Novo e Republicanos tiveram aumento de 24% nas bancadas. Juntos, os partidos que votam contra os indígenas em mais de 90% dos casos passaram de 168 para 208 parlamentares. Os que votam entre 51% e 90% caíram de 280 para 240.
Os partidos que votam quase sempre a favor (PT, PSOL, Rede, PCdoB) cresceram de 101 para 106. PSB, PDT e PV, que votam a favor entre 64% e 72% dos casos, caíram de 41 para 33.
Partidos de direita, conhecidos como centrão, se alinham à extrema direita para apoiar o desmonte dos direitos indígenas.
Assimetria e polarização entre desiguais
Essas mudanças mostram que a centro-esquerda perdeu espaço e a direita migrou para a extrema direita.
Embora só a extrema direita tenha extremistas e apoiadores de golpe, essa divisão é muitas vezes apresentada como uma disputa equilibrada, o que é uma ideia errada de polarização.
Na questão indígena, a divisão é mais clara, mas também assimétrica. O centrão se junta à extrema direita para acabar com os direitos indígenas.
No caso do PL 490/2007, que virou a Lei 14.701 em 2023, os partidos que votaram contra os indígenas em mais de 90% dos casos incluíram PL, Novo, Republicanos, PSL, Democratas, PROS, PSC, PSDB e PTB.
No PDL 717/2024, que acaba com a demarcação de terras, PSDB, União Brasil, PP, PSD e Avante se juntaram a PL e Novo, com mais de 80% dos votos a favor.
Na PEC 48/2023, que quer incluir o marco temporal na Constituição, senadores de Novo, PSDB, Republicanos, PL, PP e até PSB votaram a favor.
Essas propostas já passaram no Senado e agora estão na Câmara. Se Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar vencerem as eleições, isso pode fortalecer ainda mais os setores hostis aos indígenas.

Mesmo tamanho, mais intransigente: bancada anti-indígena no Congresso Nacional se fortalece após eleições


