Com o segundo turno das eleições, diferenças políticas chegam ao ambiente de trabalho. Especialista alerta que o problema começa quando a opinião interfere na confiança e na colaboração entre colegas.
A polarização política do Brasil não fica de fora do trabalho. Quando o funcionário entra no escritório ou liga o computador, as discussões sobre candidatos, memes no WhatsApp e desentendimentos entre colegas podem atrapalhar as relações profissionais. As empresas agora precisam evitar que essas diferenças políticas afetem a confiança, a colaboração e a produtividade das equipes.
O assunto ficou ainda mais importante com o segundo turno das eleições. Um sinal extremo é o aumento das denúncias de assédio eleitoral. Segundo o Ministério Público do Trabalho, entre janeiro e setembro de 2026 foram 809 denúncias, contra 85 no mesmo período de 2022. Só em setembro foram 545. Assédio eleitoral é diferente de uma discussão política: envolve pressão, ameaça, constrangimento ou promessa de benefício para influenciar o voto ou a posição política.
- O número de denúncias de assédio eleitoral saltou de 85 para 809 em quatro anos.
- Setembro de 2026 concentrou 545 denúncias.
- Assédio eleitoral é diferente de uma simples conversa política: envolve pressão ou ameaça.
- Discussões políticas podem afetar a confiança e a colaboração entre colegas.
- Especialista diz que o problema começa quando a discordância vira desrespeito.
O que diz a especialista
Para Soraia Pena, especialista em gestão de pessoas e liderança, o desafio das empresas vai além do assédio. As equipes têm pessoas com visões diferentes, e proibir qualquer conversa política no trabalho não é realista. O problema aparece quando a discordância muda a forma como os colegas se relacionam.
Soraia explica: Duas pessoas podem votar diferente e ainda assim trabalhar bem juntas. O problema começa quando deixamos de discordar e passamos a desqualificar quem pensa diferente. Se eu confio menos em um colega, evito pedir ajuda ou compartilhar informações por causa do voto dele, aí vira um problema de gestão.
O que dizem as pesquisas
Uma pesquisa de 2026 publicada no Journal of Management Inquiry ajuda a entender isso. Ela mostra quatro formas como as discussões políticas no trabalho prejudicam: ameaça à identidade, desgaste emocional, autocensura e expectativas negativas. Os pesquisadores também notam que as pessoas preferem falar de política com quem pensa parecido, e quem está em minoria pode preferir ficar calado.
Estudos da Academy of Management de 2026 mostram que a divisão partidária muda a forma como os colegas veem o comportamento uns dos outros, o que compartilham e a confiança.
Soraia diz: Produtividade não é só fazer tarefas. Depende da qualidade das relações. Se as pessoas começam a medir palavras, evitar colegas ou interpretar tudo pela política, gastam energia com tensão em vez de resolver problemas.
Mas nem toda conversa política é ruim. Um estudo de janeiro deste ano na Academy of Management Discoveries mostrou que, em algumas situações, conversar com colegas sobre temas politizados reduz o cansaço emocional, melhora o humor e aumenta o vínculo. Porém, as pessoas escolhem colegas com quem acham que concordam politicamente.
Para Soraia, isso mostra que o problema não é o tema, mas como as relações são conduzidas. Ela afirma: A empresa não precisa proibir falar sobre o país. Precisa deixar claro que liberdade de opinião não é liberdade para constranger, ridicularizar ou hostilizar. Divergência faz parte; desrespeito não.
O papel da liderança
O período também exige cuidado com líderes. A manifestação política de um gestor tem peso diferente entre colegas, principalmente se houver cobrança de posicionamento, intimidação ou ameaça de consequências.
O assédio eleitoral inclui pressão, ameaça ou constrangimento para influenciar o voto, podendo vir de chefes ou colegas. Soraia explica: Quanto maior o poder, mais cuidado é preciso. O líder pode ter opiniões, mas não pode fazer o funcionário sentir que precisa concordar para manter o emprego. Existe uma assimetria de poder que não pode ser ignorada.
Na prática, ela recomenda que os gestores estabeleçam limites para comportamentos, não para opiniões. Ataques pessoais, constrangimentos, pressão sobre subordinados e conflitos que atrapalham o trabalho devem ser tratados como questões de gestão, independentemente da posição política.
Soraia conclui: O teste para uma empresa não é fazer todos pensarem igual. É conseguir manter pessoas que pensam diferente trabalhando juntas, com respeito, confiança e objetivos comuns. Em um país polarizado, isso faz parte da liderança.

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