Um estudo nacional com 15 mil entrevistados mostra que a grande maioria da população, incluindo diferentes grupos religiosos, de renda e etnias, vê as apostas online como um vício que causa danos sérios aos lares brasileiros.
Nove em cada dez brasileiros concordam que as apostas online viciam e destroem as famílias. Esse é o principal achado da pesquisa nacional Religião e Vida Pública no Brasil, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER) em parceria com a Quaest. O estudo ouviu 15 mil pessoas e mostra que a preocupação com os danos das "bets" é praticamente consensual no país. Apenas 9% dos entrevistados discordam da afirmação.
O governo federal está preparando uma medida provisória sobre as apostas online. Nesse contexto, os dados mostram que a rejeição aos efeitos negativos do jogo atravessa diferentes perfis da população. A concordância com a ideia de que as apostas são prejudiciais é alta independentemente da religião, gênero, renda, escolaridade ou idade.
- 90% dos brasileiros concordam que apostas online viciam e destroem famílias.
- A concordância é de 93% entre evangélicos e 88% entre católicos.
- Homens (91%) e mulheres (90%) têm percepções muito semelhantes sobre o tema.
- O estudo revela que pessoas pretas têm concordância ligeiramente menor em alguns grupos religiosos específicos.
- A pesquisa foi realizada com 15 mil brasileiros em 412 municípios de todas as regiões.
Consenso entre diferentes grupos sociais
A opinião sobre o vício nas apostas é praticamente idêntica entre homens e mulheres, com 91% e 90% de concordância, respectivamente. A alta taxa de preocupação também aparece em todas as faixas etárias: 91% entre os jovens de 16 a 34 anos, 91% entre os adultos de 35 a 59 anos e 86% entre os idosos com 60 anos ou mais.
Quando analisamos a educação e a renda, as variações são pequenas, mas mostram um padrão claro. Quem tem mais escolaridade e renda tende a concordar um pouco mais. Entre quem estudou apenas até o ensino fundamental, 89% concordam, contra 92% de quem tem ensino médio ou superior. Na renda, o índice varia de 88% para famílias que ganham até dois salários mínimos, 90% para quem ganha de dois a cinco salários e 93% para quem ganha acima de cinco salários mínimos.
Religião não impede a preocupação com o vício
A percepção de dano é compartilhada por todos os grandes grupos religiosos do país. A concordância é de 93% entre evangélicos, 92% entre pessoas sem religião ou de outras tradições, 91% entre espíritas e 88% entre católicos.
Dentro do grupo evangélico, os batistas (96%) e os membros da Congregação Cristã no Brasil (95%) têm os índices mais altos. Seguem-se evangélicos sem igreja (94%), outras denominações (93%), Assembleia de Deus (92%), Igreja Universal (91%) e Quadrangular (90%). Os adventistas registram 87%. No grupo dos católicos, não há diferença significativa entre praticantes e não praticantes, ambos com 87% de concordância.
Raça e religião influenciam as opiniões
Um cruzamento inédito entre religião e raça/cor mostra que, dentro de alguns segmentos, pessoas pretas concordam menos com a afirmação de que as apostas destroem famílias. Por exemplo, entre os católicos praticantes, 89% dos brancos, 88% dos pardos e 84% dos pretos concordam. Entre os pentecostais, os percentuais são de 93%, 92% e 87%, respectivamente.
No entanto, o padrão não é o mesmo em todos os grupos. Entre os protestantes, as diferenças são pequenas (95% entre brancos, 94% entre pardos e 93% entre pretos). O mesmo ocorre entre pessoas sem religião (92%, 93% e 91%) e católicos não praticantes (87%, 88% e 85%). Para as pessoas pretas, a concordância varia de 84% entre católicos praticantes a 93% entre protestantes.
Interpretação dos dados pela coordenação da pesquisa
Lívia Reis, coordenadora da pesquisa do ISER e professora da PUC-Rio, destaca que a concordância é ligeiramente menor justamente entre os grupos mais pobres, menos escolarizados e, em alguns segmentos, entre pessoas pretas. Segundo ela, isso sugere uma relação mais ambivalente com o fenômeno, e não indiferença aos riscos. Para Lívia Reis, "chama atenção que a concordância seja ligeiramente menor justamente entre os grupos mais pobres e menos escolarizados e, em alguns segmentos religiosos, entre pessoas pretas, isto é, entre setores nos quais as apostas se difundiram amplamente e podem aparecer também como lazer acessível ou promessa de renda rápida. Isso sugere uma relação mais ambivalente com o fenômeno, e não indiferença aos seus riscos."
A coordenadora ressalta ainda que a pesquisa não permite afirmar que essas mesmas pessoas apoiam a proibição total das apostas. Os dados apontam uma ampla base social de preocupação com o tema, mas a definição da resposta pública, seja ela proibição, restrição de publicidade ou proteção contra o endividamento, segue como objeto legítimo de debate na sociedade.
Metodologia da pesquisa
O estudo Religião e Vida Pública no Brasil ouviu 15 mil brasileiros com 16 anos ou mais, em 412 municípios de todas as regiões do país. O questionário continha 184 perguntas sobre práticas religiosas, crenças, valores, consumo de mídia e vida pública. A margem de erro geral é de 0,8 ponto percentual, com nível de confiança de 95%. A concepção do questionário, a coordenação científica e a análise foram realizadas pelo ISER, enquanto a Quaest foi responsável pelo trabalho de campo e pela tabulação dos dados.

Pesquisa nacional do ISER com a Quaest sobre apostas online


