Faltam poucos dias para as eleições e as denúncias de assédio eleitoral no trabalho estão crescendo. Mesmo uma 'brincadeira' ou um link enviado no grupo pode virar processo. Saiba como as empresas podem se proteger.
Faltam dez dias para o primeiro turno das eleições de 2026, marcado para 4 de outubro. O assédio eleitoral no trabalho nem sempre começa com uma ameaça direta de demissão. Situações aparentemente informais, como uma "brincadeira" sobre o voto de um empregado, uma mensagem no grupo da equipe, um link de campanha ou uma declaração política de um líder podem criar constrangimento e, dependendo do contexto, ser vistas como tentativa de influenciar a posição política do trabalhador.
O alerta é sério: o número de denúncias está crescendo. Segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), o país já tem 463 denúncias de assédio eleitoral em 2026. Só em setembro foram 199, ou seja, cerca de 43% do total do ano.
- Assédio eleitoral é crime e pode gerar processo trabalhista e até criminal.
- "Brincadeiras" de chefes sobre o voto contam como assédio.
- Mensagens em grupos de WhatsApp corporativos também são perigosas.
- Empresas podem ser multadas ou responsabilizadas pelas condutas de seus gestores.
- Todo trabalhador tem o direito de votar em quem quiser, sem medo de represálias.
"O assédio eleitoral pode ser algo muito sutil, como uma mensagem no WhatsApp, mas não é inofensivo: pode virar um problema trabalhista e até criminal", afirma Fernanda. "Estamos em um momento em que as empresas precisam ficar em alerta. Um post dizendo em quem todos devem votar, um link de candidato no grupo da equipe ou uma brincadeira sobre o candidato da empresa podem ser assédio, dependendo do contexto."
O problema não é o chefe ter opinião política
A legislação não impede que empregadores, gestores ou trabalhadores tenham posicionamento político. O ponto de atenção surge quando a relação profissional interfere na liberdade de escolha do trabalhador.
A Resolução nº 23.755/2026 do Tribunal Superior Eleitoral estabelece que é vedada a propaganda eleitoral ou o assédio eleitoral em ambiente de trabalho público ou privado, responsabilizando quem lhe der causa ou permitir sua ocorrência.
Na prática, a empresa precisa olhar não apenas para o que é dito, mas para quem diz, em qual contexto, para quem é dito, por qual canal e qual é a relação de poder entre as pessoas envolvidas.
Uma conversa política entre colegas, por exemplo, não tem o mesmo peso de uma manifestação feita por um superior que cuida do salário, promoção, escala, férias ou permanência no emprego.
É essa diferença que pode tornar uma fala aparentemente informal mais perigosa.
"Quando existe uma relação de trabalho, o poder de influenciar que uma liderança tem pode transformar uma simples opinião em pressão e constrangimento eleitoral", afirma Fernanda. "Por isso, não é só o dono da empresa que precisa desse cuidado: supervisores, encarregados e gestores também precisam estar preparados, porque a fala de quem tem cargo de comando nunca é recebida da mesma forma que a de um colega."
WhatsApp corporativo também exige atenção
O ambiente digital ampliou a área de risco para as empresas. Levantamento do Tribunal Superior do Trabalho (TST) mostrou que meios virtuais estão presentes em 67,4% dos processos analisados, com o WhatsApp citado em 37% dos casos.
Isso quer dizer que o problema pode sair da reunião presencial e ir para os grupos de trabalho, e-mails, redes corporativas e outros canais usados profissionalmente.
Não é proibir qualquer conversa sobre política, mas evitar que ferramentas da empresa sejam usadas para pressionar trabalhadores, direcionar escolhas ou criar a ideia de que um determinado voto é esperado.
O próprio MPT já tomou medidas. Em setembro, um Termo de Ajustamento de Conduta firmado com empresas do Grupo VAX proibiu perguntas sobre preferência de voto, divulgação de propaganda política em canais corporativos e reuniões para influenciar eleições. A regra vale também para redes sociais, e-mails e aplicativos de mensagens.
A "brincadeira" também pode gerar problema
Outro ponto de atenção são as situações que parecem humor, provocação ou comentário informal.
O contexto da fala é determinante. Uma liderança que pergunta insistentemente sobre o voto dos subordinados, associa o resultado da eleição à manutenção dos empregos ou faz comentários políticos diante da equipe pode causar constrangimento mesmo sem ameaçar diretamente.
O TST também apontou que o terror psicológico apareceu em 81,9% dos processos, enquanto ameaças de demissão foram identificadas em 48,6%. Além disso, 92% dos casos apresentam assédio institucional, ou seja, a própria empresa permitia ou estimulava a prática.
E aqui há um ponto importante: chamar de 'brincadeira' não torna uma conduta inadequada em algo permitido. Fernanda explica:
"Vou dar um exemplo simples: imagine um gestor entrando na sala e, em tom de brincadeira, dizendo: 'Espero que vocês votem no candidato que a empresa apoia, hein Depois não digam que eu não avisei!'. Ou, em uma situação de liderança: 'Você ainda não me contou em quem vai votar... Espero que seja no candidato certo, porque precisamos pensar no futuro da empresa!'. Ele pode dizer que estava brincando, mas a pergunta é: quem fez a brincadeira, para quem ela foi dirigida e qual mensagem ela transmitiu"
A especialista completa que, quando existe relação de poder e a fala pode ser entendida como pressão ou ameaça, ainda que indireta, o fato de ter sido dita "em tom de brincadeira" não elimina o risco jurídico.
Empresas precisam preparar as lideranças antes do conflito
O crescimento das denúncias mostra que a prevenção não pode começar só depois que o caso chega ao RH ou à Justiça.
Para Fernanda, a orientação precisa alcançar especialmente quem ocupa cargos de liderança, porque é nesse nível que uma manifestação individual pode ser interpretada como posição da própria empresa ou como expectativa para os subordinados.
"A prevenção começa com regras claras e um comunicado interno de neutralidade", alerta Fernanda. "Uma conduta inadequada pode gerar denúncia no MPT, ação trabalhista e até responsabilização criminal. Por isso, as empresas não podem esperar o primeiro turno para agir."
Entre as medidas preventivas estão orientar gestores e equipes sobre liberdade de convicção política, definir regras para uso dos canais da empresa, proibir retaliações ou vantagens ligadas a posições políticas e criar canais seguros para denunciar situações de constrangimento.
O risco não termina no primeiro turno
Com o primeiro turno em 4 de outubro e um possível segundo turno em 25 de outubro, o período de maior mobilização política ainda está em curso. O aumento das denúncias em setembro reforça a necessidade de atenção agora.
A questão não é impedir que pessoas tenham opiniões políticas no trabalho, mas garantir que a relação de trabalho não seja usada para limitar a liberdade de escolha do trabalhador.
A recomendação é que as empresas definam essas regras antes que um caso chegue ao RH ou à Justiça. Orientar lideranças, limitar o uso dos canais corporativos e deixar clara a neutralidade da organização são medidas que reduzem o risco de uma manifestação política virar um problema trabalhista.



