Pesquisa ISER/Quaest com 15 mil entrevistas revela que, embora a fé evangélica influencie o voto, ela não age como um bloco único, variando conforme região, escola, raça e igreja.
Uma nova e ampla pesquisa nacional, chamada de Religião e Vida Pública no Brasil, trouxe dados surpreendentes sobre como a religião influencia as eleições. Realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER) junto à empresa Quaest, a pesquisa ouviu 15 mil pessoas em 412 cidades de todo o país.
Os resultados provam que ser evangélico teve impacto real na escolha do vencedor em 2022, mas isso não significa que existe um "voto evangélico" único e automático. Na verdade, há grandes divergências internas nesse grupo, que mudam de acordo com a localização, a raça, os estudos e o tipo de igreja.
- A fé evangélica foi o fator religioso mais forte na eleição, mas não funciona como um bloco compacto, pois as escolhas variam bastante.
- No Nordeste, o empate técnico foi quase total entre os candidatos principais, enquanto no Centro-Oeste o vencedor teve maioria expressiva de 58%.
- 90% dos brasileiros com religião rejeitam propaganda eleitoral dentro de suas igrejas, mostrando um desejo de separação entre fé e política.
- A maioria dos líderes religiosos (78%) não recomendou nenhum candidato específico, deixando a decisão totalmente a cargo do fiel.
- Partidos políticos são a instituição menos confiável do Brasil, com apenas 3% dos entrevistados tendo confiança total neles.
Como a região e a escola mudam o voto
Os dados mostram que a geografia é o fator decisivo. No Nordeste, o cenário de segundo turno ficou muito acirrado, com 38% de apoio para o atual presidente e 35% para o líder oposicionista. Já no Centro-Oeste, o apoio ao atual presidente subiu para 58%. Entre os católicos, a situação era diferente: o sulista tinha mais apoio ao presidente, enquanto o nordestino preferia o opositor.
Outro ponto importante é a raça. Entre os evangélicos pretos, o apoio ao candidato de esquerda atingiu 33%, reduzindo a vantagem do outro lado. Para católicos, a cor da pele até inverteu a preferência, com Lula liderando entre pretos e pardos. Em relação à escolaridade, quanto mais altas as notas de estudo, maior era o apoio ao atual presidente, chegando a 63% entre os formados em nível superior.
Rejeição à política dentro das igrejas
Um dado que chama muita atenção é a aversão do público à mistura de religião e campanha. Nove em cada dez brasileiros com religião são contra a existência de panfletos ou debates políticos dentro dos templos. Esse número sobe para 87% entre os evangélicos. A maioria também rejeita (83%) a ideia de receber uma "ordem de voto" vindo de pastores ou líderes espirituais.
A pesquisa revelou que a maioria dos fiéis não recebeu orientação de ninguém. Setenta e oito por cento afirmaram que não receberam nome de candidato. Apenas 22% dos evangélicos disseram que seus líderes recomendaram o atual presidente, enquanto apenas 4% mencionaram o opositor. Esse fato mostra que a base não está sendo "comprada" ou direcionada de forma massiva.
Diferenças entre os tipos de igreja
Nem todas as igrejas agem da mesma forma. A orientação de voto variação de acordo com a denominação. A Quadrangular teve 29% de relatos de orientação, seguida da IURD (27%) e Assembleias de Deus (26%). As batistas ficaram em 20% e as adventistas em apenas 11%. Curiosamente, a IURD teve o maior percentual de indicações para o candidato de esquerda (12%), o que sugere que o ativismo da liderança, e não a doutrina teológica, é o que define a orientação política.
Fidelidade e confiança nas instituições
Quase oito em cada dez entrevistados dos dois principais grupos religiosos dizem que refariam o mesmo voto se voltassem no tempo. Apenas 14% mudariam. No entanto, a confiança na política é baixa. De 66% a 75% dos brasileiros não se sentem ligados a nenhum partido. Os partidos são a instituição menos confiável da pesquisa, com a maioria sem confiança neles.
Por outro lado, a Igreja Católica lidera a lista de instituições confiáveis, com 37% de aprovação, seguida pelas Forças Armadas e pelas igrejas evangélicas, ambas com 26%. O estudo reforça que, apesar da força da fé no resultado final, o eleitor religioso brasileiro é heterogêneo e crítico quanto à interferência política em seus espaços de culto.

Eleições (IA)


