17 de setembro de 2026

??ºC Tempo São Paulo - SP São Paulo - SP
??ºC Tempo Rio de Janeiro - RJ Rio de Janeiro - RJ
??ºC Tempo Salvador - BA Salvador - BA

A crise institucional brasileira entre poder e desconfiança da população

Política República 17/09/2026 09:48 Victor Missiato - Colégio Presbiteriano Mackenzie

Análise aponta que a República no Brasil nasceu de forma autoritária e, após séculos de fragilidade democrática, enfrenta hoje um colapso na confiança das instituições, marcado por conflitos entre os poderes e uma sociedade em estado de letargia.

A história republicana no Brasil começa com uma característica marcante: a exclusão do povo. Diferentemente da Independência, que teve participação popular e conflitos regionais, a Proclamação da República em 1889 foi um movimento de elite, ocorrido nos palácios.

Os militares derrubaram a Monarquia com o apoio quase total dos fazendeiros de café de São Paulo, que tinham interesses econômicos específicos. O povo ficou de fora dessas decisões. Essa origem frágil criou uma separação perigosa entre o estado público e os interesses privados, o que levou a vários golpes e interferências ao longo dos séculos XIX e XX.

Os desafios para a democracia moderna

A cultura democrática no Brasil cresceu lentamente, impulsionada pela pressão da sociedade civil. Da luta pelo direito ao voto até as Diretas Já, a maior manifestação popular da história, a população exigiu mais representação, tensionando o poder estabelecido.

Esse esforço resultou na Constituição de 1988. Essa lei reuniu a forma republicana e a essência democrática, criando um sistema de freios e contrapesos. O objetivo era equilibrar um Executivo forte para executar políticas, um Legislativo que represente bem o povo e um Judiciário independente, com órgãos de fiscalização fortalecidos, para garantir a estabilidade.

Desgaste dos três poderes e crise de confiança

Porém, após as manifestações de 2013, o equilíbrio entre os poderes foi prejudicado. O Executivo perdeu força política e capacidade de lidar com o orçamento, enquanto o Legislativo ganhou poder com as emendas parlamentares. O Judiciário, por sua vez, passou a atuar além de sua função constitucional, legislando e executando políticas.

Processos de impeachment, governos fragilizados e a forte polarização eleitoral trocaram a harmonia por uma crise constante. Essa situação atingiu até o Supremo Tribunal Federal (STF), que enfrentou escândalos de corrupção e questionamentos sobre a conduta de seus membros, desgastando sua imagem.

  • A República nasceu sem a participação popular, apenas com elites e militares.
  • A Constituição de 1988 tentou equilibrar os poderes, mas o equilíbrio foi perdido após 2013.
  • O Judiciário assumiu funções de outros poderes, gerando desequilíbrio institucional.
  • A corrupção e a polarização eleitoral criaram uma crise permanente nas instituições.
  • A população está desconfiada e sem liderança para mediar conflitos, facilitando a entrada de figuras que desacreditam a democracia.

Esse cenário afasta a sociedade da representação pública. O problema do Judiciário tira a legitimidade do poder, enquanto o povo fica sem energia para reagir, sem líderes para mediar os conflitos. Isso abre espaço para pessoas de fora do sistema (outsiders) que atacam a própria democracia. A desconfiança funciona como uma ferida que destrói a autoridade da República.

O filósofo John Rawls, em seu livro Uma Teoria da Justiça, defende que as liberdades iguais de todos os cidadãos são inegociáveis. Se a justiça não for vista como justa e imparcial, a confiança que mantém a sociedade unida se rompe. O Brasil está em um ponto crítico: a falta de justiça ameaça a própria ideia de nação, deixando o país fraturado e incapaz de ser uma República verdadeira.