Análise aponta que a República no Brasil nasceu de forma autoritária e, após séculos de fragilidade democrática, enfrenta hoje um colapso na confiança das instituições, marcado por conflitos entre os poderes e uma sociedade em estado de letargia.
A história republicana no Brasil começa com uma característica marcante: a exclusão do povo. Diferentemente da Independência, que teve participação popular e conflitos regionais, a Proclamação da República em 1889 foi um movimento de elite, ocorrido nos palácios.
Os militares derrubaram a Monarquia com o apoio quase total dos fazendeiros de café de São Paulo, que tinham interesses econômicos específicos. O povo ficou de fora dessas decisões. Essa origem frágil criou uma separação perigosa entre o estado público e os interesses privados, o que levou a vários golpes e interferências ao longo dos séculos XIX e XX.
Os desafios para a democracia moderna
A cultura democrática no Brasil cresceu lentamente, impulsionada pela pressão da sociedade civil. Da luta pelo direito ao voto até as Diretas Já, a maior manifestação popular da história, a população exigiu mais representação, tensionando o poder estabelecido.
Esse esforço resultou na Constituição de 1988. Essa lei reuniu a forma republicana e a essência democrática, criando um sistema de freios e contrapesos. O objetivo era equilibrar um Executivo forte para executar políticas, um Legislativo que represente bem o povo e um Judiciário independente, com órgãos de fiscalização fortalecidos, para garantir a estabilidade.
Desgaste dos três poderes e crise de confiança
Porém, após as manifestações de 2013, o equilíbrio entre os poderes foi prejudicado. O Executivo perdeu força política e capacidade de lidar com o orçamento, enquanto o Legislativo ganhou poder com as emendas parlamentares. O Judiciário, por sua vez, passou a atuar além de sua função constitucional, legislando e executando políticas.
Processos de impeachment, governos fragilizados e a forte polarização eleitoral trocaram a harmonia por uma crise constante. Essa situação atingiu até o Supremo Tribunal Federal (STF), que enfrentou escândalos de corrupção e questionamentos sobre a conduta de seus membros, desgastando sua imagem.
- A República nasceu sem a participação popular, apenas com elites e militares.
- A Constituição de 1988 tentou equilibrar os poderes, mas o equilíbrio foi perdido após 2013.
- O Judiciário assumiu funções de outros poderes, gerando desequilíbrio institucional.
- A corrupção e a polarização eleitoral criaram uma crise permanente nas instituições.
- A população está desconfiada e sem liderança para mediar conflitos, facilitando a entrada de figuras que desacreditam a democracia.
Esse cenário afasta a sociedade da representação pública. O problema do Judiciário tira a legitimidade do poder, enquanto o povo fica sem energia para reagir, sem líderes para mediar os conflitos. Isso abre espaço para pessoas de fora do sistema (outsiders) que atacam a própria democracia. A desconfiança funciona como uma ferida que destrói a autoridade da República.
O filósofo John Rawls, em seu livro Uma Teoria da Justiça, defende que as liberdades iguais de todos os cidadãos são inegociáveis. Se a justiça não for vista como justa e imparcial, a confiança que mantém a sociedade unida se rompe. O Brasil está em um ponto crítico: a falta de justiça ameaça a própria ideia de nação, deixando o país fraturado e incapaz de ser uma República verdadeira.

Victor Missiato, professor de História e analista político


