Artigo critica a resposta do Supremo Tribunal Federal à abertura de investigação interna por André Mendonça, denunciando hipocrisia ao proteger a própria instituição em vez de apurar irregularidades graves.
O Grande Supremo, como era apelidado, vinha exigindo do Brasil uma concessão moral durante anos. A narrativa era de que o país vivia em tempos excepcionais, com a democracia em risco, justificando ações drásticas dos seus guardiões. Inquéritos incomuns, poderes ampliados e interpretações criativas da lei foram adotados, sempre sob o argumento de que seriam medidas provisórias, enquanto a democracia seria devolvida ao povo assim que a crise acabasse.
Como a exceção virou rotina e arbítrio
No entanto, o incêndio nunca se apagou. Em Brasília, descobriu-se que, usando linguagem jurídica complicada e alegando a existência de inimigos, era possível manter esse estado de emergência permanente. Alexandre de Moraes tornou-se o maior expoente desse modelo, tendo a ajuda de Cármen Lúcia e Gilmar Mendes para dar uma aparência de legitimidade. A justificativa era simples: quem estava salvando a democracia, podia se dar ao luxo de ignorar algumas regras do Estado de Direito, até que a exceção chegasse ao espelho.
A doutrina do vale-tudo só funcionava enquanto mirava para fora da instituição. Quando o foco voltou-se para dentro do tribunal, revelou-se aquilo que sempre foi: o arbítrio puro. André Mendonça cometeu uma ação que consideraram quase subversiva aos padrões democráticos vigentes em Brasília. Diante de fatos graves, ele decidiu tratá-los como tal, mandando apurar as irregularidades, em vez de ignorá-las ou tratá-las como pequenos deslizes entre colegas de trabalho.
- André Mendonça abriu uma apuração formal sobre fatos graves, rompendo a cultura de tolerância com irregularidades no STF.
- Paulo Gonet pediu a nulidade da investigação e Alexandre de Moraes atacou Mendonça, priorizando a proteção institucional sobre a verdade.
- O artigo compara o caso à anulação das condenações da Lava Jato, onde questões processuais substituíram a análise do mérito do caso.
- A citação da Torá é usada para argumentar que os meios de buscar a justiça devem ser tão limpos quanto o resultado desejado.
- O texto final conclama Moraes a se declarar impedido e critica a falta de vergonha institucional dos atuais magistrados.
A inversão moral e o medo do espelho
Logo após a ação de Mendonça, começou um espetáculo político. Paulo Gonet pediu a nulidade da apuração e Moraes direcionou seu fogo contra o colega. De repente, o principal problema deixou de ser a irregularidade exposta e passou a ser o juiz que teve a coragem de levantar a poeira. É o mesmo truque visto na anulação das condenações do ex-presidente Lula, onde a competência da Vara de Curitiba foi questionada apenas para jogar no lixo anos de investigações da Lava Jato. A formalidade processual derrotou os documentos reais.
Oferecem novamente ao brasileiro a mesma ilusão: discutir furiosamente o processo para que todos esqueçam o conteúdo dentro dele. Isso não é um detalhe técnico, é uma inversão moral. A Torá já havia resolvido essa questão muito antes de Brasília aprender latim: "Justiça, justiça perseguirás". A repetição não é um erro; é um aviso de que os meios usados para buscar a justiça devem ser limpos, valem para amigos, inimigos e, principalmente, para quem julga.
Vergonha na cara e a necessidade de higiene institucional
Alexandre de Moraes deve se declarar impedido, algo que nem seus companheiros de tribunal poderiam questionar se tivessem coragem. Paulo Gonet não deveria ajudar a fechar a porta que está escondendo o próprio nome dele no processo. Não se trata de condenar alguém sem julgamento, mas de manter a higiene da instituição. Durante anos, dizia-se que a exceção era necessária para proteger a democracia de seus inimigos. Hoje, percebe-se que a democracia precisa ser protegida dos próprios donos dessa exceção.
O autor afirma que geralmente evita o saudosismo, pois olhar para trás pode ser perigoso. Mas, diante da situação atual do Supremo, sente falta de uma velha virtude brasileira que parece ter sido declarada inconstitucional em Brasília: a vergonha na cara. A falta de constrangimento com a própria hipocrisia institucional é o ponto central dessa crítica final.

Artigo de Alex Pipkin (Ajustada por IA)


