Pesquisadora explica como os cortes virais tiram o contexto das falas e fazem eleitores se isolarem em bolhas de informação, prejudicando o debate público.
A pesquisadora em comunicação Catharina Vale afirma que os cortes virais usados nas redes sociais dos candidatos transformam o debate público e a democracia em versões fragmentadas da realidade.
Esses impactos podem ser vistos na perda de audiência e interesse nos debates eleitorais. Os debates, que deveriam servir para apresentar propostas e respeitar opiniões diferentes, agora servem apenas como material para edição de cada candidato.
- Os cortes virais tiram falas do contexto e enganam os eleitores.
- Os debates perdem importância porque viram material para edição.
- Os eleitores ficam presos em bolhas de informação nas redes.
- Os jovens buscam se proteger emocionalmente, mas isso os isola.
- O livro "Curadoria do Eu" explica como isso afeta a democracia.
Segundo Vale, os cortes publicados tiram as falas do contexto para mostrar conteúdos que parecem dinâmicos e geram engajamento. Não há espaço para apresentar propostas e programas de governo completos, o que prejudica a interpretação dos eleitores, que consomem política pelas redes sociais. Esse formato reforça os vieses dos apoiadores, prende as pessoas em feeds menos plurais e ameaça a democracia.
Para Catharina, esses trechos são uma estratégia política que reflete o momento atual, onde as redes sociais são as principais arenas públicas. Além disso, eles acompanham um comportamento, principalmente dos jovens, que buscam se proteger emocionalmente da hostilidade digital. Isso faz com que se informem apenas com o que lhes interessa, criando isolamento.
Vale chama isso de "Curadoria do Eu", um conceito que ela desenvolveu ao estudar jovens de 18 a 34 anos em grandes cidades brasileiras.
Ela explica: "O paradoxo é cruel: o eleitor, querendo economizar tempo, deixa de pensar criticamente. Ao consumir apenas o recorte, ele perde a pluralidade. Ele simplifica algo complexo e, sem perceber, abre mão da sua participação política, preso em um sistema que incentiva o consumo fragmentado de informações."
Em setembro, a autora lança o livro "Curadoria do Eu: quem está selecionando quem", com mais detalhes do estudo sobre como redes sociais, política, cansaço e medo estão mudando nossas relações pessoais e com a política.
Sobre o livro
O livro é resultado de uma pesquisa qualitativa feita entre 2019 e 2024 com jovens de 21 a 34 anos. Ele define a "Curadoria do Eu" como uma reação de proteção contra o medo de ser cancelado e o cansaço digital, sob uma falsa sensação de liberdade.
Catharina aprofunda o conceito mostrando os efeitos psicológicos: o voyeurismo (observar sem participar) e a autocensura. O medo de ser excluído ou cancelado leva a pessoa a viver em bolhas homogêneas, onde a curadoria que ela acha que faz é, na verdade, feita pelas plataformas. O usuário vira um produto, e a liberdade de escolha acaba virando uma forma de controle pelos algoritmos.
Catharina Vale é pesquisadora e consultora em comunicação estratégica, com doutorado pela Universidade Católica Portuguesa e mestrado pela Universidade Livre de Berlim. Tem experiência internacional, incluindo trabalho na ONU.
Lançamento
Em Brasília, o lançamento acontece em 15/09 no Café Daniel Briand e em 17/09 na Câmara dos Deputados, durante o 4º Congresso COMPÚBLICA.
O livro "Curadoria do Eu: quem está selecionando quem" será lançado.
Autora: Catharina Vale.
Editora: Gog Ideias (Porto Alegre, Brasil).
Ilustração e diagramação: Bianca Ronron e Niura Fernanda.
Revisão: Ana Terra.

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