04 de julho de 2026

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ONG Rio Solidário usava funcionários fantasmas do governo

Política Investigação 04/07/2026 07:10 Anna Bustamante, Felipe Grinberg, João Vitor Costa e Vera Araújo - Extra extra.globo.com

A ONG Rio Solidário, que deveria ser uma entidade privada e sem ligação com o governo, tinha diretores que ocupavam cargos públicos e recebiam altos salários para não trabalhar. Uma investigação descobriu que esses diretores, que também atuavam como funcionários fantasmas do estado, foram exonerados. A situação levantou suspeitas de irregularidades e desvio de dinheiro público.

Criada em 1995, a ONG Rio Solidário sempre foi um lugar de influência das primeiras-damas do governo do Rio de Janeiro. É tradição que, a cada novo mandato, elas assumam a presidência de honra da instituição e cuidem dos projetos sociais. No site, a ONG se define como uma entidade que "trabalha para construir uma sociedade mais justa e igualitária", com programas de educação, capacitação e inclusão para pessoas em situação de vulnerabilidade. Pelo seu estatuto, a organização é uma entidade privada, sem participação oficial do governo do Rio.

  • Diretores da ONG Rio Solidário também tinham cargos no governo do estado e recebiam salários de quase R$ 10 mil para não trabalhar.
  • A Controladoria-Geral do Estado descobriu que todos os 77 órgãos do governo tinham funcionários fantasmas, que não cumpriam suas funções.
  • Os ex-diretores Ana Carolina Chateaubriand e Gilbrando Freitas foram exonerados após serem incluídos em uma lista de "alta criticidade" de funcionários suspeitos.
  • Gilbrando Freitas foi nomeado para um cargo no governo no mesmo dia em que foi eleito diretor financeiro da ONG, e recebia R$ 13 mil por mês para trabalhar na ONG, não no estado.
  • Especialistas afirmam que essa mistura entre o público e o privado pode ser ilegal e caracterizar improbidade administrativa.

O que a investigação descobriu

Uma investigação do governo do estado mostrou que diretores da ONG Rio Solidário também ocupavam cargos na Secretaria da Casa Civil, com salários de quase R$ 10 mil por mês. A Controladoria-Geral do Estado descobriu que todos os 77 órgãos do governo tinham funcionários que não trabalhavam, os chamados "funcionários fantasmas".

Foi o que aconteceu com a ex-diretora executiva Ana Carolina Chateaubriand e o ex-diretor financeiro Gilbrando Freitas. Eles foram nomeados para cargos no governo ao mesmo tempo em que assumiram suas funções na ONG. Agora, foram exonerados por estarem em uma lista de "alta criticidade", que é o nome técnico para funcionários que, aparentemente, são fantasmas.

Como funcionava o esquema

Gilbrando Freitas foi eleito diretor financeiro da ONG em 18 de agosto de 2023. No mesmo dia, ganhou um cargo de assessor na Superintendência de Projetos Sociais da Casa Civil, onde ficou até abril, quando foi exonerado. Pelo cargo, ele recebia R$ 13 mil brutos e deveria trabalhar 40 horas por semana. Mas, na verdade, ele trabalhava na ONG, onde fazia a gestão financeira de cerca de R$ 15 milhões por ano.

Só em convênios com o estado, a ONG recebeu quase R$ 6 milhões em 2025. Também recebeu dinheiro da prefeitura, de empresas e de emendas parlamentares.

No sistema eletrônico do governo, Gilbrando aparecia pouco, mas sempre assinando documentos da ONG. A equipe de tecnologia do governo até questionou se ele ainda estava trabalhando, já que ele não acessava o sistema há seis meses.

Ana Carolina Chateaubriand também teve um alerta por nunca ter acessado o sistema, apesar de estar nomeada de agosto de 2023 a abril de 2024. Ela também tinha um cargo comissionado e recebia o mesmo salário de Gilbrando.

As consequências e a defesa dos envolvidos

Jornalistas tentaram falar com os dois. Na ONG, disseram que eles não trabalham mais lá. No endereço de Gilbrando, um funcionário disse que ele tinha um apartamento, mas não morava lá. Ana Carolina foi encontrada em Niterói, mas não quis dar entrevista.

O governo do estado disse que os dois diretores eram nomeados na Casa Civil e trabalhavam na ONG. Afirmou que eles "exerciam suas atividades regularmente" e que hoje não há mais funcionários da ONG vinculados a secretarias do estado.

A ex-presidente da ONG, Paola Figueiredo, também tinha cargo no governo. Ela renunciou e foi transferida para outra secretaria. Ela disse que seu trabalho sempre foi institucional e que a saída não foi por irregularidades.

O estatuto da ONG diz que os cargos não são remunerados e que podem ser ocupados por servidores públicos, mas com a condição de que não atrapalhem suas obrigações no serviço público.

O que dizem os especialistas

Especialistas ouvidos explicam que o governo não pode financiar uma instituição privada, mesmo sendo uma ONG sem fins lucrativos. O jurista Lenio Luiz Streck critica a mistura do privado com o público: "Não é possível que haja obscuridades ou desvio de finalidades em ONGs. Isso é absolutamente vedado e pode ser improbidade administrativa."

O advogado Hermano Carbenite concorda e diz que essa relação pode ser crime: "Se o cargo comissionado existe apenas para pagar pessoas que trabalham na ONG, o estado está financiando indiretamente uma entidade privada com dinheiro público."

A situação atual

Na sede da ONG, em Laranjeiras, os funcionários ainda se referem aos ex-diretores pelos apelidos: "Carol" e "Gil". Durante uma visita, um caminhão descarregava doações para as creches da instituição. A ONG também oferecia cursos livres, que foram suspensos depois que os diretores saíram.

Em uma visita, o fotógrafo foi abordado por dois homens em tom ameaçador, que perguntaram se ele era do estado e disseram que o prédio era do estado.

Nos bastidores da política, as nomeações na Casa Civil são atribuídas à ex-primeira-dama Analine Castro, que era presidente de honra da ONG. Ela nega qualquer participação nas nomeações e diz que o cargo de presidente de honra é simbólico, sem função executiva.