Um vídeo gravado por Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama, revelou uma briga séria com o senador Flávio Bolsonaro. Ela conta que foi humilhada por ele, que disse que ela não entende de política. Essa briga escancarou uma disputa dentro da família para ver quem vai herdar o poder político de Jair Bolsonaro. Muita gente do grupo bolsonarista acha que Michelle agora tem força própria e não quer mais seguir as ordens dos filhos do ex-presidente.
O vídeo de Michelle Bolsonaro, na quarta-feira, no qual ela conta que foi desrespeitada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), não mostra só a relação difícil que ela tem com os filhos do ex-presidente. Mostra, principalmente, que a família está brigando para ver quem vai ficar com o poder político dele. Isso porque, na crítica que fez ao enteado, a ex-primeira-dama deixou bem claro que ela representa a verdadeira essência do bolsonarismo. Ela é contra alianças eleitorais feitas só por interesse, como a que estava sendo combinada no Ceará com Ciro Gomes. Flávio, por sua vez, pediu desculpas a ela pelas redes sociais e preferiu não aumentar uma crise que só ajuda os inimigos dele na campanha.
- Michelle Bolsonaro gravou um vídeo dizendo que foi humilhada pelo enteado, o senador Flávio Bolsonaro.
- A briga é sobre quem vai herdar o poder político de Jair Bolsonaro dentro da família.
- Muita gente do bolsonarismo acredita que Michelle ganhou força própria e não quer mais obedecer aos filhos do ex-presidente.
- Michelle tem se destacado como presidente do PL Mulher, ganhando influência entre as mulheres e os evangélicos.
- Flávio é o pré-candidato à presidência, mas a briga com a madrasta pode prejudicar a campanha dele.
O poder que cresceu
Depois que a poeira baixou, a avaliação de vozes importantes do bolsonarismo é que ficou claro o tamanho da força de Michelle dentro do PL e no mundo da extrema-direita. Muitos já sabiam que, como presidente do PL Mulher, ela tinha ganhado muito peso nas decisões do partido e na influência sobre o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto. O que ninguém imaginava, e o vídeo mostrou, é que ela virou uma figura importante, com uma grande e discreta capacidade de fazer articulações.
Aliados da família contaram, em conversas particulares, que o apoio de Michelle à candidatura de Flávio para presidente é considerado "algo distante". Isso não chega a ser uma surpresa, porque, quando jornalistas perguntavam a ela sobre a candidatura do enteado, ela sempre fugia da resposta, dizendo que sua preocupação era cuidar do marido, que está em prisão domiciliar. Mas, depois do vídeo, o afastamento entre eles virou um problema difícil de resolver.
Uma pessoa próxima aos Bolsonaro resumiu a situação: "No início, Michelle ficou muito triste com o que aconteceu", garantiu.
Outro aliado acha que a acusação de Flávio, que Michelle trouxe à tona, de que ela "não entendia de política", "deu um gás para Michelle".
Nas palavras da ex-primeira-dama, o filho mais velho "disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política. Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante. E então eu me recolhi. Fiquei na minha e assim permaneço".
Influência forte
No PL Mulher, Michelle aumentou sua influência dentro do partido, especialmente entre as mulheres e os evangélicos. Em declarações recentes e no vídeo da quarta-feira, ela tem destacado seu trabalho de mobilização nacional e sua atuação na formação política de mulheres em vários estados.
Uma das primeiras mostras de que o prestígio da ex-primeira-dama tinha subido, por ela ter construído uma base entre as mulheres (que sempre resistiram a Bolsonaro), foi um vídeo recente que Valdemar Costa Neto publicou nas redes sociais. Nele, ele elogiou o trabalho de Michelle para aumentar a presença feminina no partido e na aplicação dos recursos do partido para as mulheres.
"No PL Mulher, nós temos que gastar 5% da nossa arrecadação do fundo partidário com mulheres. E ela soube usar isso. Viajou o Brasil inteiro, fez encontros no Brasil inteiro. E ela tem um prestígio danado", destacou o presidente do PL.
Em conversas particulares com pessoas próximas a Valdemar e a Michelle, algumas pessoas contam que a ex-primeira-dama chegou a ser vista, em um determinado momento, como a preferência de Costa Neto para ser vice em uma chapa presidencial com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que vai tentar a reeleição. Mas o ex-presidente não deixou isso acontecer, embora fontes garantam que a definição de Flávio como pré-candidato aconteceu depois de manobras do próprio filho mais velho, em um momento em que a saúde do pai estava frágil.
Michelle vinha sendo apontada como uma alternativa por causa de sua força entre o eleitorado feminino. Uma pessoa próxima a ela garante que o fato de ter sido deixada de lado a frustrou, mas não a ponto de tirar o apoio institucional a Flávio. Esse mesmo interlocutor adianta que existem "informações ainda não divulgadas" que poderiam piorar muito a situação política de Flávio.
A briga entre Michelle e Flávio também pode, de acordo com aliados do PL, prejudicá-lo entre os evangélicos. Isso porque ela tem influência nesse grupo, enquanto ele ainda tenta fortalecer sua imagem. A isso se soma o desagrado que líderes neopentecostais manifestam com o trabalho do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, estimulando sanções contra o Brasil. Eles acham que, até agora, essas conversas com integrantes do governo de Donald Trump atrapalharam a campanha do irmão pré-candidato.
Uma nova força
Para Rudá Ricci, cientista político e presidente do Instituto Cultiva, Michelle passou a representar uma das principais forças do bolsonarismo depois que o marido ficou mais fraco por causa da prisão por tentativa de golpe de Estado.
"O discurso dela tem uma força enorme porque nasce de dentro da própria família. Ela não fala como alguém de fora do bolsonarismo. Ela fala do centro desse núcleo", alerta.
Ricci observa que o bolsonarismo foi estruturado, no começo, em uma lógica hierárquica, influenciada pela centralização do poder em torno de Bolsonaro. Porém, Michelle passou a representar uma segunda corrente, ligada ao conservadorismo religioso e ao eleitorado evangélico feminino. Essa mudança, segundo o analista, alterou o equilíbrio de forças no grupo político.
"A força de Michelle não vem apenas do sobrenome. Ela construiu uma identidade própria junto a setores religiosos e conservadores. Isso muda completamente a dinâmica interna da família e do movimento", afirma.
Problemas de família
O desabafo de Michelle no vídeo também trouxe à tona tensões que vêm se acumulando entre ela e os filhos do ex-presidente, que aumentaram quando Jair Bolsonaro chegou à Presidência. Antes vista por Flávio, Carlos e Eduardo como uma figura apenas decorativa, a ex-primeira-dama construiu pontes nos tempos de poder que agora está usando.
Um dos primeiros sinais do crescimento da importância de Michelle surgiu na delação premiada do tenente-coronel do Exército Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro na Presidência. Nos depoimentos que ele deu, e que ajudaram a formar a convicção do Supremo Tribunal Federal de que o ex-presidente esteve na linha de frente da trama golpista após a derrota nas urnas em 2022, ela era apontada como uma das pessoas que instigou o marido a impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva.
Pessoas próximas à família, porém, não imaginavam que a briga entre ela e os filhos explodiria nesta pré-campanha. Uma fonte ouvida afirmou que, de todos, Flávio mantinha a relação mais harmoniosa com Michelle.
"Flávio sempre foi quem tinha a melhor relação com ela. Por isso mesmo, o desgaste acabou surpreendendo", conta a fonte.
Mas as tensões familiares são anteriores ao atual casamento. A mais lembrada é a briga entre a mãe de Flávio, Carlos e Eduardo e o próprio Bolsonaro. Ele se separava de Rogéria no momento em que ela tentava o terceiro mandato como vereadora no Rio de Janeiro. O patriarca lançou o então adolescente Carlos, com 17 anos, para a mesma vaga. O filho venceu a própria mãe.
No Rolls-Royce
Na posse presidencial, em 2019, o mesmo Carlos roubou a cena. Subiu pela lataria do Rolls-Royce do cerimonial, no desfile pela Esplanada dos Ministérios, e sentou-se no encosto traseiro como segurança do pai. Já naquela época, o filho do meio era o responsável pelo chamado "gabinete do ódio", grupo que usava as redes sociais para atacar inimigos do ex-presidente. Mas aquela cena mostrou que os filhos tinham o privilégio de herdar o poder político do pai.
Michelle chegou à campanha de 2022 mais forte, para desconforto de setores ligados aos filhos. Às vésperas da eleição, ela criticou quem tentava usar o sobrenome da família para se eleger. Isso foi interpretado como uma referência à candidatura da mãe de Jair Renan, Ana Cristina Valle, que concorria com o nome de Cristina Bolsonaro a deputada distrital. Não se elegeu.
Outro episódio alimentou especulações sobre problemas internos. Após a derrota para Lula, Michelle e o então presidente deixaram de se seguir em uma rede social. A ex-primeira-dama atribuiu o episódio à administração de Carlos das contas digitais do marido.
"Quem administra as redes não é ele (Jair). Eu e meu esposo seguimos firmes e unidos", escreveu ela.
Em março de 2025, Michelle admitiu que não mantém convivência com Carlos, hoje pré-candidato ao Senado por Santa Catarina. No vídeo de quarta-feira, ela deixa claro que apoia a hoje deputada Caroline de Toni para o Senado, também por Santa Catarina.

Vídeo expôs que Flávio e Michelle estão no centro de uma disputa sobre quem melhor representa o legado dos Bolsonaro (crédito: Reprodução/Redes Sociais)


