O Ministério Público de São Paulo está investigando o prefeito de São José dos Campos, Anderson Farias, por suspeita de ter nomeado sua amante, Milena Guimarães, para vários cargos públicos de confiança. A prática é considerada nepotismo, mesmo sem casamento, e pode resultar em multas e perda de direitos políticos.
O Ministério Público de São Paulo (MPSP) entrou com uma ação contra o prefeito de São José dos Campos, Anderson Farias Ferreira, e uma servidora da cidade. A suspeita é que a mulher, chamada Milena Guimarães, foi nomeada para cargos de confiança enquanto tinha um relacionamento amoroso com o prefeito.
- O prefeito é acusado de nomear a amante para cargos públicos
- A prática é chamada de nepotismo afetivo e é proibida por lei
- A servidora ocupou cargos como ouvidora da saúde e diretora
- O caso veio a público depois que a ex-esposa do prefeito fez denúncias
- O MP pode pedir multa, suspensão de direitos e quebra de sigilo
De acordo com a 7ª Promotoria de Justiça de São José dos Campos, as nomeações aconteceram enquanto o prefeito mantinha um relacionamento com Milena. Anderson substituiu no cargo o atual vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth, de quem foi vice-prefeito.
Há evidências de que nomeações da sra. Milena Guimarães Coelho na Administração Pública de São José dos Campos foram feitas ao mesmo tempo em que ela tinha um relacionamento afetivo com o Prefeito. Eles mantinham uma relação adúltera, e por isso os atos de nomeação devem ser anulados e os responsáveis punidos por improbidade, afirmou a promotora Ana Cristina Ioriatti Chami.
Segundo a ação, a servidora foi favorecida de forma ilegal com nomeações. O nepotismo é proibido pela lei e é considerado um ato de improbidade administrativa. A conduta fere princípios da administração pública estabelecidos na Lei 8.429/92 e na Súmula Vinculante 13, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O que é nepotismo afetivo
Para a promotora, mesmo não havendo casamento formal, a posição de companheira, amante ou parceira amorosa também impede que a pessoa seja nomeada para cargos comissionados ou funções de confiança na administração pública municipal.
A prefeitura defendeu as nomeações e disse que a situação é legítima. Mas a promotora rebateu: A confusão entre os cargos públicos e as relações amorosas do sr. Anderson Farias deveria ter sido evitada. Mas não foi, e virou um escândalo público, mostrando manipulação das funções públicas para benefício pessoal.
A ação explica que tanto o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) quanto o STF entendem que a impessoalidade e a moralidade são violadas mesmo sem parentesco formal. A justiça avalia o contexto da nomeação e do favorecimento indevido para caracterizar o nepotismo, reconhecendo o chamado nepotismo afetivo.
Os cargos que ela ocupou
Milena tomou posse como enfermeira concursada do município em 2023. Mas também foi nomeada para vários cargos em comissão e funções de confiança. Ela ocupou, por exemplo, o cargo de ouvidora da Saúde (entre 2022 e 2024) e recebeu funções gratificadas para integrar a Junta de Recursos, a partir de decretos assinados pelo prefeito.
A promotoria também aponta que Milena foi indicada para o Conselho de Administração da Urbam, empresa municipal que faz a limpeza da cidade e tem a prefeitura como acionista majoritária.
Segundo a ação, os primeiros cargos de Milena surgiram quando o atual prefeito era secretário Municipal de Governança. O texto ainda diz que não se sabe quando o relacionamento começou, mas há evidências de que os dois mantinham relações íntimas desde 2023.
Depois que o caso veio a público, Milena pediu para ser exonerada do cargo de diretora de Vigilância em Saúde.
O que o Ministério Público quer
O MP também encontrou indícios de que Milena trabalhava em uma clínica de estética durante o horário de trabalho na prefeitura, o que ela nega. Com isso, a promotoria pediu à Justiça a aplicação de multa, suspensão de direitos políticos e proibição de contratos com o Estado. O pedido também inclui a quebra de sigilo e a verificação da localização do celular da servidora.
Entenda o caso desde o começo
Em outubro do ano passado, a ex-primeira-dama de São José dos Campos, Sheila Thomaz, perdeu a presidência do Fundo Social depois que Milena, apontada como amante do prefeito, a acusou de perseguição. Milena é enfermeira e trabalha na rede pública desde 2017. Em agosto de 2025, ela registrou um boletim de ocorrência dizendo que mantinha um relacionamento amoroso com Anderson e que foi vítima de stalking pela ex-primeira-dama.
Sheila é acusada de ir ao local de trabalho de Milena para constrangê-la, além de vigiá-la na porta de casa e intimidá-la. Em um evento público, a ex-primeira-dama teria chamado a suposta amante de puta.
O documento veio a público por uma publicação local. Depois disso, a prefeitura anunciou a separação do casal e o desligamento de Sheila. O texto não explicava a razão da decisão e dizia que a ex-primeira-dama iria se dedicar a projetos pessoais e profissionais.
O Metrópoles apurou que o relacionamento entre o prefeito e Milena já era conhecido no meio político desde 2024. Anderson, no entanto, mantinha o casamento de fachada com Sheila, que tinha pretensões eleitorais próprias. Ela era filiada ao PSD, mesmo partido do prefeito, e já trabalhou no gabinete de um ex-vereador.
Em agosto do ano passado, o prefeito nomeou a suposta amante como conselheira da Urbam.
Medida protetiva
Sheila também conseguiu uma medida protetiva contra o ex-marido. Em outubro de 2025, após denúncia por violência doméstica, a Justiça proibiu o prefeito de se aproximar a menos de 200 metros dela e de ter qualquer tipo de contato com a ex-esposa, com quem foi casado por 30 anos.
O caso tramita na Vara da Violência Doméstica de São José dos Campos. A decisão estabeleceu prisão em flagrante ou preventiva em caso de descumprimento, válida por um ano.
No boletim de ocorrência, Sheila disse que o comportamento agressivo do marido envolvia ofensas, humilhações e dependência financeira. Anderson teria agredido fisicamente a mulher e a própria filha durante uma discussão. Sheila também disse que foi ameaçada e xingada pela sogra, que se aproximou da suposta amante do filho.
Venda de marmitas
Em uma publicação nas redes sociais, Sheila anunciou que estava vendendo marmitas para se sustentar, especialmente quando passou por um período em Dublin, na Irlanda, para acompanhar o filho depois que ele foi atropelado e teve uma perna amputada. Enfrentamos muitos desafios, principalmente financeiros, e tivemos que nos virar, disse.
Foi então que uma linda corrente do bem se formou. Os amigos do meu filho passaram a nos ajudar nas vendas e criamos juntos uma rede de solidariedade. Depois que voltamos para São José dos Campos, os desafios só aumentaram. Acho que vou precisar voltar com as marmitinhas!, anunciou a ex-primeira-dama, em janeiro.

Imagem ilustrativa da matéria sobre nepotismo afetivo


