12 de setembro de 2026

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Ex-dono do Banco Master pagava até a Interpol para espionar investigações

Polícia Mastro 12/09/2026 09:19 Agência Brasil meiahora.com.br

Relatório da Polícia Federal revela que Daniel Vorcaro mantinha um grupo armado de vigilância e infiltração, pago com R$ 1 milhões mensais, para acessar sistemas sigilosos do MPF, PF e até tentar contatar o FBI e a Interpol.

Investigação revela estrutura de espionagem paga por Vorcaro

O grupo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo proprietário do Banco Master, detinha acesso privilegiado a informações de investigações que corriam contra ele. Esses dados incluíam procedimentos sigilosos do Ministério Público Federal (MPF), registros em sistemas restritos da Polícia Federal (PF) e até contatos com a Organização Internacional de Polícia Criminal, conhecida como Interpol, que reúne 196 países.

Essas informações constam em um relatório da Polícia Federal, datado de 27 de fevereiro deste ano, enviado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Ele é o relator da Operação Compliance Zero, que apura fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master e Vorcaro. O sigilo do inquérito foi quebrado após pedido do presidente do STF, ministro Edson Fachin.

  • Vorcaro pagava R$ 1 milhão por mês para financiar uma milícia privada chamada 'A Turma'.
  • O grupo incluía um homem chamado Felipe Mourão, apelidado de 'Sicário', acusado de acessar sistemas governamentais de forma ilegal.
  • Um policial federal aposentado, Marilson Roseno, ajudava a obter dados do MPF e da PF por meio de logins roubados.
  • As conversas mostram que o banqueiro queria 'tudo' sobre o caso do Banco de Brasília (BRB) e o Master.
  • A PF afirma que houve tentativa de contato com o FBI e a Interpol, embora a origem exata dessas buscas seja dúvida.

A perícia aponta a existência de um grupo informal chamado 'A Turma'. Essa estrutura funcionava como uma vigilância privada, uma milícia e uma forma de coerção mantida por Vorcaro. Um dos membros centrais era Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido nos documentos como 'Felipe Mourão' ou 'Sicário'.

Segundo o documento enviado ao STF, Daniel Vorcaro destinava R$ 1 milhão mensalmente para sustentar essa rede de espionagem e intimidação.

Acesso irregular a sistemas de segurança

Os investigadores da PF apontam que o 'Sicário' tinha a missão de acessar de forma recorrente e irregular procedimentos sigilosos em andamento. Isso ocorria no MPF, na PF, na Polícia Civil e também no Banco Central.

Em um documento de 164 páginas, que traz capturas de tela de conversas de WhatsApp entre os envolvidos e servidores públicos, a PF explica que o acesso clandestino acontecia pelo uso de logins de terceiros. A estrutura paralela também extraía documentos de forma indevida e realizava consultas sem autorização nos sistemas internos dessas instituições.

Conforme destaca a Polícia Federal, o conteúdo dos diálogos indica de forma clara o uso indevido de informações protegidas por sigilo. Esses dados eram obtidos para beneficiar a suposta organização criminosa de Vorcaro.

O relatório traz um exemplo concreto: em 15 de fevereiro de 2024, Vorcaro reencaminhou uma mensagem a Mourão perguntando sobre um inquérito policial que tramitava na PF.

Policial aposentado facilitava a espionagem

Quarenta minutos após a mensagem de Vorcaro, Felipe Mourão respondeu com um áudio do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. Na gravação, Marilson diz que já havia contatado a 'Tropa' e que daria uma atenção especial ao pedido do banqueiro.

O relatório afirma que Marilson possuía 'acesso ilícito aos sistemas do MPF'. A Operação Compliance Zero teve início no começo de 2024, a pedido do Ministério Público Federal. Marilson foi preso no dia 4 de março, durante a 3ª fase da operação, realizada em Belo Horizonte.

No comunicado ao ministro Mendonça, a PF afirma que, diante da gravidade da situação, conduziu uma auditoria interna. A investigação identificou que o acesso indevido partiu da Delegacia da Polícia Federal em Juiz de Fora, em Minas Gerais.

Buscas ocultas sobre o Banco BRB e Master

Os investigadores descrevem que o 'Sicário' enviava pelo aplicativo de mensagens provas de consultas realizadas no sistemas do MPF. As buscas utilizavam o CPF de Vorcaro. Foram encontrados 15 procedimentos relacionados ao banqueiro, sendo 11 deles sigilosos.

As pesquisas também usavam combinados termos como 'BRB AND MASTER'. Isso ocorria para identificar todos os procedimentos onde ambos os termos apareciam. O BRB é o Banco de Brasília, que foi investigado pela tentativa de compra de títulos financeiros fraudulentos emitidos pelo Master.

A pessoa que respondia às mensagens de Mourão demonstrava preocupação em manter o trabalho de busca discreto dentro das instituições. Em uma mensagem, ela diz: 'Veja com ele se ele quer que entremos em todos os processos sobre o BRB + Master. São muitos. Eu entrei no primeiro, mas são muitos e às vezes pode chamar atenção'.

Antes mesmo que respondessem, Daniel Vorcaro foi direto: 'Quero tudo. Atenção total'. Em resposta, o 'Sicário' declarou: 'Então vou mandar puxar geral'.

Tentativa de ocultar identidade do servidor

A Polícia Federal afirma que o servidor que realizou a consulta tentou se esconder. Ele apagou o nome dele e a unidade onde trabalhava das imagens enviadas.

Como aponta a PF, essa atitude mostra a intenção clara do servidor de ficar no anonimato. Ele provavelmente agiu assim por saber que estava cometendo uma irregularidade ao compartilhar um documento sigiloso.

Na manhã seguinte ao incidente, o 'Sicário' enviou para Vorcaro uma 'Notícia de Fato' do MPF. O documento pedia a apuração de um possível crime contra o sistema financeiro nacional ligado à tentativa de compra do Master pelo BRB.

A PF destaca no relatório que esse documento tinha natureza reservada. Isso levantava fortes indícios de uma obtenção indevida de dados por parte de Mourão.

Os quatro delegados federais signatários do relatório ressaltam: 'Daniel Vorcaro estava se utilizando de acessos ilícitos para obter informações sigilosas sobre a presente investigação'.

Eles continuam: 'Nesse sentido, após realizar pesquisas de forma clandestina em bancos de dados do Ministério Público Federal, as pesquisas passaram a se concentrar nos bancos de dados da Polícia Federal'.

Contatos com FBI e Interpol internacional

A PF relata que o nível de sofisticação e intrusão em órgãos policiais alcançado por 'A Turma' foi tão grave que as evidências mencionam até mesmo o acesso a organismos internacionais. Isso inclui menções ao FBI e à Interpol.

O FBI, sigla em inglês para Agência Federal de Investigação, é o equivalente da polícia federal nos Estados Unidos.

A PF descreve que, em 24 de outubro de 2025, Felipe Mourão reencaminhou uma captura de tela com o logotipo da Interpol. As mensagens anexadas continham as frases: 'O que está em branco foi para ocultar o nome de quem fez a pesquisa', 'Estamos aguardando o relatório principal do FBI' e 'A Interpol está limpa'.

No relatório enviado ao STF, a PF informa que consultou a Interpol no Brasil. A entidade respondeu que a identidade visual da tela mostrada na mensagem não corresponde aos mecanismos de busca oficiais disponibilizados pela Interpol.

No entanto, a organização internacional destacou que pode se tratar de sistemas de busca de outros países. A PF levantou a hipótese de que a consulta tenha sido feita por meio do sistema de algum país, usando dados baixados da Interpol. Assim, é possível inferir que não se trata de um usuário brasileiro.

Os delegados apontam que Vorcaro poderia ter utilizado vias legais para ter acesso aos autos da investigação contra ele. Contudo, ele optou pela ilegalidade. Ele conta com uma espécie de milícia pessoal, liderada por seu 'Sicário', Felipe Mourão, que conta com a participação de destaque do policial federal aposentado Marilson Roseno.

O caso do Banco Master e as consequências

O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. Segundo a instituição, a decisão ocorreu por causa de uma grave crise de liquidez e comprometimento da situação econômico-financeira do banco, além de graves violações às normas.

Durante as tentativas de salvar o banco, houve envolvimento do Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo do Distrito Federal. As perdas em negócios entre o BRB e o Master deixaram a instituição pública em situação crítica, necessitando de R$ 8,8 bilhões para equilibrar as contas.

O Banco Central impediu a venda do Banco Master ao BRB. No entanto, o relatório da PF aponta um 'relacionamento ilícito' entre Vorcaro e dois diretores do Banco Central.

Daniel Vorcaro foi preso em novembro de 2025 e novamente em março de 2026, por ordem do STF. Essa ordem de prisão continua em vigor. O 'Sicário' também foi preso, mas morreu dois dias depois, após uma tentativa de suicídio na prisão.

Além de espionar, Vorcaro usava o 'Sicário' para realizar atos de violência, coação e intimidação. Havia menções ao planejamento e possível execução de agressões físicas, o que incluía a mobilização de pessoas armadas. O objetivo era, conforme detalha a PF, pressionar e silenciar determinadas pessoas.