Barham Salih, novo Alto Comissário da ONU para Refugiados, deu seu primeiro grande discurso em Genebra. Ele alertou que, embora a ajuda humanitária salve vidas, não é aceitável que milhões de pessoas vivam indefinidamente em acampamentos. O foco agora é garantir que os refugiados consigam trabalhar, estudar e se tornar independentes, encerrando a dependência constante de doações.
Em seu primeiro discurso no Comitê Executivo, Barham Salih alertou para o custo humano do deslocamento global desenfreado e apresentou uma visão para ajudar os refugiados a superar a dependência.
Ao proferir seu primeiro discurso na sessão anual do Comitê Executivo do ACNUR em Genebra, o Alto Comissário afirmou ter encarado seus primeiros nove meses no cargo sob uma perspectiva profundamente pessoal, tendo vivenciado o deslocamento forçado e atuado anteriormente como chefe de Estado. "Sei o que significa precisar de proteção. E conheço as decisões difíceis que os governos precisam tomar. Compreendo o quanto essas decisões podem moldar profundamente a vida das pessoas", disse Salih. "As pressões são reais. Assim como as nossas responsabilidades."
- Mais de 117 milhões de pessoas estão deslocadas à força em todo o mundo.
- O objetivo é reduzir a dependência da ajuda humanitária em favor da autossuficiência.
- O ACNUR lançou a visão "50 por 35" para reduzir a dependência de assistência.
- A crise de financiamento é grave: apenas 35% dos recursos necessários para 2026 foram obtidos.
- 5,8 milhões de crianças refugiadas permanecem fora da escola.
Defesa da proteção e busca por soluções duradouras
Desde que assumiu o cargo em janeiro, o Alto Comissário visitou 15 operações do ACNUR ao redor do mundo, do Chade à Ucrânia, da Etiópia ao Afeganistão e da Síria à Venezuela. Essas viagens não apenas revelaram a dimensão do desafio enfrentado pelo ACNUR em um momento difícil da história da organização, mas também reforçaram uma convicção fundamental. "Devemos proteger as pessoas quando elas são forçadas a fugir, mas não podemos aceitar o deslocamento indefinido como o futuro delas", disse ele. "Devemos medir o sucesso não apenas pelas vidas que salvamos, mas pelas vidas que as pessoas conseguem reconstruir e pelas soluções duradouras que podem encontrar."
A mensagem central foi a de que a ajuda humanitária salva vidas, mas o sucesso também deve ser medido pela capacidade das pessoas refugiadas alcançarem a autossuficiência e encontrarem soluções duradouras. É por isso que o ACNUR lançou a visão "50 por 35", visando reduzir a dependência de assistência humanitária. "Mais um ano de sobrevivência em situação de deslocamento" não deve ser considerado um resultado aceitável, afirmou o Alto Comissário do ACNUR, Barham Salih.
Iniciativas para promover a independência
O objetivo é reduzir a necessidade de ajuda humanitária por meio de iniciativas que promovam a autossuficiência, inclusão econômica e soluções duradouras, como o retorno voluntário, o reassentamento e a integração local. Salih anunciou várias novas iniciativas, incluindo: Uma Estratégia Global para a Autossuficiência, para ampliar o acesso dos refugiados a emprego, serviços financeiros, empreendedorismo e mercados. Um novo mecanismo de financiamento no âmbito do ACNUR para mobilizar mais investimentos em desenvolvimento.
A crise global de deslocamento se agrava
Mais de 117 milhões de pessoas estão deslocadas à força em todo o mundo. Os conflitos estão durando mais tempo e se espalhando, gerando deslocamentos em um ritmo mais acelerado do que a capacidade de encontrar soluções.
Asilo e Convenção de 1951
A Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 permanece tão relevante quanto sempre, ressaltou o Alto Comissário. A resposta à pressão sobre os sistemas de asilo deve ser uma implementação mais eficaz, e não um retrocesso em relação aos princípios de proteção aos refugiados. "Os princípios perduram. Nosso esforço coletivo para implementá-los deve evoluir", disse Salih.
Educação e financiamento
Salih observou que 5,8 milhões de crianças refugiadas permanecem fora da escola e destacou o lançamento planejado de uma nova iniciativa, "Aiming Higher" (Visando Mais Alto), para ampliar o acesso de estudantes refugiados ao ensino superior por meio de parcerias com governos, instituições de ensino superior e o setor privado.
"A proteção tem um patamar mínimo. Abaixo dele, o sistema não se torna apenas menor; a proteção que podemos oferecer começa a falhar", disse o Alto Comissário, alertando que os ganhos de eficiência têm limites e que os serviços de proteção já estão sendo afetados.
As necessidades do ACNUR para 2026 totalizam US$ 8,505 bilhões, e os recursos disponíveis (em 9 de outubro) eram de US$ 3 bilhões (35% do financiamento obtido). As reformas do ACNUR incluem: operações em nível de país com maior autonomia, concentradas onde a atuação direta agrega mais valor; escritórios regionais mais enxutos e estratégicos, focados na supervisão e no apoio às operações; e uma sede mais ágil, com responsabilidades mais claras quanto às funções globais.

Barham Salih, Alto Comissário da ONU para Refugiados


