O Pentágono estuda mudar a posição das forças americanas no Oriente Médio depois do conflito com o Irã. A ideia é diminuir a presença militar no Golfo Pérsico e levar soldados para lugares mais seguros, como Jordânia e Israel.
O Pentágono começou a avaliar uma possível redução e reestruturação da presença militar americana no Oriente Médio depois da guerra com o Irã. A informação foi revelada pelo Washington Post, que ouviu autoridades e pessoas familiarizadas com as discussões.
- Os EUA realizaram mais de 13 mil ataques contra alvos iranianos.
- Duzentas instalações americanas foram danificadas ou destruídas durante o conflito.
- Dez militares americanos morreram em ataques no Kuwait e na Jordânia.
- A guerra pode custar US$ 37,5 bilhões até setembro deste ano.
- Uma retirada pode forçar os países do Golfo a buscar novas alianças militares.
A análise pode levar a uma das mudanças mais importantes na estratégia militar americana na região em décadas. Um dos principais pontos em discussão é se os EUA devem manter grandes contingentes e bases no Golfo Pérsico, onde instalações militares foram repetidamente atingidas por mísseis e drones iranianos.
O Comando Central dos EUA (CENTCOM) mantém normalmente cerca de 40 mil militares distribuídos por quase 20 instalações, numa faixa de aproximadamente 2.400 quilômetros, da Jordânia até Omã.
Desde o início do ano, Washington reforçou essa presença, enviando navios de guerra, caças, sistemas de defesa aérea e outros equipamentos para proteger as forças americanas e sustentar as operações contra o Irã.
O conflito também expôs o custo e a vulnerabilidade dessa estratégia. Antes da guerra, em fevereiro, o CENTCOM já havia retirado militares de várias instalações consideradas vulneráveis a ataques. Parte dessas mudanças pode se tornar permanente.
Durante o conflito, mais de 200 instalações americanas foram danificadas ou destruídas. Em março, seis militares americanos morreram em um ataque contra Port Shuaiba, no Kuwait. Outro ataque iraniano contra a Jordânia matou quatro militares americanos no mês passado. A defesa dessas instalações pressionou os estoques militares: mais de mil interceptadores sofisticados de defesa aérea foram usados, incluindo mísseis dos sistemas Patriot e THAAD.
Possíveis mudanças
Agora, uma das possibilidades em análise é deslocar parte das forças do Golfo para posições mais a oeste, incluindo Jordânia, Israel e a costa do Mar Vermelho na Arábia Saudita. O almirante Bradley Cooper, chefe do CENTCOM, participa das discussões e apoia a avaliação sobre um possível deslocamento de tropas.
A mudança poderia diminuir a exposição das forças americanas, mas não eliminaria completamente o risco. O Irã já demonstrou capacidade de atingir alvos mais distantes, inclusive na Jordânia e em Israel. Uma eventual redução também teria impacto direto sobre aliados históricos. O Bahrein abriga o quartel-general da Quinta Frota da Marinha americana, enquanto o Kuwait recebe importantes forças do Exército e da Força Aérea.
Durante décadas, os países do Golfo construíram parte de sua estratégia de defesa em torno da presença militar americana. Uma retirada significativa poderia obrigar esses governos a ampliar rapidamente suas próprias capacidades militares ou buscar novas parcerias de segurança um processo que poderia levar meses ou até anos.
Existe ainda uma discussão dentro do governo Trump sobre qual deve ser a prioridade militar dos EUA. Uma ala defende a manutenção de compromissos fortes no Oriente Médio, enquanto outra considera necessário reduzir a presença na região para concentrar recursos na defesa do território americano e na contenção de adversários maiores, principalmente a China.
Israel como alternativa
Israel aparece como outra possibilidade de reposicionamento. Há propostas para transferir mais equipamentos e tropas americanas para bases israelenses, incluindo a base aérea de Ovda. Mas a ideia enfrenta resistência dentro da administração, inclusive por preocupações de contrainteligência relacionadas à possibilidade de espionagem israelense.
O custo financeiro também pesa. O Pentágono estima que a guerra poderá custar aproximadamente US$ 37,5 bilhões até o fim de setembro. Esse valor não inclui a reconstrução das bases atingidas. Uma estimativa independente calculou em aproximadamente US$ 5 bilhões apenas o custo para reparar instalações americanas atacadas durante o conflito.
É nesse ponto que a discussão ganha importância: reconstruir as bases exatamente onde estavam ou aproveitar a destruição provocada pela guerra para redesenhar toda a presença militar americana no Oriente Médio.
A avaliação está sendo conduzida pelo escritório de políticas do Pentágono, com participação do Estado-Maior Conjunto e do CENTCOM. Até agora, nenhuma decisão definitiva foi tomada. O secretário de Guerra, Pete Hegseth, ainda não determinou uma revisão formal da presença militar americana na região. O processo atual é tratado como um planejamento preventivo que poderá orientar as decisões sobre quais bases serão reconstruídas e onde as forças americanas ficarão no futuro.
Qualquer mudança permanente ainda dependerá da aprovação dos níveis mais altos do governo Trump. A guerra pode deixar uma consequência estratégica que vai além dos combates contra o Irã: depois de décadas usando grandes bases no Golfo Pérsico como demonstração do poder militar americano, os EUA agora discutem se manter dezenas de milhares de soldados tão próximos do território iraniano deixou de ser apenas uma vantagem e passou também a representar uma vulnerabilidade.

Desde o início do ano, Washington reforçou significativamente essa presença, enviando navios de guerra, caças e sistemas de defesa aérea para proteger as forças americanas. Foto: Andrew Harnik / Getty Images via AFP


