No Haiti, a violência de grupos armados impede que muitas pessoas cheguem aos hospitais. Em Porto Príncipe, moradores precisam enfrentar tiroteios e barricadas para buscar cuidados de saúde. Médicos Sem Fronteiras (MSF) tenta ajudar, mas até mesmo suas unidades são fechadas quando os confrontos chegam perto. Doenças como asma, diabetes e hipertensão se tornam ainda mais perigosas porque os pacientes não conseguem tratamento contínuo. A crise humanitária no país é grave e o acesso à saúde é uma emergência.
Em Porto Príncipe, no Haiti, grupos armados lutam contra o governo e entre si pelo controle de áreas da cidade. Essa violência constante impede que as pessoas circulem livremente. Os poucos hospitais que ainda funcionam muitas vezes precisam fechar as portas por causa da falta de segurança, o que dificulta ainda mais o acesso da população, especialmente dos mais pobres, a cuidados médicos.
A situação é ainda pior na comunidade de Cité Soleil, que tem 34 bairros, todos controlados por grupos armados. As ruas são cheias de barricadas e postos de controle, onde o risco de ser preso, agredido ou morto é enorme. Quando os moradores precisam de médico, enfrentam um dilema: buscar tratamento e enfrentar todos esses perigos, ou desistir e deixar a saúde piorar, muitas vezes de forma irreversível.
- Em Cité Soleil, os moradores precisam passar por barricadas e postos de controle armados para tentar chegar a um hospital.
- Médicos Sem Fronteiras (MSF) já teve que fechar seu hospital três vezes em três anos por causa de tiroteios perto da unidade.
- Doenças como asma, diabetes e pressão alta são as que mais matam no Haiti, mas muitos pacientes não conseguem tratamento contínuo.
- Apenas 26% dos hospitais do país estão funcionando normalmente; os outros fecharam, foram saqueados ou operam com capacidade reduzida.
- Uma moradora de 76 anos descobriu que tinha diabetes só quando já não conseguia mais andar, porque não tinha acesso a exames nem a médicos.
Há dois anos, Ronaldo* convive com a asma, uma doença que pode matar se não for tratada. No começo, ele recebeu remédios e depois um inalador, algo simples em muitos lugares. Mas o jovem de 19 anos sofre muito, tanto pelo preço dos remédios quanto pelo controle dos grupos armados sobre os bairros de Porto Príncipe. Ele foi atendido no ambulatório de MSF em Cité Soleil depois de ter várias crises de asma.
Como muitos pacientes, Ronaldo não consegue chegar ao hospital de MSF em Cité Soleil quando há tiroteios perto de casa.
Quando a segurança piora e tem tiroteio, não consigo sair de casa, principalmente quando tenho crise de asma, explica. Nessas horas, minha família joga água fria no meu corpo para tentar aliviar os sintomas.
A impossibilidade de cuidar em meio a tiroteios
No começo de maio de 2026, começaram tiroteios muito violentos entre grupos rivais em Cité Soleil e Croix-des-Bouquets. Os confrontos chegaram a menos de 200 metros do hospital, conta Thomas Curbillon, coordenador-geral de MSF no Haiti. Em menos de 12 horas, atendemos mais de 40 pessoas baleadas. Um segurança foi atingido por uma bala perdida dentro do hospital. Centenas de pessoas funcionários, parentes, moradores se esconderam no local. Por causa dessa violência extrema, MSF teve que evacuar pacientes e equipes no dia 11 de maio de 2026 e fechar o hospital por um tempo.
O hospital ficou fechado por três semanas, até 1º de junho. Foi a terceira vez em três anos que as equipes de MSF precisaram parar os atendimentos em Cité Soleil. Em dias normais, o ambulatório atende cerca de 150 pacientes por dia e os leitos ficam mais de 80% ocupados, diz Curbillon. Isso mostra como a população sofre quando ficamos semanas sem atender.
Mesmo com o hospital aberto, os tiroteios podem impedir que os pacientes cheguem. Os combates podem gerar tiros de armas automáticas em ruas e bairros inteiros perto do hospital, explica Sarah Chateau, coordenadora de operações de MSF no Haiti. Quando isso acontece, os pacientes param de vir eles tentam não ficar no meio do fogo cruzado. O hospital fica quase vazio e os doentes crônicos, exceto os que já estão internados, perdem o acesso ao tratamento.
Os tiroteios também impedem que mulheres grávidas recebam atendimento. Em junho de 2026, uma nova onda de violência em Cité Soleil e perto da Maternidade Isaïe Jeanty, que é apoiada por MSF, obrigou as equipes a fechar a unidade por várias semanas.
Um sistema de saúde no limite
Mesmo que um paciente decida enfrentar os riscos e ir ao hospital, não há garantia de que vai encontrar um lugar que possa tratá-lo. No país todo, a capacidade de atendimento entrou em colapso: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), apenas 26% dos hospitais ainda funcionam direito. Os outros fecharam, foram saqueados ou operam com menos capacidade por falta de profissionais, equipamentos ou segurança.
Rosemie*, moradora de Cité Soleil que tem diabetes, lamenta a situação. Os hospitais pequenos do meu bairro foram destruídos e tudo foi saqueado. Aos 76 anos, ela ficou internada vários dias no hospital de MSF em Cité Soleil. Ela tinha descoberto recentemente que tinha diabetes e sua saúde estava piorando. Antes, não sabia nada sobre a doença e só tinha ouvido que mata pessoas, causa feridas e pode levar à amputação. Quando ela foi atendida por MSF, já não conseguia mais andar.
O orçamento do Ministério da Saúde é muito pequeno, explica Chateau. A crise humanitária do Haiti sofre com a falta de ajuda internacional. Nesse cenário, uma pessoa com doença crônica tem poucas chances de manter o tratamento e, se o quadro piorar, pode morrer.
Para outros hospitais, as opções de transferir pacientes mais graves para o hospital de MSF em Cité Soleil são muito limitadas ou quase não existem. Em vez disso, pacientes baleados são levados para Tabarre, um hospital de MSF especializado em trauma. Também temos soluções para algumas cirurgias que salvam vidas, como para pessoas com peritonite, diz Jérôme Fritsch, médico do hospital de MSF em Cité Soleil. Podemos transferi-las para o Hospital Sainte-Camille, onde serão operadas. MSF paga todos os custos da internação.
Doenças crônicas: a principal causa de morte no Haiti
Enquanto o hospital de MSF estava fechado, eu não tinha para onde ir, conta Maryse*, que tem diabetes e pressão alta. Não tenho dinheiro para pagar um hospital particular nem para comprar meus remédios.
As doenças crônicas têm características especiais: elas acompanham o paciente pela vida toda e exigem acompanhamento regular e uso contínuo de remédios. Ter acesso a cuidados pode ser muito difícil no Haiti, diz Fritsch. Doenças como diabetes, pressão alta, asma ou epilepsia exigem remédios que muitas vezes são caros e, às vezes, não têm nas farmácias por falta de abastecimento.
Embora, segundo a OMS, as doenças crônicas sejam a principal causa de morte no Haiti, as equipes de MSF registram relativamente poucas mortes por isso no hospital de Cité Soleil. A maioria das mortes acontece fora dos hospitais, porque os pacientes não conseguem se deslocar por causa da violência ou do custo do transporte, ou porque estão muito fracos e passando por uma crise grave, afirma Fritsch.
Desde março de 2026, uma parceria com a Fundação Haitiana para Diabetes e Doenças Cardiovasculares (FHADIMAC) passou a oferecer um ano de acompanhamento para alguns pacientes com pressão alta ou diabetes, que é a especialidade da instituição. Para participar, os pacientes precisam primeiro ter sido atendidos no pronto-socorro de MSF durante uma crise causada por uma dessas doenças, explica o médico. Esperamos que esse acompanhamento ajude a quebrar o ciclo vicioso: atendimento de emergência, melhora, internação, volta para casa, dificuldade de acesso ao tratamento e nova ida ao hospital.
Presentes na comunidade há 15 anos, as equipes de MSF continuam tentando se adaptar a uma crise que não para de mudar. Mas, sozinhas, elas não conseguem compensar o colapso do acesso à saúde. Enquanto os moradores precisarem arriscar a própria vida para consultar um médico ou continuar um tratamento, garantir atendimento acessível, contínuo e de qualidade continuará sendo uma das maiores emergências humanitárias de Porto Príncipe.

Vicky Onélien



