09 de julho de 2026

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Andy Burnham promete descentralizar poder e impulsionar economia do Reino Unido

Mundo Descentralização 09/07/2026 11:16 Folhapress noticiasaominuto.com.br

Andy Burnham, ex-prefeito de Manchester, deve ser o próximo primeiro-ministro do Reino Unido. Ele aposta em um plano chamado 'manchesterismo', que mistura descentralização de poder com um 'socialismo pró-negócios'. A ideia é dar mais autonomia para as regiões e atrair investimentos para resolver problemas locais, como transporte, habitação e empregos.

Keir Starmer renunciou, e Andy Burnham, ex-prefeito de Manchester, deve ser o novo primeiro-ministro do Reino Unido ainda neste mês. O plano só não segue adiante se o Partido Trabalhista sofrer algum imprevisto. Enquanto isso, analistas políticos tentam entender o que é o 'manchesterismo' e o que ele pode significar para o futuro do país.

  • O 'manchesterismo' é a ideia de dar mais poder para as regiões, em vez de concentrar tudo no governo central de Londres.
  • Andy Burnham defende um 'socialismo pró-negócios', que incentiva empresas privadas, mas com controle público para garantir benefícios à população.
  • Como prefeito de Manchester, ele conseguiu um crescimento econômico de 3,1% ao ano, o dobro da média nacional.
  • Uma das principais bandeiras de Burnham é o transporte público. Ele criou o Bee Network, com ônibus amarelos que oferecem passe livre para pessoas mais pobres.
  • O provável primeiro-ministro promete abrir uma filial do governo em Manchester, chamada 'filial do norte', para estudar e executar medidas de descentralização.

De forma resumida, o 'manchesterismo' significa descentralizar o poder e adotar um 'socialismo pró-negócios', como o próprio Burnham definiu recentemente. Há muito mais no pacote, que está sendo revelado, descoberto e especulado nas últimas semanas, além de algumas omissões.

Burnham, que deixou a prefeitura da Grande Manchester para se eleger ao Parlamento (condição que o grupo de Starmer impôs para tentar conter sua ascensão), deve ser o único candidato trabalhista a registrar sua candidatura nesta quinta-feira (9), no início do processo de sucessão do partido.

As inscrições duram uma semana e, se ninguém mais se candidatar, como tudo indica, Burnham poderá se apresentar ao Rei Charles III no dia 20. Se surgir um concorrente, o processo pode se estender um pouco mais, mas sem tirar o favoritismo do ex-prefeito.

Descrito até como extremista de esquerda enquanto seu nome era apenas uma possibilidade, Burnham foi cuidadoso na escolha das palavras nas últimas semanas. Ele garantiu, por exemplo, que manterá a responsabilidade fiscal em seu governo.

Ele evitou a grande imprensa, mas esclareceu dúvidas de eleitores em uma sessão de perguntas e respostas no Reddit. Atendeu inclusive Kemi Badenoch, a líder dos conservadores, que o acusou de selecionar amenidades e evitar perguntas difíceis em uma entrevista coletiva profissional.

"É um desafio justo, Kemi, mas não se esqueça de que faz apenas duas semanas que respondi às perguntas de 74 mil cidadãos de Makerfield", respondeu Burnham, citando o nome do distrito eleitoral na região de Manchester que o elegeu ao Parlamento em meados de junho.

Uma manifestação mais contundente ocorreu na semana passada. Durante um discurso em um museu de Manchester, Burnham falou sobre vários assuntos, começando pela descentralização de poder, base do que chama de 'manchesterismo'.

Descentralização, no caso, é uma aproximação de 'devolution', ou seja, devolver competências, a alternativa britânica ao federalismo. É o Parlamento que detém o poder, mas historicamente ele o distribui na forma de atribuições. "O objetivo será oferecer novas oportunidades para ampliar a descentralização na Escócia, no País de Gales e na Irlanda do Norte, transferindo poderes", afirmou Burnham.

O Reino Unido é o país do G7 com a política tributária e de gastos mais centralizada e, entre as nações desenvolvidas, um dos mais desiguais. Burnham, o primeiro prefeito da área metropolitana de Manchester, é prova viva do quanto a descentralização de poder rende frutos: um crescimento anual de 3,1%, ou o dobro da média obtida pelo país.

Para o provável futuro primeiro-ministro, trazer o processo de decisão para o nível local, principalmente em áreas como impostos, formação profissional, transporte e habitação, é atender diretamente o cidadão e fazer a economia girar onde ela mais faz falta.

O plano de Burnham é tão elaborado que ele propõe um hub do número 10 de Downing Street, a sede do governo britânico, em Manchester. Caberia a essa 'filial do norte' estudar e executar as medidas de descentralização mais necessárias em diversos níveis da administração pública. Quanto mais local, melhor.

O programa atrai atenções e críticas. Ao mesmo tempo que foca os principais problemas que afligem o eleitorado trabalhista, o projeto talvez não seja eficiente nacionalmente. Além disso, a revolução de gestão de Burnham teria de ser combinada com o Tesouro, responsável pela condução econômica do país.

Em um artigo publicado neste mês, Dave Richards, professor da Universidade de Manchester, lembrou que a empreitada só teria sucesso se o Estado britânico abdicasse da mentalidade de soluções padronizadas, desenhadas sobretudo para controlar despesas, aderindo a uma abordagem que respeitasse as necessidades de cada região, mais próximas do cidadão.

"Burnham compreende essa característica do Tesouro melhor do que a maioria", escreveu o acadêmico.

Em Manchester, a receita deu certo. O ar decadente do antigo centro industrial foi substituído por uma economia moderna, voltada para serviços, economia criativa, tecnologia e cultura. Arranha-céus pipocam no centro da cidade.

O 'socialismo pró-negócios', que pode soar como palavrão para ouvidos liberais, distribui, entre outras iniciativas, 1 bilhão de libras (cerca de 6,8 bilhões de reais) entre dez distritos da Grande Manchester. A alocação dos recursos é definida pelos gestores locais.

O investimento privado faz parte da equação, mas sob o escrutínio dos eleitores. A bandeira mais famosa do ex-prefeito em Manchester é o transporte público, cujo controle o poder público retomou depois que as concessionárias não atenderam a pedidos de usuários referentes à modificação de linhas e horários.

O Bee Network, com seus veículos amarelos, virou uma marca da cidade e modelo para outros centros urbanos. O esquema, inclusive, prevê passe livre para os mais vulneráveis.

Fazer frente à extrema direita em ascensão no Reino Unido, personificada no populista Nigel Farage, parece justificar o foco de Burnham nos aspectos domésticos. Não por outro motivo, seus discursos e programas versam pouco sobre o exterior. Observadores esperam, assim, uma continuidade do trabalho de Starmer, baseado na gestão de crises, na reaproximação com a União Europeia e na desgastante relação com Donald Trump.

Uma análise do Conselho Europeu de Relações Exteriores lembra que Burnham tem como um de seus principais conselheiros Jim O'Neil, ex-funcionário do Tesouro e economista do Goldman Sachs.

O'Neil é conhecido por ter criado a sigla Brics e defende que os modelos econômicos do Ocidente, especialmente o do Reino Unido, precisam ser repensados à luz da relação com países médios e emergentes. Depreende-se que o Brasil possa entrar nesse contexto.