Uma delegada de polícia contou como descobriu que uma mulher de 37 anos estava fingindo ser uma menina de 11 ou 12 anos para conseguir abrigo e ajuda de famílias. A mulher, chamada Amanda, foi presa depois que a policial a confrontou e ela começou a falar normalmente, como adulta.
A delegada de Polícia Civil Luana Tamiozzo Medeiros lembra do momento em que confrontou Amanda Maria Souza de Oliveira, 37 anos, uma mulher que se passava por uma menina de 11 ou 12 anos chamada Gabrielly da Silva Ferreira em várias cidades do Rio Grande do Sul.
A investigação da 2ª Delegacia de Polícia de Cachoeirinha prendeu a mulher em 2021, cinco anos antes do caso ficar famoso em todo o país depois de uma nova prisão em Santa Catarina.
- Amanda, de 37 anos, fingia ser uma menina de 11 anos chamada Gabrielly.
- A delegada descobriu a farsa ao confrontar Amanda, que passou a falar como adulta.
- Amanda usava bicos e mamadeiras para enganar as pessoas.
- A investigação começou por suspeitas de famílias que a acolheram.
- Amanda disse que queria ter uma família, não fazer o mal.
Segundo a policial, a cena aconteceu depois do cumprimento do mandado de prisão de Amanda, no fim de 2021. Levada para a sala de interrogatório da delegacia, ela continuava falando com voz infantil, como fazia na frente de famílias, médicos e pessoas da rede de proteção à infância.
'Coloquei ela na sala e ela começou a fazer voz de neném para mim', lembrou a delegada em entrevista à RBS TV.
Foi então que a policial decidiu interromper a encenação.
'Eu olhei para ela e falei assim: 'Tá, Amanda, agora chega'.'
A reação da suspeita foi imediata:
'Ela engrossou a voz e olhou no meu rosto e disse: 'Então tá, delegada, agora é de mulher para mulher'.'
A reação surpreendeu a delegada e a policial que fazia o interrogatório junto. A polícia também apreendeu os pertences da investigada.
'A equipe apreendeu a mala dela também. A mala era cheia de bicos e mamadeiras', contou.
As primeiras suspeitas
Antes da prisão, Amanda havia sido acolhida por famílias e acompanhada por serviços públicos depois de se apresentar como uma criança em situação de vulnerabilidade, inclusive na cidade de Cachoeirinha. As primeiras desconfianças surgiram quando pessoas envolvidas no acolhimento procuraram a polícia.
'Eles vieram falar comigo porque a então menina estava tendo comportamentos estranhos, nervosos. Saíam agulhas, pregos de dentro dela', afirmou.
Quando viu Amanda pela primeira vez, Luana diz que desconfiou imediatamente da idade informada: 'Quando eles vieram me trazer, eu pensei: 'Isso não é uma menina, é uma mulher'. Desconfiei de cara e vi que não era, era uma mulher.'
A busca no Google
Sem conseguir confirmar quem era a suposta adolescente, a delegada decidiu procurar casos semelhantes na internet. A pesquisa acabou sendo decisiva para a investigação.
'Eu joguei no Google 'menina criança ferros no corpo', algo assim. E aí descobri que há dez anos acontecia isso', contou.
A busca levou a registros de ocorrências semelhantes em outros estados. A delegada então entrou em contato com um delegado da Bahia e enviou uma fotografia da mulher, que confirmou que era mesmo Amanda.
A partir dali, a polícia passou a reconstruir a trajetória de Amanda pelo país. De acordo com a delegada, a investigação apontou que ela se deslocava entre estados pegando carona com caminhoneiros.
O pedido de prisão
Segundo Luana, a investigação começou quando Amanda passou a apresentar comportamento agressivo na casa de uma das famílias que a acolheram. A residência tinha outra criança morando no local.
'Ela começou a ficar agressiva com a outra criança por ciúmes', disse.
Diante das dúvidas sobre a identidade da mulher, a polícia e o Ministério Público solicitaram a prisão preventiva. Naquele período, Amanda já estava internada em um hospital. A prisão ocorreu após a alta médica.
A operação exigiu cuidados especiais por causa do estado de saúde da investigada.
'Tínhamos que cuidar com a queda dela porque ela tinha muito ferro no corpo. A prisão dela foi a coisa mais louca do mundo', lembrou a delegada.
Amanda ficou seis meses presa pelo crime de estelionato até ter a prisão relaxada pela Justiça.
'Ela queria ter uma família'
Depois de admitir sua verdadeira identidade, Amanda também falou sobre os motivos que a levavam a assumir personagens e buscar acolhimento de desconhecidos, segundo a delegada.
'Ela me confessou e argumentou que o motivo é que queria ter uma família. No depoimento dela, nunca disse que era para fazer o mal', disse Luana.
Amanda foi indiciada pela Polícia Civil. O processo posteriormente passou a tramitar na Justiça gaúcha, mas estava suspenso, já que ela não havia sido localizada. Recentemente, ela voltou a ser presa em Santa Catarina, onde é investigada por novamente se apresentar como adolescente para obter acolhimento.
A defesa de Amanda Maria desconhece os detalhes do processo movido contra ela no Rio Grande do Sul e disse que vai se manifestar nos autos do caso que corre em Santa Catarina.

Delegada Luana Tamiozzo Medeiros



