Após a pandemia, países como Alemanha, Japão e Portugal criaram vistos especiais para atrair jovens com boa formação. Mas as regras são duras e poucas pessoas conseguem participar, porque é preciso ter dinheiro na conta e atender a muitos requisitos.
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Países que precisam de trabalhadores jovens criaram novos tipos de vistos para atraí-los. A maioria desses programas nasceu após 2020, quando a pandemia acelerou a adoção do trabalho remoto.
Alemanha, Japão e Portugal, por exemplo, criaram ou reformularam vistos nos últimos dois anos. Os resultados mostram respostas diferentes a um mesmo problema.
- Alemanha: O visto 'Cartão de Oportunidades' exige comprovar R$ 69 mil na conta, o equivalente a três anos de salário mínimo no Brasil.
- Japão: Lançou um visto para nômades digitais, mas apenas 137 estrangeiros conseguiram usar o programa até junho de 2025.
- Portugal: O visto D8 para trabalhadores remotos exige renda mensal de R$ 21 mil, mas o país tem grave crise de moradia.
- Inglaterra: Criou o visto 'High Potential Individual' para quem se formou em universidades de elite nos últimos cinco anos.
- Estônia: Foi pioneira ao lançar, em 2020, o primeiro visto para nômades digitais do mundo.
Em junho de 2024, a Alemanha lançou a 'Chancenkarte' -'cartão de oportunidades'. O visto permite entrar no país por até um ano para buscar emprego sem ter contrato prévio. Para isso, é preciso ter diploma técnico ou superior e acumular ao menos seis pontos em um sistema que considera formação, experiência, idioma e idade. É preciso também comprovar cerca de 12 mil em conta (R$ 69 mil), o que representa mais de três anos de salário mínimo no Brasil.
Durante o período de busca, é possível trabalhar até 20 horas por semana em qualquer área. Quem encontra emprego pode regularizar a situação sem precisar voltar ao Brasil.
O programa foi criado num contexto de escassez. Segundo o Ministério do Trabalho alemão, o número de trabalhadores disponíveis no país deve diminuir em 40 mil só em 2026 por fatores demográficos. Atualmente, 21% da população da Alemanha tem 67 anos ou mais, segundo o Destatis, o instituto oficial de estatísticas do país.
Segundo o Ministério do Interior da Alemanha, foram emitidos pouco mais de 11 mil vistos até junho de 2025 desde o lançamento do 'Chancekarte'. O governo previa emitir 30 mil vistos por ano.
Luana Medeiros, 36, é consultora de imigração brasileira e mora na Alemanha há seis anos. Para ela, a principal barreira é financeira. 'Não é qualquer um que tem esse valor no Brasil', diz. 'O 'Chancenkarte' é para pessoas qualificadas. Esse é o X da questão', afirma.
Natural de Itajubá (MG), a médica Chan Lym, 39, chegou com o visto e foi trabalhar como cuidadora de idosos enquanto aguardava a validação do seu diploma no país. Quando o visto venceu, Lym pediu renovação. O documento que recebeu enquanto aguarda a troca também não autoriza trabalho.
'Sou de uma profissão que tem alta demanda aqui. Já estava trabalhando, pagando impostos, tudo dentro da lei, mas ao solicitar a prorrogação, não me permitem trabalhar', diz Chan.
A Folha entrou em contato com o Consulado-Geral da Alemanha em São Paulo e com o Ministério das Relações Exteriores alemão para saber o número de emissões do 'Chacenkarte' para brasileiros no último ano, mas não obteve retorno.
O Japão também enfrenta um problema de envelhecimento demográfico. Quase 30% da população tem mais de 65 anos, segundo o Banco Mundial. Em 2024, nasceram 721 mil crianças no país, o menor número registrado em 75 anos, segundo o Ministério da Saúde japonês.
Em março de 2024, o governo japonês criou um visto para trabalhadores remotos. Para obtê-lo, é preciso comprovar renda anual mínima de 1 milhão de ienes (R$ 31 mil). A estadia permitida é de até seis meses.
Em junho de 2025, apenas 137 estrangeiros viviam no Japão com esse visto. Nenhum era brasileiro, segundo o Serviço de Imigração Japonês. Até o fim de 2024, 196 pessoas ao todo haviam entrado pelo programa desde o lançamento.O governo japonês diz que o critério de renda foi definido para garantir uma 'base econômica estável' durante a permanência. O documento ficou conhecido como 'visto para nômades ricos'. Questionado sobre eventual revisão dos critérios e ampliação do prazo de permanência, o Serviço de Imigração respondeu que 'vai acompanhar a operação do programa'.
Portugal vive um problema parecido. Em 2024, 24,3% da população do país tinha 65 anos ou mais -em 1970, essa proporção era de 9,7%, segundo o Instituto Nacional de Estatística português. Sem imigração, projeções do mesmo instituto estimam que o país poderia encolher dos atuais 10,7 milhões para 6 milhões de habitantes até 2100.
Foi nesse contexto que o país criou em 2022 o visto D8 para trabalhadores remotos. Para obtê-lo, é preciso comprovar renda mensal mínima de 3.680 (R$ 21 mil), além de ter contrato de trabalho com empresa estrangeira ou ser freelancer com clientes fora de Portugal.
Nos dois primeiros anos do programa, o país emitiu 552 vistos para brasileiros. Em 2025, esse número saltou para 2.697 -quase cinco vezes mais. Até maio de 2026, já foram 1.232 novos pedidos, segundo o Ministério das Relações Exteriores de Portugal.
O crescimento veio acompanhado de um problema. No quarto trimestre de 2025, o país registrou a segunda maior alta de preços de imóveis da União Europeia em comparação ao mesmo período do ano anterior -18,9%, segundo dados do Eurostat divulgados em abril.
Bairros residenciais viraram áreas de turismo. Uma delegação do Parlamento Europeu que visitou Lisboa em março concluiu que o país enfrenta 'uma crise severa' de habitação.
Em resposta, o governo português cancelou os benefícios fiscais para estrangeiros em 2024 e reformulou o processo de pedido de visto. Em abril de 2026, centralizou o processamento na embaixada em Brasília e abriu cinco novos centros de atendimento no Brasil -em Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza, Recife e Belém. O tempo médio de espera, que chegou a 40 dias no início de 2025, caiu de forma significativa desde então, segundo o governo português.
Alemanha, Japão e Portugal não são casos isolados. A Estônia foi pioneira ao criar, em 2020, o primeiro visto para nômades digitais do mundo.
O Reino Unido lançou em 2022 o High Potential Individual, voltado a quem se formou, nos últimos cinco anos, em universidades específicas consideradas 'top globais' pelo governo britânico.

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