Médicos no Congo estão enfrentando uma situação muito difícil por causa de um surto de ebola que está se espalhando rápido. Eles trabalham o dia todo, sem receber o pagamento certo, e não têm equipamentos suficientes para se proteger. A doença surgiu em uma área de mineração de ouro, onde muitas pessoas vivem em lugares apertados e sem cuidados de saúde adequados. Isso fez o vírus se espalhar mais rápido. Além disso, as pessoas na região não confiam muito nos hospitais, o que torna o trabalho dos médicos ainda mais complicado. O surto já deixou centenas de pessoas doentes e muitas mortes, e os profissionais de saúde estão pedindo mais ajuda do governo e de organizações internacionais.
O Dr. Richard Lokudu, que é o diretor médico do Hospital Geral de Referência de Mongbwalu, não está recebendo o pagamento que merece pelo trabalho que faz na linha de frente de um dos surtos de ebola mais perigosos que já aconteceram no Congo.
Lokudu e seus colegas passam o dia inteiro no hospital cuidando de um monte de pacientes que chegam sem parar. A qualquer hora, até de noite, eles recebem avisos de novos casos suspeitos.
- O ebola é uma doença muito grave que se espalha pelo contato com fluidos do corpo, como suor e sangue.
- O surto atual é de uma variante rara chamada Bundibugyo, que não tem vacina ou remédio específico.
- Mongbwalu, onde o surto começou, é uma cidade de mineração de ouro com condições de vida muito precárias.
- Muitos moradores não acreditam na gravidade da doença e evitam ir ao hospital.
- O governo e a Organização Mundial da Saúde estão tentando ajudar, mas faltam recursos e a doença se espalha rápido.
"Não recebi a minha ajuda de custo e o que aconteceu com outras pessoas também pode acontecer comigo", disse Lokudu. "Apesar de todas as medidas de prevenção que estamos tomando, não sabemos o que pode acontecer."
Como o surto começou e por que ele é tão perigoso
As autoridades de saúde acham que o surto, que pegou a região leste do Congo de surpresa, começou na área de mineração de Mongbwalu, na província de Ituri. O vírus se espalhou sem ser detectado por semanas.
Mongbwalu se tornou o centro da variante rara do ebola chamada Bundibugyo. A cidade atrai muitos trabalhadores para as minas de ouro, que são lugares cheios de poças de lama, túneis estreitos e cavernas. Esses trabalhadores moram em áreas pobres, em acampamentos lotados, e não têm acesso a cuidados de saúde adequados.
Essas condições fazem com que a doença se espalhe mais facilmente. O ebola passa de uma pessoa para outra pelo contato próximo com fluidos do corpo de quem está doente ou morreu, como suor, sangue, fezes e vômito.
Além disso, muitas pessoas na região não acreditam que a doença seja tão grave, o que dificulta ainda mais o trabalho de Lokudu e sua equipe. Alguns profissionais de saúde e equipes de resposta já morreram por causa da infecção.
"Uma coisa é estar longe e ouvir os números; outra é ver o que está acontecendo aqui, que é enorme", afirmou Lokudu. "As pessoas estão sacrificando seu descanso e conforto por essa causa. Elas merecem ser pagas. Esses trabalhadores deveriam receber seus salários regularmente."
O governo do Congo não respondeu aos pedidos de informação.
Falta de recursos e dificuldades no combate ao ebola
As autoridades do Congo divulgaram novos números no domingo, informando que havia 488 casos confirmados e 86 mortes até sexta-feira (5). Na quinta-feira, o país registrou 71 novos casos em apenas um dia, o que as autoridades chamaram de "transmissão comunitária ativa".
Na vizinha Uganda, foram confirmados 19 casos e duas mortes. A variante Bundibugyo não tem vacinas nem tratamentos aprovados, por isso os médicos estão focados em tratar os sintomas. O governo disse que pelo menos cinco pessoas se recuperaram desde que o surto foi confirmado em 15 de maio.
Segundo o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, a doença "teve uma grande vantagem inicial". Os hospitais da região não conseguiam identificar corretamente o tipo de ebola que já estava circulando há semanas antes da confirmação oficial.
Os profissionais de saúde estão lidando com a doença com pouquíssimos recursos, enquanto organizações humanitárias correm para levar ajuda à região. Máscaras, luvas, botas e medicamentos faltaram nos primeiros momentos do surto.
"Houve uma piora do sistema de saúde", afirmou Heather Kerr. "Não houve investimento suficiente no sistema de saúde, e isso vem acontecendo há anos."
A dura realidade dos médicos e enfermeiros na linha de frente
"Durante a primeira semana, nem tivemos tempo de voltar para casa para comer. Na segunda semana foi a mesma coisa. Comemos apenas uma vez por dia, o equivalente ao café da manhã, mas à noite", contou Alice Bamuhinga, enfermeira do hospital de Mongbwalu.
Mesmo com a desconfiança das pessoas e o descumprimento das regras de saúde, muitos moradores da cidade estão começando a entender a gravidade da situação.
Asero Jeanne, de 52 anos, tinha cinco filhos. Dois deles morreram da doença em um intervalo de apenas duas semanas. Quando sua filha adoeceu, a família achou que fosse malária, e vizinhos disseram para não irem ao hospital, falando que "qualquer pessoa que fosse para lá morreria imediatamente", contou Jeanne.
A filha morreu depois de três semanas indo e voltando entre hospitais e a própria casa. Dias depois, um filho também morreu. Em seguida, Jeanne ficou doente.
"Vi cerca de 20 pessoas morrerem", disse ela. "Vi todas sendo levadas ao necrotério, mas Deus está permitindo que eu saia daqui viva. Sou grata aos médicos."
Plano da ONU para conter o surto
Na sexta-feira, Tedros lançou um plano de US$ 518 milhões (cerca de R$ 2,6 bilhões) para combater o surto, afirmando que "conter o ebola depende de compromisso político, financiamento sustentável e da confiança e participação das comunidades".
Os esforços para conter a doença também foram prejudicados pelo conflito entre o governo congolês e o grupo rebelde M23, apoiado por Ruanda, além de ataques de militantes islâmicos.
Para os profissionais que atuam na linha de frente do surto, o trabalho ficou ainda mais difícil à medida que a doença se espalha mais rápido do que a capacidade atual de atendimento.
"Apesar dos alertas que recebemos e das equipes que temos disponíveis, não temos meios para nos deslocar até o campo", afirmou Lokudu. "Como resultado, há alertas que não conseguimos investigar."

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