Especialistas alertam que a agitação no idoso deve ser tratada como urgência médica, pois pode indicar condições graves como delirium. O tema será debatido no 10º Congresso Brasileiro de Medicina de Emergência.
Agitação no idoso deve ser tratada como emergência médica, não comportamental
A agitação psicomotora no idoso, conhecida como delirium, é uma das queixas mais frequentes e menos diagnosticadas nos serviços de urgência. O tema será debatido no 10º Congresso Brasileiro de Medicina de Emergência, durante a aula Agitação no idoso: evidências e melhores práticas, ministrada pelo Dr. Leonardo Goltara, geriatra e médico emergencista da ABRAMEDE, a Associação Brasileira de Medicina de Emergência.
- O delirium afeta cerca de 1,5 milhão de idosos por ano nos EUA.
- Médicos deixam de identificar o quadro em até 83% dos casos.
- Intervenções não farmacológicas reduzem a incidência em até 54%.
- Antipsicóticos devem ser o último recurso no tratamento.
- O evento ocorre de 25 a 28 de novembro de 2026, no Rio de Janeiro.
Reconhecimento correto evita diagnósticos errados
A apresentação vai discutir um problema que desafia diariamente os serviços de emergência: quando a agitação é tratada apenas como comportamento, uma condição clínica grave pode passar despercebida. O especialista apresentará evidências sobre reconhecimento, investigação e manejo desses quadros, além de abordar estratégias para reduzir o uso inadequado de antipsicóticos em idosos.
Segundo o médico, a agitação não é um diagnóstico, mas um sintoma. Por trás dela pode estar um delirium (síndrome neuropsiquiátrica aguda) hiperativo, uma causa clínica grave ainda não identificada ou uma demência em fase de descompensação, explica.
Estatísticas mostram falhas na identificação
De acordo com um estudo publicado pela Academia de Medicina de Emergência, o delirium ocorre em cerca de 8% a 10% dos pacientes idosos atendidos em pronto-socorro, afetando aproximadamente 1,5 milhão de idosos por ano apenas nos Estados Unidos. O mesmo estudo mostra que médicos emergencistas deixam de identificar o quadro em 57% a 83% dos casos, o que reforça a importância da triagem sistemática, um dos pontos centrais da aula no congresso.
Além de apresentar estudos que embasam o raciocínio diagnóstico e ferramentas de triagem validadas para o contexto nacional, o médico emergencista defende que os antipsicóticos sejam reservados como último recurso no atendimento a esses pacientes, após esgotadas as medidas ambientais e comportamentais.
Riscos do uso de medicamentos
Uma revisão de revisões sistemáticas mostra que intervenções não farmacológicas multicomponentes reduzem a incidência de delirium em cerca de 27% a 54% em pacientes idosos. Reforçando esse achado, sabe-se que pacientes idosos que receberam intervenção não farmacológica estruturada tiveram início de antipsicóticos com menor frequência do que aqueles submetidos ao cuidado padrão, explica.
Um dos pontos mais sensíveis da prática clínica também será levado aos congressistas. O FDA (Food and Drug Administration), agência reguladora dos Estados Unidos, emitiu um alerta de tarja preta (black box warning) para o uso de antipsicóticos atípicos em idosos com demência. Estudos controlados por placebo mostraram que pacientes tratados com esses medicamentos apresentaram taxa de mortalidade entre 1,6 e 1,7 vez maior do que aqueles que receberam placebo.
Abordagem correta salva vidas
A mensagem central da aula é direta: agitação no idoso deve ser tratada como emergência médica, não comportamental. O manejo correto nos primeiros minutos, com triagem validada, medidas não farmacológicas priorizadas e uso criterioso de psicofármacos, pode reduzir complicações evitáveis e melhorar a segurança assistencial, conclui o médico emergencista da ABRAMEDE.

Delirium (IA)


