Entenda como o Enem 2026 avalia a argumentação, o uso de repertório e a estrutura do texto. Veja dicas práticas para organizar ideias, evitar erros de lógica e construir uma proposta de intervenção viável.
Ao abdicar do uso da força para empregar a persuasão, o homem se torna efetivamente humano. Essa formulação, que atravessa a tradição retórica, desloca a argumentação do terreno da esperteza para o da civilidade: convencer é o gesto de quem renunciou a impor. Nesse sentido, todo discurso carrega uma dimensão argumentativa, e argumentar deixa de ser um gênero escolar isolado para se tornar a estrutura invisível de tudo o que se escreve. Na redação do Enem, essa premissa se converte em pontuação e é aí que a conta começa a fechar ou a não fechar.
A edição de 2026 da cartilha do Enem, publicada pelo Inep, mantém o desenho conhecido de um texto dissertativo-argumentativo, com cinco competências, valendo 200 pontos cada. Não houve alteração nos critérios, o que existe é uma reorganização na forma de descrevê-los, que ainda parecendo acessória, carrega um recado claro: é preciso ter autoria, informatividade, repertório sociocultural contextualizado, vocabulário adequado, conectividade, defesa de um ponto de vista e proposta de intervenção detalhada e viável.
Resumo da notícia
- O Enem 2026 mantém as mesmas cinco competências de avaliação da redação.
- Usar repertório sem relacioná-lo ao tema pode resultar em zero nessa competência.
- É fundamental distinguir causa, consequência e efeito no desenvolvimento da argumentação.
- O uso correto de conectivos é vital para demonstrar coesão e clareza.
- A prática regular de escrita é a melhor ferramenta para dominar a estrutura do texto.
Um candidato que abre o texto com uma citação e nunca mais a retoma não demonstra repertório, demonstra adorno e, na lógica da correção, ocupa linhas sem produzir argumento. É nesse ponto que a Competência 2, que cobra compreensão do tema e uso de repertório, se encontra com a Competência 3, que cobra seleção, relação e organização de argumentos em defesa de um ponto de vista. Uma alimenta a outra, e é nesse cruzamento que a nota aparece.
O papel do repertório
Existe um exercício simples para saber se a referência está trabalhando ou apenas posando. Basta ler o parágrafo sem o repertório e se ele fizer sentido, significa que o repertório era dispensável. Repertório produtivo deixa o texto incompleto ao ser retirado. Quando é produtivo, sua retirada compromete a estrutura do argumento. O que faz o repertório ser significativo é a articulação com causa e consequência, pois não basta afirmar que o problema existe; é preciso mostrar por que ele existe e o que ele gera. Esse movimento tem quatro momentos: a referência que legitima o olhar, o mecanismo que explica a origem do problema, o efeito concreto que esse mecanismo produz na vida das pessoas e a frase que amarra tudo ao ponto de vista defendido.
Não existe substituição da prática, mas existe prática que rende mais do que simples repetição. Um exercício eficiente é dissecar parágrafos que alcançaram nota máxima, marcando onde estão tese, repertório, causa, consequência e fecho. O objetivo não é copiar o parágrafo, mas enxergar a engrenagem dele. Vale ainda a corrente de consequências, em que o estudante encadeia cinco elos começando por "se". Se a escola não acolhe, o aluno silencia; se o aluno silencia, o caso não é registrado; e assim por diante. É um caminho mais curto para sair da obviedade e chegar a uma consequência específica. E há a reescrita de articuladores, que consiste em refazer um mesmo parágrafo três vezes, trocando os conectivos e preservando a lógica, para aprender a função de cada um em vez de decorar uma lista.
Importância da prática e da linguagem
Nada disso, contudo, substitui o que sustenta todo o resto, só aprende a escrever quem escreve. Uma redação completa por semana, sobre um tema desconhecido, com tempo cronometrado, é a rotina mínima. Argumentação forte também é questão de linguagem. Os elementos articuladores e o vocabulário preciso não são temperos, são a sinalização do raciocínio. O erro mais comum não é desconhecer conectivos difíceis, é usar "portanto" no lugar de "porque" e inverter a lógica sem perceber. No caso do vocabulário, trocar uma ideia vaga por um conceito exato melhora tudo.
Em um texto, abdicar da força em favor da persuasão é um ato de reconhecimento do outro, e argumentar bem é reconhecer que o leitor merece razão, não imposição. Treinar argumentação, portanto, é menos sobre acumular citações e mais sobre construir autoria, olhar para um problema, explicar de onde ele vem, mostrar aonde ele leva e sustentar uma posição com a qual alguém possa discordar. É isso que a banca chama de projeto de texto. E é isso que se treina, semana após semana, escrevendo.

Cristiane Imperador, Coordenadora Pedagógica do Ensino Médio do Colégio Espírito Santo




