Livro da pesquisadora Julia do Passo Ramalho questiona se Febrônio Índio do Brasil simulou a própria loucura para escapar da punição pelos crimes cometidos na década de 1920.
O livro Um predador chamado Febrônio - O primeiro serial killer midiático do Brasil, da autora Julia do Passo Ramalho, questiona se Febrônio Índio do Brasil simulou a própria loucura para escapar da punição pelos crimes cometidos na década de 1920.
Febrônio e o início dos crimes
Na década de 1920, Febrônio ganhou notoriedade após uma sequência de crimes contra jovens do sexo masculino. As vítimas eram atraídas com falsas promessas de emprego e levadas a locais isolados, onde sofriam violência física e sexual. E marcadas com tatuagens ligadas ao universo místico criado por Febrônio.
A transformação do criminoso no autoproclamado Filho da Luz é um dos pontos reconstituídos no livro. Ao entrar no sistema prisional, Febrônio passou a relatar experiências místicas e dizia ter recebido uma missão divina. No próprio peito, tatuou a inscrição EIS O FILHO DA LUZ DCVXVI, sequência que depois apareceria associada aos rituais impostos a algumas de suas vítimas. Religião, supostos delírios e violência passaram então a se misturar na narrativa que chegava aos jornais.
Ao analisar as avaliações psiquiátricas e o comportamento documentado antes e depois dos crimes, Julia aponta contradições na imagem de um homem desconectado da realidade. Febrônio conseguia assumir identidades falsas, estruturar golpes elaborados, conquistar a confiança de desconhecidos, circular por diferentes estados e criar estratégias para evitar a polícia. Para a autora, esse funcionamento lógico e organizado merece ser confrontado com o quadro psiquiátrico que justificou sua inimputabilidade.
O livro e a reconstrução do caso
- Lançado pela Matrix Editora, o livro questiona a insanidade de Febrônio
- A autora analisa processos, prontuários e jornais da época
- Febrônio permaneceu 57 anos em um manicômio judiciário
- Ele morreu em 27 de agosto de 1984, aos 89 anos
- O livro destaca como a imprensa transformou o criminoso em mito
Para reconstruir essa discussão, a autora foi aos documentos originais. Além de consultar os autos dos processos, o prontuário de Febrônio e arquivos de jornais pesquisou documentos preservados pelo Museu Penitenciário do Estado do Rio de Janeiro e entrevistou figuras como Talvane de Moraes, especialista em psiquiatria forense e medicina legal, ex-diretor do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Heitor Carrilho e último psiquiatra responsável por acompanhar Febrônio. As conversas com o médico ajudaram a preencher lacunas deixadas pelos registros institucionais.
A construção da lenda por meio da imprensa
A pesquisa também contesta uma das informações mais repetidas ao longo das décadas sobre o criminoso. Embora Febrônio tenha ficado conhecido como o Paciente 001 do primeiro manicômio judiciário do Brasil, documentos analisados pela autora mostram que a instituição havia sido inaugurada anos antes de sua chegada e já havia recebido outros internos. Para Julia, Febrônio pode ter se tornado o paciente mais famoso do local, mas tratá-lo literalmente como seu primeiro interno faz parte da mitologia em torno de sua história.
Essa construção também passou diretamente pela imprensa. Febrônio começou a aparecer nos jornais do Rio de Janeiro ainda na década de 1910 e, com o aumento da gravidade dos crimes atribuídos a ele, ganhou cada vez mais espaço nas páginas policiais. Foi chamado de Filho da Luz, grande celerado, monstro, terrível estrangulador e homem mistério. Em uma época anterior à televisão e em que o rádio ainda tinha alcance restrito, a cobertura intensa ajudou a transformar o caso em um fenômeno acompanhado pela população, daí a definição de primeiro serial killer midiático do Brasil.
Internado no fim de 1927 e posteriormente submetido à medida de segurança, Febrônio permaneceu sob custódia durante 57 anos. Morreu em 27 de agosto de 1984, aos 89 anos, no Hospital Central Penitenciário, após passar mais de meio século institucionalizado. Até o fim da vida, negou os homicídios e os crimes sexuais atribuídos a ele.
Os detalhes do livro e da autora
Ao reunir documentos históricos, processos, prontuários, pesquisas acadêmicas e registros jornalísticos, o lançamento Um predador chamado Febrônio vai além da reconstrução de um caso de true crime. O livro revisita como crime, imprensa, direito e psiquiatria se encontraram na construção de um dos personagens mais perturbadores do século XX brasileiro e recupera também a história das vítimas, frequentemente colocadas em segundo plano diante da notoriedade alcançada pelo criminoso.
Publicação e disponibilidade
Ficha técnica:
- Título: Um predador chamado Febrônio O primeiro serial killer midiático do Brasil
- Editora: Matrix Editora
- ISBN: 978-65-5616-709-1
- Páginas: 216
- Preço: R$ 79,00
- Onde encontrar: Matrix Editora, Amazon, Mercado Livre e livrarias de todo o país
A autora desenvolve estudos voltados à psicologia da violência e da mente criminal, com foco em Criminologia e Psicologia Forense. Conheceu o caso de Febrônio há mais de duas décadas e, ao aprofundar a pesquisa, passou a questionar a interpretação de que o criminoso apresentava um quadro psicótico capaz de justificar sua permanência em um manicômio judiciário.

(Ajustada por IA)


