André Nicolau, psicanalista e roteirista de eventos há 20 anos, analisa por que as empresas repetem os mesmos rituais de eventos corporativos, comparando-os a dinâmicas de guerra e sedução baseadas na psicanálise de Freud e Lacan.
Guerra e Amor no palco corporativo
A Lei como Estrutura, o Desejo como Motor: Tensões Éticas e Estéticas no Universo dos Eventos Corporativos
A psicanálise ajuda a entender por que as empresas repetem, há décadas, os mesmos rituais em seus eventos.
As luzes se apagam, a música sobe, uma voz potente anuncia que aquele é um dia especial. Centenas de colaboradores gritam em coro, aplaudem números, se emocionam e voltam para casa com a sensação de pertencer a algo maior. Toda grande empresa conhece esse ritual. Mas por que, década após década, ela segue fazendo investimentos vultosos para reunir pessoas numa sala fechada e repetir os mesmos ritos
- O autor compara eventos corporativos a partidas de futebol e encontros amorosos.
- Freud e Lacan são usados para explicar a agressividade e o desejo no ambiente corporativo.
- O texto destaca o uso de linguagem de guerra (war room, estratégia) na produção.
- Os rituais servem para contener impulsos destrutivos e criar coesão grupal.
- O encerramento do evento busca proporcionar um 'gozo' final e satisfação ao cliente.
O que o futebol ensina
Trabalho há vinte anos na criação de eventos corporativos e, como psicanalista, proponho uma leitura inspirada no ensaio 'Futebol, a guerra na vida cotidiana', de Marco Antonio Coutinho Jorge, no livro Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan. Para ele, 'cada partida é uma fantasia na qual está em jogo a dramatização da guerra e do sexo'. Arrisco dizer que o mesmo vale para o palco das empresas.
Os exemplos de Coutinho Jorge estão à vista de qualquer torcedor. Um campo de batalha, dois times rivais, chutes que viram tiros (tiro de meta, tiro livre, tiro cruzado), vencedores tratados como heróis e perdedores como aniquilados. Há ataque, defesa, contra-ataque, barreira, tática. Nas arquibancadas, gritos de guerra, xingamentos, brigas. O autor lembra até a 'morte súbita', que chegou a ser rebatizada de 'gol de ouro', talvez porque o nome aproximava demais campos que a consciência prefere manter afastados.
Freud ajuda a entender por quê. Ele reconheceu duas grandes forças na vida psíquica: Eros, as pulsões de vida, das quais a sexualidade é o núcleo, e a pulsão de morte, que voltada para fora aparece como agressividade. Em estado bruto, nenhuma das duas permite a convivência. A cultura existe porque renunciamos a parte delas, e essa força renunciada busca outros caminhos. O esporte é um deles. O evento corporativo, também.
E como Lacan ensina que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, vale escutar as palavras que esse universo escolhe para falar de si. Comecemos pela via mais prazerosa e menos destrutiva.
O desejo
Na chegada, aperitivos, música ambiente, decoração com os símbolos da marca. A recepção é calorosa, feita por profissionais escolhidos pela beleza e contratados para sorrir. Painéis, brindes e discursos repetem que aquele é um momento exclusivo, único. E 'encontro', aliás, é palavra frequente no título de muitos eventos.
Os convidados se sentam, as luzes baixam até a escuridão total e começa o chamado 'momento de abertura': dança, vídeo ou música, quase sempre com conteúdo erotizado, feito de sorrisos, tecidos, cores vibrantes e mensagens provocativas. Nos briefings que as empresas enviam às agências, os pedidos se repetem: 'deve ser impactante, emocionante, a música tem que fazer os pelos arrepiarem, a locução tem que ser de uma voz potente, as luzes precisam ser fortes, precisamos conectar'.
Em seguida, o mestre de cerimônias dá as boas-vindas. Reproduzo o início de um roteiro real que escrevi para uma empresa de tecnologia:
'Para começar, gostaria de agradecer, em nome da EMPRESA, a todos os participantes pela presença neste dia tão especial. Hoje queremos nos conectar com vocês, proporcionar momentos de alegria e deixar esse encontro marcado na nossa história.'
Como num jantar que prepara o encontro amoroso, quem convida trata primeiro de dizer o quanto aquela relação importa. O briefing, aliás, pedia exatamente isso: 'precisamos que o MC dê o clima do nosso evento, que acolha e valorize os nossos colaboradores'.
A guerra
Até que os conteúdos cheguem ao palco, porém, o vocabulário muda. Nos bastidores, disputa-se o market share como quem conquista territórios: o segundo lugar 'precisa' ser o primeiro, o terceiro quer ser o segundo, o primeiro precisa defender a posição, sem contar os exércitos que surgem de repente e, com uma estratégia disruptiva, redesenham o mapa de um mercado inteiro. Dentro dela, áreas diferentes brigam pelo que vai e pelo que não vai à plateia.
Fora do palco o combate continua. Há clientes em burnout, literalmente queimados até o fim. Há conflitos entre agência e cliente, entre setores, entre colegas. Disputa-se a melhor ideia, disputa-se o prazo. A agência avisa seus criativos que 'o cliente está nos provocando'. Quando há pouco tempo para montar estruturas e equipamentos, fala-se em 'estratégia de guerra', porque o tempo é 'o inimigo'.
'Atacamos às 9h' é a senha para o início da agenda. Há equipamentos reserva, plano de contingência para atrasos no palco e um manual do evento assinado pelo head de produção. Os técnicos ficam em atenção plena e almoçam em escala. Os produtores estão tensos, o dono da agência torce, o cliente sem dormir e até, pasmem, WAR ROOM, a sala de guerra, para resolver conflitos de forma implacável. Quando as portas se abrem, todos estão em alerta máximo.
O gran finale
Depois das batalhas e das apresentações, chega o 'gran finale', anunciado assim mesmo! , e o nome não deixa dúvidas: é a hora do gozo, no sentido mais corriqueiro da palavra. O último ato deve ser memorável e deixar um 'gostinho de quero mais'. Encerra-se com música, drinks e risos. O sucesso cabe numa frase, dita pelo contratante à agência e capaz de selar a parceria: 'o cliente está satisfeito'. Só então todos relaxam e dormem a noite de quem volta de uma batalha intensa.
Uma partida jogada e um evento realizado significam que um grupo de pessoas deixou de fazer a guerra de fato, de aniquilar alguém ou de cometer um ato sexual inadequado, e encenou tudo isso dentro de regras. É o que Coutinho Jorge chama de respeito à lei simbólica, aquela que permite aos homens conviver sem se destruir continuamente. Por trás das luzes do palco, o que se celebra, sem que ninguém precise saber, é a própria possibilidade de vivermos juntos.
André Nicolau de Carvalho é psicanalista e há vinte anos atua na criação e direção de eventos corporativos. Escritor do livro 'Dirigindo Eventos' e Co-autor do livro 'Tenha Cicatrizes'. Atende como psicanalista de presencialmente e de forma online.

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