Descubra como o teatro no Brasil teve uma vibrante cena negra e popular durante três séculos, ignorada pelos manuais históricos.
Todos os livros de teatro no Brasil repetem duas ideias: que o teatro nasceu na Grécia e que o teatro brasileiro começou com os jesuítas. Mas será que isso é verdade
No início da era dos memes, o escritor Suassuna viralizou com suas aulas. Ele dizia: "O que nasceu na Grécia foi o teatro grego. O teatro brasileiro não nasceu com os jesuítas."
- O teatro brasileiro teve uma cena negra e popular por 300 anos.
- A Casa da Ópera de Manoel Luiz existiu no Rio de Janeiro.
- Manoel Luiz foi ridicularizado, mas manteve o teatro por 50 anos.
- Artistas negros como Maria Joaquina brilharam no século XVIII.
- A história oficial ignorou essa produção.
Eu tive a sorte de assistir a uma apresentação ao vivo. O público ria muito, como uma liberação de tensão. Suassuna mostrou que o teatro brasileiro não começou com Téspis (grego) nem com Anchieta (jesuíta), mas com outras culturas e povos que existiam antes.
O salto de 300 anos
O início do teatro no Brasil sempre foi tratado como verdade absoluta. Outros momentos importantes foram ignorados. Nossa história é rica e cheia de reviravoltas, mas sempre contada da mesma forma, com os mesmos personagens. Falta imaginação para reconhecer outras contribuições.
A versão oficial diz: Anchieta fundou o teatro em 1560 e depois pula para 1838, quando Martins Pena apresentou "Juiz de Paz na Roça". Mas o que aconteceu nesses 300 anos Ninguém fez teatro O que produziram na colônia Quem eram os artistas
A história foi baseada nos textos que sobraram. A Coroa portuguesa não apoiava autores na colônia, então é fácil pular anos. Mas existem registros importantes.
A Casa da Ópera de Manoel Luiz
Encontrei registros fascinantes, que me inspiraram a escrever um romance de ficção para preencher as lacunas da história.
O romance se chama "A Casa da Ópera de Manoel Luiz".
Manoel Luiz e sua casa existiram de verdade. Construída por volta de 1755, ao lado do Paço Imperial, no Rio de Janeiro, foi por mais de 50 anos o único espaço dedicado à arte na capital da colônia. Virou Teatro Régio em 1808 e foi fechada em 1813, substituída pelo Real Teatro de São João. Dom João VI queria um teatro mais "digno" para ele.
A casa era muito animada, com peças de Antônio José, música e pouca ópera. O Marquês de Lavradio, incomodado com críticas de viajantes europeus, proibiu turistas de entrar no teatro.
Manoel Luiz foi ridicularizado e chamado de puxa-saco. Mas ele manteve o único teatro da cidade funcionando por 50 anos, com companhia permanente, salários para atores, músicos e técnicos. Isso é um recorde incrível.
Artistas negros esquecidos
O elenco tinha muitos artistas negros. Maria Joaquina da Lapa Lapinha foi uma cantora negra famosa no Brasil e na Europa. João dos Reis, Capacho, Rosinha e Leandro Joaquim também tinham destaque. O padre José Maurício Nunes Garcia, compositor negro, apresentou suas obras lá.
Suassuna dizia que o teatro indígena foi o verdadeiro início. A arte colonial, mesmo com limitações, abriu caminho para o teatro moderno. O racismo europeu apagou um passado rico e experimental. Precisamos reconhecê-lo agora.
Celso Tádhei é roteirista, escritor e professor formado em Artes Cênicas pela UNIRIO. Trabalhou por 23 anos na TV Globo, foi roteirista-chefe do Zorra (indicado ao Emmy) e escreveu Sítio do Pica-Pau Amarelo. É autor das peças O Alienista e O Baterista. Fundador da Escola de Roteiro Levante 42. Seu romance A Casa da Ópera de Manoel Luiz foi finalista do Jabuti 2025.

Celso Tádhei






