Pesquisa revela que se sentir sozinho é o principal vilão da saúde mental no Brasil. Embora a preocupação com dinheiro seja mais comum, a falta de conexão social causa um declínio muito maior nos indicadores de bem-estar. O estudo destaca ainda o uso de IA para aliviar a solidão, o impacto do sono ruim e o papel positivo de encontrar amigos.
O Panorama da Saúde Mental 2026 acaba de ser lançado e traz achados cruciais sobre o estado emocional da população. O levantamento, realizado pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, destaca como a solidão impacta profundamente a vida dos brasileiros.
Abaixo, um resumo com os principais pontos. A assessoria também disponibiliza porta-vozes para entrevistas e comentários sobre os dados.
- 36,5% dos brasileiros se sentiram sozinhos recentemente, sendo o fator mais ligado à pior saúde mental.
- A preocupação financeira atinge 78,1% da população, mas a solidão causa um dano emocional maior.
- Encontrar amigos é o principal fator que melhora os indicadores de bem-estar.
- O estudo traz dados inéditos sobre o uso de Inteligência Artificial, apostas, assédio e saúde mental dos jovens.
- O índice geral de saúde mental melhorou em comparação a 2023, mas estável em relação a 2025.
A solidão surge como o achado mais forte da quinta edição do Panorama. Mais de um terço dos brasileiros (36,5%) relatou ter se sentido sozinho ao menos uma vez nas duas semanas antes da pesquisa. Entre aqueles que tiveram esse sentimento três ou mais vezes, o Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM) foi de 383 pontos. Esse valor está muito abaixo dos 782 pontos de quem não se sentiu sozinho, a maior diferença encontrada entre todos os hábitos avaliados.
Considerando todos os que relataram solidão, sem importar a frequência, o ICASM foi de 478,2 pontos. Isso é cerca de 304 pontos a menos do que os 782,3 pontos de quem não sentiu solidão. Os dados mostram que conexões sociais são centrais: encontrar amigos é o principal antídoto. Quem encontrou amigos teve ICASM de 736,9 pontos, contra apenas 539 de quem ficou isolado.
Quem mais sente solidão
A solidão é mais frequente em grupos específicos. 51,7% dos solteiros relataram esse sentimento, enquanto entre casados o número foi de 26,6%. Entre pessoas com diagnóstico de transtorno mental, 52,5% se sentiram sozinhos, contra 32,5% de quem não tem diagnóstico. O uso intenso de redes sociais (3 horas ou mais por dia) também está associado: 46,8% desses usuários relataram solidão, contra 26,1% dos usuários moderados.
Os laços familiares e a autoimagem completam o retrato. Entre quem nunca se encontrou com amigos, 54,6% relataram solidão, contra 19,4% de quem encontrou amigos com frequência. Entre quem brigou com familiares com frequência, a prevalência de solidão chegou a 84,2%, contra 24,4% de quem não teve conflitos familiares.
IA como apoio emocional
Pela primeira vez, o Panorama investigou a relação entre Inteligência Artificial (IA) e saúde mental. 86,4% dos brasileiros já usaram alguma ferramenta de IA, e 51,9% já utilizaram geradores de texto ou conversa, como ChatGPT e Gemini. Apesar do uso amplo, apenas 31,3% se consideram com conhecimento médio ou alto sobre o tema.
O levantamento mostra que 9,1% da população já utilizou terapia por chatbot. 15% recorreram à IA em momentos de crise e 8,8% a usaram especificamente para se sentir menos sozinhos. Entre os usos ligados à saúde mental, recorrer à tecnologia para combater a solidão foi o comportamento mais associado a indicadores de saúde mental mais baixos.
A relação entre solidão e IA é marcante: entre quem não relatou solidão, 1,8% usaram IA para buscar companhia. O percentual sobe para 8,5% entre quem se sentiu sozinho uma ou duas vezes e chega a 32,1% entre aqueles que se sentiram sozinhos três ou mais vezes. O uso de terapia por chatbot também sobe de 4,8% para 25,3% conforme aumenta a frequência de solidão.
Entre as razões para preferir a IA a um terapeuta humano aparecem menor custo, disponibilidade 24 horas e menor sensação de julgamento. Esses fatores estão associados a um ICASM mais baixo, sugerindo que barreiras ao cuidado tradicional explicam parte dessa procura.
Jovens estão na linha de frente dessa transformação. 81,3% das pessoas de 16 a 24 anos já usaram geradores de texto ou conversa, e 71,4% fazem uso frequente de ferramentas de IA. Ao mesmo tempo, apenas 25,6% demonstram preocupação com o avanço da IA, percentual que chega a 62,3% entre pessoas com 60 anos ou mais.
Preocupação financeira e sono
Embora a solidão seja o comportamento mais fortemente associado ao ICASM, a preocupação financeira permanece como a queixa mais frequente. Ao todo, 78,1% disseram ter se preocupado com dinheiro ao menos uma vez nas duas semanas anteriores.
O impacto acompanha a frequência: o ICASM foi de 825,3 pontos entre quem não se preocupou, 742,2 entre quem se preocupou uma ou duas vezes e 557,6 entre aqueles que se preocuparam três vezes ou mais.
A privação alimentar também aparece relacionada: 17,2% afirmaram ter deixado de se alimentar por falta de dinheiro ao menos uma vez. Nesse grupo, o ICASM foi de 502,5 pontos, contra 706,1 entre aqueles que não relataram essa situação.
Os dados revelam alta prevalência de problemas de sono. 70,6% dos entrevistados disseram ter dormido menos de seis horas em pelo menos uma ocasião nas duas semanas anteriores, enquanto 60,7% relataram sonolência durante o dia. Nos dois casos, maior frequência esteve associada a menores pontuações no ICASM.
Os resultados do PHQ-9 (questionário de depressão) reforçam o cenário. 68,8% relataram cansaço ou pouca energia, 58,3% alterações de sono, 57,9% pouco interesse ou prazer em realizar atividades, 53,6% sentimentos depressivos ou falta de perspectiva e 50,1% dificuldades de concentração.
Entre os jovens, esses sintomas aparecem com mais força. 83,6% das pessoas de 16 a 24 anos relataram pouco interesse ou prazer em fazer as coisas, 70,5% disseram ter se sentido para baixo ou deprimidas e 68,4% relataram dificuldade de concentração.
Autoimagem, assédio e apostas
Quase metade dos entrevistados (49,2%) disse ter se sentido feia ou pouco atraente ao menos uma vez, enquanto 36,3% relataram ter se sentido pouco inteligentes. O ICASM foi de 549,2 pontos entre aqueles que se sentiram pouco atraentes, contra 789,4 entre os demais. Entre aqueles que se sentiram pouco inteligentes, o índice caiu para 503,1 pontos, ante 766,9.
Os jovens aparecem com maior frequência nesses indicadores: 62,4% das pessoas de 16 a 24 anos relataram ter se sentido pouco atraentes e 58,2% pouco inteligentes, proporções que caem para 33% e 11,5%, respectivamente, entre pessoas com 60 anos ou mais.
Assédio e preconceito, embora menos frequentes, aparecem relacionados a indicadores mais baixos. 13,2% relataram ter sofrido assédio verbal, moral ou sexual nas duas semanas anteriores. O ICASM foi de 457,9 pontos nesse grupo, ante 703,6 entre quem não relatou episódios. Entre os 10,2% que disseram ter sofrido algum tipo de preconceito, o índice foi de 486,2 pontos, contra 692,2 entre os demais.
As plataformas de apostas também aparecem. 9,2% disseram ter apostado nas duas semanas anteriores, e o ICASM desse grupo foi de 586,7 pontos, contra 679,7 entre aqueles que não apostaram. Entre apostadores frequentes, a preocupação financeira também aparece com mais força: 77,6% daqueles que apostaram três vezes ou mais relataram preocupação financeira frequente.
Conexão social como proteção
Se a solidão ocupa um extremo dos resultados, comportamentos de convivência aparecem no sentido contrário. 66,8% disseram ter encontrado amigos nas duas semanas anteriores, e esse grupo apresentou ICASM de 736,9 pontos, contra 539 entre quem não encontrou amigos.
Outras formas de conexão também aparecem associadas a índices mais altos: quem realizou trabalho voluntário apresentou ICASM de 731,3 pontos, contra 654,2 entre quem não realizou. Frequentar igreja ou templo esteve associado a uma diferença de 104,5 pontos no índice. A prática de atividade física também aparece associada a melhores resultados: ICASM de 728,6 entre aqueles que praticaram, ante 621,7 entre os que não praticaram.
Os resultados reforçam que a saúde mental não está ligada apenas a diagnóstico ou tratamento, mas também às condições de vida, às relações sociais, ao sentimento de pertencimento e às possibilidades concretas de apoio.
Evolução dos dados
O ICASM médio do brasileiro em 2026 foi de 671,1 pontos. O resultado é superior aos 635,3 pontos de 2023, mas não apresenta diferença estatisticamente significativa em relação a 2025 (667,3 pontos).
Entre as dimensões do indicador, Confiança teve 761 pontos, Vitalidade 689 e Foco 564, mantendo Foco como a dimensão mais frágil.
A idade também se mostrou relevante. Pessoas com 60 anos ou mais apresentaram ICASM de 806 pontos, significativamente superior ao das demais faixas. O índice foi de 638,1 entre 16 e 24 anos, 591,4 entre 25 e 34 anos, 599,1 entre 35 e 44 anos e 689,7 entre 45 e 59 anos.

Panorama da Saúde Mental 2026


