Especialistas alertam que desinformação e a sensação de que as doenças sumiram impedem que muitas mulheres mantenham suas vacinas em dia, afetando a proteção contra doenças graves.
Vacinar-se não é uma tarefa exclusiva da infância. Da adolescência à gestação, passando pela vida adulta e pelo envelhecimento, manter a imunização em dia é parte fundamental do cuidado com a saúde da mulher. Apesar dos avanços recentes, a desinformação, a falta de percepção sobre os riscos das doenças e as dificuldades de acesso ainda atrapalham a ampliação das coberturas vacinais no país.
Entre os principais desafios estão:
- Desinformação e circulação de notícias falsas sobre vacinas;
- Baixa percepção do risco das doenças preveníveis;
- Pouca recomendação por parte de alguns profissionais de saúde;
- Diferenças de acesso e disponibilidade de vacinas entre as regiões.
Segundo a Dra. Cecilia Maria Roteli Martins, ginecologista da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), o problema afeta diferentes faixas etárias. As coberturas vacinais ainda estão abaixo do ideal para vários imunizantes, especialmente entre adolescentes e gestantes.
A importância da orientação médica
A vacinação contra o HPV é uma das frentes que precisam continuar avançando, pois ainda existem lacunas, especialmente entre os adolescentes. Na gestação, um obstáculo frequente é o receio de que as vacinas possam provocar efeitos adversos no feto. Essa preocupação ainda pesa muito na decisão das gestantes. Por isso, a orientação clara do profissional de saúde é fundamental para explicar quais vacinas são recomendadas e qual é o benefício da imunização para a mulher e para o bebê, destaca a Dra. Cecilia.
Ela lembra que a cobertura da dTpa (vacinação contra difteria, tétano e coqueluche) entre gestantes e a vacinação contra o HPV entre adolescentes vêm aumentando, mas é preciso manter essa trajetória de crescimento.
Para a FEBRASGO, a consulta ginecológica é também uma oportunidade para revisar a situação vacinal da paciente. O ginecologista e obstetra é um médico de referência para muitas mulheres. Por isso, é de suma importância que esse profissional tenha acesso às informações e atualizações sobre as vacinas recomendadas para cada fase da vida, afirma.
A médica alerta que o cuidado com as vacinas não deve terminar após a idade reprodutiva. Mulheres mais velhas também precisam continuar acompanhando sua carteira vacinal. Entre as imunizações que podem ser esquecidas nessa faixa etária estão as vacinas pneumocócicas, importantes especialmente na população idosa.
Menor percepção de risco afeta a procura
A especialista lembra que o Brasil registrou grandes avanços nas coberturas vacinais a partir da década de 1980, período em que doenças infecciosas ainda eram mais visíveis para a população. Os índices chegaram a patamares elevados nos anos 2000, mas começaram a cair a partir de 2015 e 2016, cenário posteriormente agravado pela pandemia de Covid-19. Uma das explicações é justamente a menor percepção de risco.
Há uma geração que não conviveu de perto com muitas das doenças preveníveis por vacinação. Quando as pessoas deixam de enxergar essas doenças, também podem passar a considerar a vacinação menos necessária, explica. A situação da febre amarela ilustra o movimento contrário: após a epidemia de 2017, houve aumento importante na procura pela vacina, reforçando o peso da percepção de risco sobre a adesão.
Para ampliar a vacinação, Dra. Cecilia aponta a necessidade de aprimorar os registros das coberturas vacinais, facilitar o acesso aos imunizantes, ampliar horários e locais de vacinação e investir em comunicação clara sobre benefícios e possíveis eventos adversos. Também são necessárias estratégias adaptadas às diferentes realidades regionais, com ajustes nos sistemas de informação, simplificação dos calendários e planejamento local.
Vacinação deve ser lembrada ao longo de toda a vida. Cada consulta é uma oportunidade para verificar o que está pendente e orientar a mulher de acordo com sua idade, condições de saúde e fatores de risco, finaliza a especialista da FEBRASGO.

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