Embora o celular seja uma ferramenta crucial em investigações, uma perita criminal explica que mensagens apagadas, dados de GPS e registros digitais podem ser incompletos, manipulados ou mal interpretados, exigindo cautela para evitar injustiças.
O celular se tornou uma testemunha fundamental em investigações criminais no Brasil. Segundo o IBGE, 167,4 milhões de brasileiros com mais de 10 anos possuíam um aparelho pessoal em 2025. Apesar de sua presença constante no dia a dia, os dados guardados no dispositivo não contam necessariamente a verdade completa, o que pode levar a erros graves na Justiça.
Karine Vieira de Castro Quadros, perita criminal especialista em Ciências Forenses, detalha como as informações do celular ajudam a esclarecer casos, mas exige rigor para evitar conclusões apressadas. Ela afirma que mensagens, fotos, vídeos e localização podem reconstruir a linha do tempo de um crime, mas cada dado depende do contexto específico. "Uma evidência isolada pode ter diferentes interpretações, enquanto a combinação de vários elementos pode ajudar a construir uma cronologia mais consistente dos fatos", destaca.
- 167,4 milhões de brasileiros possuíam celular pessoal em 2025, segundo o IBGE.
- A recuperação de mensagens apagadas não tem garantia, dependendo do modelo do aparelho e do tempo.
- Dados de GPS podem ser imprecisos em ambientes fechados ou com obstáculos.
- Capturas de tela são facilmente editadas e não provam autoria sozinho.
- A cadeia de custódia é obrigatória para validar evidências digitais na Justiça.
Recuperação de mensagens e limites do GPS
Um dos temas mais debatidos é a recuperação de mensagens apagadas. Karine explica que, embora seja possível em alguns casos, não existe certeza absoluta. O sucesso depende de fatores técnicos, como o sistema operacional, o aplicativo usado e o tempo decorrido. Além disso, recuperar uma mensagem não significa ter acesso a toda a conversa.
Quanto à localização, o GPS pode ser muito preciso em abertos, mas falha em ambientes fechados. Dados de torres de celular indicam apenas áreas amplas, não pontos exatos. A perita ressalta que estar perto de um local não prova que a pessoa esteve naquele ponto exato, sendo necessário cruzar dados.
Autoria digital e manipulação de dados
O mesmo cuidado se aplica à autoria de ações digitais. Ter um registro no celular não significa que o dono o criou, pois o aparelho pode ter sido emprestado ou acessado por terceiros. Karine alerta: "Um dos maiores cuidados na interpretação deve ser não começar a análise com uma conclusão pronta e apenas procurar informações que a confirmem. Na perícia, precisamos separar aquilo que os dados demonstram daquilo que apenas deduzimos a partir deles".
Há também o risco de manipulação. Prints de tela são fáceis de editar e mensagens fora de contexto podem mudar de significado. Ferramentas de detecção de IA também podem falhar. Por isso, a recomendação é sempre examinar os dados na fonte original, quando permitido pela lei, e confrontá-los com outras provas.
Legalidade, cadeia de custódia e privacidade
Para que as provas sejam aceitas, elas devem seguir a lei e a cadeia de custódia, que documenta quem acessou o dado e como ele foi tratado. Dependendo do caso, é necessária autorização judicial para acessar o aparelho. No Brasil, isso pode envolver consentimento ou ordem judicial, respeitando a privacidade.
Karine, que atua nos Estados Unidos, reforça que as regras variam conforme a lei local. "O fato de um celular poder conter evidências importantes não significa que todo o seu conteúdo possa ser acessado indiscriminadamente", conclui. A técnica lembra que a tecnologia é uma ferramenta poderosa, mas que a interpretação humana e o respeito aos limites legais continuam sendo indispensáveis para a justiça.

Perícia (IA)


