Especialistas confirmam que a reposição hormonal não faz a mulher ganhar peso, mas também não é remédio para emagrecer. Embora ajude na qualidade de vida e reduza sintomas como ondas de calor, quem tem obesidade ou problemas metabólicos precisa de um plano de tratamento separado e completo.
Reposição hormonal é neutra para o peso e pode favorecer a distribuição da gordura corporal; quando há obesidade ou alterações metabólicas, outras estratégias devem fazer parte do cuidado
- 18 de outubro Dia Mundial da Menopausa
Uma das dúvidas mais frequentes no consultório durante a transição para a menopausa é se a terapia hormonal faz engordar. A resposta, de acordo com os principais consensos internacionais, é não. "A terapia hormonal é neutra para o peso. Ela não provoca ganho de peso, mas também não deve ser usada como estratégia para emagrecer", explica o Dr. Felipe Henning Gaia Duarte, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP). Uma revisão sistemática da Cochrane, que reuniu ensaios clínicos randomizados, não encontrou evidência de que o estrogênio, isolado ou associado ao progestagênio, aumente o peso corporal.
A transição menopausal, no entanto, é marcada por mudanças importantes na composição corporal, mesmo quando o peso na balança varia pouco. Segundo a declaração científica da American Heart Association (AHA) de 2020 sobre transição menopausal e risco cardiovascular, nesse período ocorre aumento da gordura corporal total e, principalmente, da gordura visceral, acompanhado de redução da massa magra e de alterações desfavoráveis no perfil lipídico. Essas mudanças contribuem para o aumento do risco de diabetes tipo 2, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares, e por isso a AHA aponta essa fase como uma janela estratégica para a prevenção.
Principais pontos sobre a terapia hormonal e peso
- Neutro no peso: O tratamento não faz a mulher engordar, mas também não serve para emagrecer.
- Mudança na forma: O estrogênio pode ajudar a reduzir o acúmulo de gordura na região do abdome.
- Indicação correta: É usado para tratar sintomas como ondas de calor, suores noturnos e problemas urinários.
- Cuidado extra: Mulheres com obesidade precisam de dieta, exercício e, se necessário, medicamentos específicos.
- Prevenção: A fase é crucial para prevenir diabetes, pressão alta e doenças do coração.
Mudanças no corpo e riscos à saúde
"Muitas mulheres percebem que o peso mudou pouco, mas a cintura aumentou. Essa redistribuição da gordura para o abdome não é apenas uma questão estética. A gordura visceral é metabolicamente ativa e está ligada à resistência à insulina, à hipertensão e ao maior risco cardiovascular", afirma o endocrinologista.
O que a terapia hormonal pode e o que não pode fazer
Embora não altere o peso, a terapia hormonal pode influenciar a forma como a gordura se distribui. Documentos de sociedades especializadas, como a Endocrine Society e a Menopause Society (antiga North American Menopause Society), reconhecem que o estrogênio pode atenuar o acúmulo de gordura abdominal típico dessa fase, um efeito considerado modesto. Grandes estudos, como o Women's Health Initiative (WHI), também observaram menor incidência de diabetes tipo 2 entre as usuárias de terapia hormonal. Ainda assim, as diretrizes são claras: a terapia hormonal não deve ser prescrita com o objetivo exclusivo de prevenir doenças crônicas ou controlar o peso.
Em relação à massa muscular, os resultados são menos consistentes. Alguns ensaios clínicos sugerem menor perda de massa magra entre as usuárias de terapia hormonal, mas uma metanálise de 12 ensaios clínicos randomizados, com 4.474 mulheres, publicada em 2019 no JAMA Network Open, não encontrou diferença significativa na massa muscular em comparação às mulheres que não utilizavam o tratamento. Por isso, a preservação muscular nessa fase depende, sobretudo, de exercícios de força e de alimentação adequada.
Indicações e cuidados específicos
"A terapia hormonal deve ser indicada para tratar os sintomas do climatério, como as ondas de calor, os suores noturnos, o sono prejudicado por esses sintomas e as queixas geniturinárias. Ela pode trazer benefícios adicionais para a composição corporal e para o metabolismo, mas não é tratamento para obesidade", ressalta Dr. Felipe. O posicionamento de 2022 da Menopause Society reforça que a terapia hormonal continua sendo o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores e para a síndrome geniturinária da menopausa, além de prevenir a perda óssea e as fraturas.
Quando a mulher apresenta obesidade ou alterações metabólicas associadas, como pré-diabetes, diabetes, dislipidemia ou gordura no fígado, o tratamento deve incluir estratégias específicas. Alimentação equilibrada, atividade física com exercícios de força e sono adequado continuam sendo a base do cuidado. De acordo com a diretriz da Endocrine Society para o tratamento farmacológico da obesidade, os medicamentos para perda de peso estão indicados como complemento às mudanças no estilo de vida em pessoas com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m², ou igual ou superior a 27 kg/m² quando há doenças associadas ao excesso de peso.
A obesidade também deve ser considerada na escolha da própria terapia hormonal. Como o excesso de peso aumenta o risco de trombose venosa, a via transdérmica do estrogênio, aplicada na pele em forma de gel ou adesivo e com menor impacto sobre a coagulação, tende a ser preferida nessas pacientes, conforme o posicionamento da Sociedade Europeia de Menopausa e Andropausa (EMAS) sobre o manejo da mulher com obesidade na pós-menopausa.
"São tratamentos que se complementam, e não que se substituem. A terapia hormonal cuida dos sintomas e da qualidade de vida; o tratamento da obesidade, quando indicado, atua sobre o peso e o risco metabólico. Nos dois casos, é fundamental preservar a massa muscular. O mais importante é olhar para a mulher de forma integral nessa fase da vida", conclui.

Menopausa (IA)


