Psiquiatra explica que a cetamina, usada em doses baixas e monitoradas, pode aliviar a depressão resistente em dias, enquanto os antidepressivos levam semanas, mas exige protocolo médico rigoroso para evitar riscos.
Em alusão ao Dia Mundial da Saúde Mental, comemorado em 10 de outubro, o psiquiatra Dr. José Giocondo, da Clínica Minerva e do Hospital Israelita Albert Einstein, detalha o uso da cetamina para tratar pacientes com depressão que não melhoram com os remédios tradicionais.
A depressão é um dos transtornos mentais mais comuns no mundo, e uma parte significativa dos pacientes não encontra alívio suficiente com os tratamentos iniciais. Na clínica, define-se depressão resistente quando não há resposta após o uso correto de dois ou mais antidepressivos sequenciais.
- O que é: A cetamina é um anestésico, mas em psiquiatria é usada em doses muito baixas (subanestésicas).
- Velocidade: Diferente dos remédios comuns que levam semanas, a cetamina pode aliviar sintomas em horas ou dias.
- Indicação: Recomendada para quem não responde a antidepressivos e para casos de ideação suicida.
- Riscos: Efeitos temporários como alteração de percepção, mas baixo risco de dependência em uso clínico monitorado.
- Protocolo: Exige avaliação prévia, jejum, acompanhamento de médico e repouso pós-sessão.
O mecanismo de ação da cetamina
A substância age de forma diferente dos antidepressivos tradicionais. Ela bloqueia um receptor no cérebro (NMDA) e estimula a liberação de uma proteína (BDNF) que ajuda o cérebro a criar novas conexões neurais. Isso acelera o efeito, sendo crucial em casos graves. Dr. Giocondo reforça que a cetamina não substitui o antidepressivo, mas cria as condições para que ele e a psicoterapia funcionem melhor.
Dr. Giocondo afirma: Tempo é cérebro. Não podemos atrasar o tratamento. Hoje contamos com intervenções que potencializam os antidepressivos convencionais e ampliam as chances de resposta nos casos de refratariedade.
Formas de uso e registro no Brasil
No Brasil, a escetamina em spray nasal tem registro na Anvisa para depressão resistente. No entanto, a cetamina aplicada por via endovenosa ou subcutânea é usada de forma off-label (fora da bula), apresentando taxas de remissão de sintomas de 70% a 80% em poucas aplicações. Esse uso exige consentimento informado e estrutura médica adequada.
Dr. Giocondo resume: A cetamina não é para todos. Mas, para quem tem indicação, pode mudar o curso do tratamento da depressão.
Quem pode ser tratado
O tratamento é indicado para pessoas com depressão resistente a dois ou mais remédios, episódios graves, ideação suicida (com monitoramento rigoroso), transtorno bipolar em fase depressiva refratária e quem não tolera efeitos colaterais de antidepressivos. Estudos também avaliam seu uso em estresse pós-traumático e ansiedade, mas as evidências ainda são insuficientes para uso rotineiro nesses casos.
Dr. Giocondo destaca: A cetamina não é para todos. Mas, para quem tem indicação, pode mudar o curso do tratamento da depressão.
Protocolo de segurança e riscos
Antes das sessões, o paciente passa por avaliação clínica, exames laboratoriais e revisão de medicações. A sessão dura de 40 a 60 minutos, com monitoramento vital constante. É obrigatório jejum prévio e estar acompanhado na ida e volta. Após a aplicação, o paciente descansa por 30 minutos e não pode dirigir por 24 horas.
Dr. Giocondo explica: Não existe receita genérica. Dose, via de administração, número de sessões e intervalo entre elas são definidos a partir da resposta de cada paciente, e essa resposta é acompanhada de perto desde a primeira aplicação.
Podem ocorrer efeitos temporários como dissociação, náusea e aumento da pressão arterial, que são controlados pela equipe. O tratamento é contraindicado para quem tem histórico de psicose, episódios maníacos recentes, doenças cardíacas graves, hipertensão não controlada, gestação, lactação, uso atual de drogas ilícitas ou hipertireoidismo descompensado.
Dr. Giocondo esclarece sobre o medo de dependência: No contexto médico, com dose controlada, ambiente monitorado e indicação correta, o risco de dependência é muito baixo. Situações como histórico de abuso de substâncias exigem uma avaliação mais cuidadosa antes da indicação.
Importância do acompanhamento integral
O especialista alerta contra o uso indiscriminado da substância. A cetamina deve ser parte de uma estratégia ampla, integrada à psicoterapia, ao acompanhamento psiquiátrico e a mudanças no estilo de vida, e nunca ser vista como solução isolada.
Dr. Giocondo conclui: A cetamina carrega muitos estigmas, e também muitas promessas exageradas. O caminho é informação de qualidade e indicação criteriosa. Psiquiatria séria se faz com evidência, sem atalhos.

Depressão (IA)


