06 de outubro de 2026

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Desastres climáticos podem cair no Enem? Veja como se preparar

Geral Vestibular 06/10/2026 14:44 Mira Comunicação Nova Xavantina MT

Especialistas explicam como enchentes, secas e o fenômeno El Niño podem ser cobrados de forma interdisciplinar nas provas de vestibulares de 2025, exigindo visão sistêmica e não apenas memorização.

Os fenômenos climáticos deixaram de ocupar apenas os noticiários e passaram a aparecer com frequência nas provas dos principais vestibulares do país. Em 2025, o Cemaden classificou o ano como um dos mais extremos das últimas décadas do ponto de vista climático, com recordes de calor e seca prolongada. No mesmo período, o órgão registrou 1.493 ocorrências de desastres ligados a chuvas, como inundações e deslizamentos, nos municípios que monitora.

No Brasil, o El Niño, cuja formação foi confirmada em junho pelo INMET e pela agência americana NOAA, deve se intensificar no segundo semestre, com chance de chegar à categoria "muito forte". Ondas de calor, como a que levou Nova Xavantina (MT) a 43,3°C no fim de setembro, e ciclones extratropicais no Sul também mantiveram os fenômenos climáticos no noticiário. Esses eventos reforçam a relevância do tema para questões de atualidades nos vestibulares.

  • O Cemaden registrou 1.493 desastres ligados a chuvas no Brasil em 2025.
  • O El Niño deve se intensificar no 2º semestre, possivelmente atingindo categoria "muito forte".
  • Fuvest e Unicamp já utilizaram enchentes do RS como base para questões matemáticas e geográficas.
  • A preparação exige visão sistêmica, conectando ciência, sociedade e economia.
  • Interpretar gráficos e dados estatísticos corretamente é tão importante quanto o cálculo.

Cobrança interdisciplinar nas provas

De forma multidisciplinar, muitas provas têm o costume de cobrar os impactos das mudanças climáticas a partir de diferentes áreas do conhecimento, relacionando conceitos de geografia, história, biologia, física e até questões sociais e econômicas. A Fuvest 2025, por exemplo, usou as enchentes do Rio Grande do Sul, ocorridas em maio de 2024, para cobrar a transformação do gráfico de uma função cosseno a partir das ondas de rádio AM. A Unicamp 2025 também levou as enchentes gaúchas à primeira fase.

Recorrentemente, as questões sobre desastres climáticos e ambientais são cobradas, especialmente envolvendo assuntos das ciências da natureza e geografia. Um fenômeno pluvial como a enchente pode envolver Ciências da Natureza (ciclo da água, características do solo), Geografia (ocupação das cidades), Matemática (leitura de dados de chuva) e cidadania (políticas públicas e direitos), como explica o coordenador pedagógico da Verbum Educação, Marcos Benfica.

Geografia e impactos sociais

Para 2026, as questões relacionadas à emergência climática ganham destaque a partir das discussões sobre um possível "super" El Niño, ou seja, um episódio mais intenso do que o padrão. O conceito geográfico pode ser cobrado desde a identificação das características do fenômeno até a relação entre o El Niño e seus impactos sobre o regime de chuvas, temperaturas e eventos extremos.

Fabiana Pegoraro, coordenadora de Geografia do Colégio Rio Branco, destaca que é importante conhecer os impactos socioambientais. "Quando esses fenômenos ocorrem, há uma alteração na evaporação e na liberação de calor das águas oceânicas, o que impacta a umidade, as temperaturas e o sistema de circulação das massas atmosféricas, afetando a distribuição das chuvas", compartilha.

No Brasil, o El Niño costuma causar secas severas e temperaturas elevadas nas regiões Norte e Nordeste, e chuvas mais intensas e concentradas nas regiões Sul e Sudeste. Os vestibulares podem partir de questões relacionadas à desigualdade socioespacial. Comunidades indígenas e ribeirinhas podem enfrentar o isolamento com a redução do nível dos rios, enquanto moradores de áreas urbanas mais vulneráveis estão mais expostos a enchentes, deslizamentos e interrupções no acesso à moradia, ao transporte, à escola e a serviços de saúde.

Biologia, química e física

Em áreas científicas, as questões exigem que o candidato enxergue a relação causal entre o fenômeno abordado e seus efeitos sobre os diversos ecossistemas. Segundo Paulo Allil, coordenador de Biologia do Colégio Rio Branco, o candidato não pode se limitar a um único ponto. Deve tentar desenvolver uma visão mais ampla e sistêmica, formular hipóteses e pensar em soluções.

Já Rafael Lucena Lomazi, professor de biologia do Colégio Ábaco, explica que acontecimentos recentes podem ser explorados de forma interdisciplinar, relacionando o aumento das temperaturas e as queimadas no Cerrado à fragmentação de habitats, além de conceitos como efeito estufa, acidificação dos oceanos, deterioração de corais e derretimento de geleiras. Uma questão poderia apresentar um gráfico sobre o aumento da temperatura global e pedir que o candidato identificasse possíveis consequências para a fauna, a flora e a produção de alimentos, relacionando a redução de agentes polinizadores a impactos sobre a agricultura.

O docente destaca que esses assuntos permitem abordar conteúdos de diferentes disciplinas, como química e física, a exemplo da relação entre o derretimento das geleiras, o calor latente e a expansão térmica. Acompanhar as discussões relacionadas à emergência climática ajuda o estudante a interpretar questões que relacionem acontecimentos atuais aos conceitos trabalhados em sala de aula.

Matemática e interpretação de dados

Os desastres climáticos transformam fenômenos vistos nas notícias em dados analisáveis matematicamente. O vestibular pode cobrar porcentagem, razão e proporção, médias, variações e projeções. Em uma prova, o estudante pode encontrar um gráfico comparando o volume de chuva com a média histórica, uma tabela com o avanço das queimadas ou dados sobre o número de pessoas atingidas por uma enchente.

Segundo Tainara Dias, Executiva de Negócios Acadêmicos da Casio Educação, para se preparar o aluno deve criar o hábito de observar como os números são apresentados nas notícias: qual é o período analisado, a unidade de medida, a escala do gráfico e a base usada para calcular um percentual. A executiva compartilha que um erro comum é analisar um número ou percentual isoladamente, sem entender qual é a base de comparação. Interpretar corretamente os dados costuma ser tão importante quanto fazer o cálculo.

História, sociologia e contexto global

Diante da realidade do mundo, não é mais possível pensar em questões ambientais de forma isolada. As universidades têm repensado suas estruturas curriculares, trazendo cursos mais conectados entre conteúdos clássicos e questões ambientais. Para compreender os impactos das mudanças climáticas, vale olhar para o problema de diferentes perspectivas, pois estão diretamente relacionadas a processos históricos, sociais, econômicos e políticos, como a Revolução Industrial, a expansão das atividades produtivas, as desigualdades entre países e os diferentes impactos dos eventos extremos sobre as populações.

"Os desastres climáticos são as evidências perceptíveis de um processo global que surgiu com os miasmas urbanos da Revolução Industrial. Se no início eles ocorriam em escala local nas cidades europeias industrializadas, atualmente estamos debatendo as inter-relações de extração, produção, distribuição, consumo e descarte ao redor do globo, com ampla desvantagem para o chamado Sul Global. Ao longo do século XX, principalmente a partir de 1950/1960, as empresas deslocaram suas unidades fabris do Norte para o Sul Global em busca de mão de obra mais barata e leis ambientais mais flexíveis", compartilha Vitor Mizuki, professor de Geografia na Beacon School. Pensar no entrecruzamento entre economia, política, geopolítica, desigualdade social, racismo ambiental, emissão de carbono e novos acordos climáticos pode ser um caminho para compreender questões mais complexas.