A psicanalista Denise Fleury e a professora Andrea Kluge selecionaram cinco obras da literatura infantil que ajudam crianças e adultos a conversar sobre perdas, separações e crescimento. Os livros usam histórias sensíveis para transformar dor em aprendizado e medo em coragem.
Quando me perguntam desde quando gosto de literatura, costumo dizer que desde sempre. Engraçada essa resposta, desde sempre quando Refiro-me à infância que nos remete a esse tempo eterno e dilatado de todo começo, origem ou recomeço e penso que foi naquele momento que a literatura foi o meu berço, no sentido de colo, sonho, imaginação.
Sempre fui mais leitora da literatura voltada para as infâncias, talvez por isso as vozes da criança e do adulto se mesclem na minha própria escrita. Gosto do resultado que o lúdico e a leveza trazem para o texto.
- Os cinco livros escolhidos falam de perdas, separações e crescimento de forma sensível.
- As obras ajudam as crianças a nomear sentimentos difíceis como medo, raiva e tristeza.
- Os livros também são indicados para adultos, principalmente pais e mães.
- Cada história usa a imaginação para transformar dor em aprendizado e coragem.
- A leitura em família pode abrir espaço para conversas importantes sobre a vida.
Confesso que selecionar apenas cinco livros é bem difícil, pois requer um corte de um universo gigante. Com a ressalva de que é sempre uma escolha e uma perspectiva pessoal, listarei cinco livros que oferecem apoio para refletir sobre a angústia de separação, tema que dialoga com meu último livro: Benjamin. Essa temática me é cara, tanto na escuta clínica quanto na lida com a vida.
Para esta tarefa, que considero importante, tive o cuidado de solicitar a participação da Andrea Kluge. Tanto ela quanto eu ficamos com essa missão entusiasmante e dificílima, mas vamos lá! Meu desejo é que cada leitor possa multiplicar a lista.
Stellaluna, de Janell Cannon
Nesta obra, Janell Cannon, escritora e ilustradora americana, apresenta Stellaluna, um filhote fêmea de morcego frutífero que, num voo abraçada à mãe, cai quando esta é atacada por uma coruja. Stellaluna cai num ninho de passarinho e passa a comer, dormir e voar como passarinho. Embora a história se inicie com o drama da orfandade, o leitor acompanha as peripécias de Stellaluna em sua nova família. Além do respeito à diversidade, temática central da obra, há a amizade e o afeto que Stellaluna e as aves vão, aos poucos, estabelecendo. Há, também, a força que a pequena Stellaluna vai adquirindo com esta convivência. Ela descobre outros mundos e faz novos laços. Esta é uma história de força, coragem, descobertas e pertencimento, capaz de mobilizar emoções em crianças e adultos.
Só um Minutinho, de Yuyi Morales
A autora e ilustradora mexicana Yuyi Morales trata de um tema difícil com uma leveza de tirar o fôlego. Em Só um Minutinho, a vovó Carocha recebe a visita inesperada do Senhor Esqueleto, mas não está disposta a ir embora antes de terminar os preparativos para a chegada dos netos, que irão celebrar o aniversário da vovó. Com sua arte colorida e festiva, a autora traz o Senhor Esqueleto para participar da festa. É uma celebração da vida e da morte em um mesmo tempo e espaço. A autora consegue, de forma surpreendente, convocar o pequeno leitor a escutar e falar sobre um assunto sensível de modo que esse possa ser encarado como uma ocorrência natural da vida e, ainda assim, ser celebrado. Quanto mais se aproxima a hora, mais a avó trapaceia o Senhor Esqueleto, que... sem contar o final, porque é surpreendente. É uma obra que auxilia as crianças a ter contato com temas difíceis, porém importantes e necessários, já que vida e morte, alegria e tristeza, perdas e ganhos andam juntos.
Mamãe Zangada, de Jutta Bauer
Ganhadora do prêmio Hans Christian Andersen em 2010 por sua produção como autora e ilustradora, Jutta Bauer nasceu em Hamburgo na Alemanha. Nesta obra ela nos conduz a um enredo no qual o filho é submetido à ira da mãe. A fúria materna alcança o pequeno de forma destruidora. Por meio das ilustrações e pequenos textos conseguimos acompanhar o estado emocional da criança. Se me perguntassem para qual idade é indicada, diria, como o escritor Léo Cunha: de zero a sempre. A criança poderá, a partir dessa leitura, nomear seus sentimentos de pedaço em pedaço até conseguir costurá-los. Aos adultos, especialmente pais e mães, recomendo-o porque funciona como um espelho, ilustrando o quanto é ameaçador e desestruturante para uma criança ser alvo da ira por parte de quem deveria protegê-la.
O muro no meio do livro, de Jon Agee
Um muro separa o pequeno cavaleiro dos perigos que imagina haver do outro lado. Certo de que está em segurança, ele sequer olha para trás. Apenas confia naquela barreira de proteção contra os animais ferozes e contra a coisa mais perigosa no outro lado do livro: um ogro. Será mesmo Além de provocar reflexões sobre preconceitos e estereótipos, o autor e ilustrador americano Jon Agee instiga o leitor a ir além. As imagens funcionam como contraponto: enquanto o texto diz uma coisa, as ilustrações mostram outra, cabendo ao leitor decifrar o jogo imagético. Agee usa esse recurso também em Vida em Marte (Pequena Zahar, 2020). Nessa segunda obra, o astronauta ocupa o lugar do cavaleiro: ambos têm dificuldade em enxergar o que está fora de seus julgamentos. A ansiedade da separação tão temida pelos pais e pelas crianças pode ser vista como uma oportunidade de crescimento para ambos. Tomemos o muro como metáfora da casa e o outro lado como o mundo exterior, a escola. Seria o primeiro um lugar seguro Algumas vezes não. E seria o lado de fora um lugar de perigo Na maioria das vezes não. Curioso ressaltar que o muro, que aparentemente protegia o cavaleiro, foi o mesmo que quase o condenou. Em suma, crescer é pular muros.
O que mamãe não sabe, de Rodrigo Andrade
Este é o primeiro livro de Rodrigo Andrade no qual ele é autor e ilustrador. Roger Mello considera a obra um novo clássico. E com razão. Se tomarmos uma das definições de Calvino (2009), O que mamãe não sabe... já nasceu clássico, pois nunca termina de dizer aquilo que tinha para dizer (p.18) tamanhas são as camadas que se desdobram nesse livro ilustrado.
Quando a mãe de Bento sai para trabalhar, a casa se transforma: personagens dos grandes clássicos da literatura para as infâncias chegam para fazer companhia ao menino. A obra é uma ode ao livro e à leitura. A cada página, personagens que povoaram, e ainda povoam, as nossas infâncias ganham vida na imaginação do menino. Arquitetado a partir de momentos cotidianos, como a ausência e o retorno dos pais, O que mamãe não sabe... nos faz pensar em quanto a separação temporária pode ser rica em aprendizagem, desde que abastecida com afeto e escuta, como fazem os pais de Bento. Afinal, viver é um eterno enlace e desenlace.

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