06 de outubro de 2026

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Novas tecnologias e reabilitação contínua ajudam pacientes a recuperar funções após AVC

Geral Reabilitação 06/10/2026 10:46 Maurício Santini

Especialistas destacam a importância de agir rápido diante de sinais de AVC e explicam como a neuroplasticidade e novas abordagens, como a fotobiomodulação, potencializam a recuperação da autonomia do paciente no Brasil.

Fotobiomodulação, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e áreas da neurorreabilitação estão entre os procedimentos para um paciente voltar a ter uma vida normal

Outubro é reconhecido como o mês de conscientização e prevenção ao Acidente Vascular Cerebral (AVC), tendo o seu ponto alto em 29 de outubro.

  • O Brasil registrou 89.490 mortes por AVC em 2025, uma média de nove óbitos por hora.
  • Estima-se cerca de 978 novos casos de AVC por dia no país, ou um a cada 1,5 a 2 minutos.
  • A neuroplasticidade permite que o cérebro reorganize conexões para recuperar funções perdidas.
  • Tecnologias como a fotobiomodulação transcraniana (FBMt) podem acelerar a recuperação celular.
  • O tratamento é individualizado, focando na autonomia global do paciente (caminhar, falar, alimentar-se).

Especialistas chamam atenção para a neuroplasticidade, a importância da reabilitação contínua e novas tecnologias que podem ser incorporadas ao processo de recuperação

Tempo é fator crítico na recuperação

A data reforça a importância de reconhecer rapidamente os sinais de um Acidente Vascular Cerebral e buscar atendimento de emergência. A campanha deste ano da World Stroke Organization, Every M1nute Counts, chama atenção justamente para o impacto do tempo: diante de um AVC, cada minuto pode fazer diferença para preservar funções e aumentar as possibilidades de recuperação.

No Brasil, os números ajudam a dimensionar o problema. Dados reunidos pela Sociedade Brasileira de AVC mostram que 89.490 pessoas morreram pela doença em 2025. Somente entre janeiro e março de 2026 foram registrados 20.461 óbitos, o que representa mais de nove mortes por hora, em média.

Impacto da doença na população brasileira

Além da mortalidade, há o impacto sobre quem sobrevive. Estimativas baseadas em registros epidemiológicos brasileiros apontam para algo entre 232 mil e 344 mil novos casos por ano, o equivalente a aproximadamente 978 casos por dia, praticamente um novo AVC a cada 1,5 a 2 minutos no país.

Alterações de movimento, fala, linguagem, memória, atenção, equilíbrio e autonomia podem permanecer após o evento. Nesse processo, ganha importância a neuroplasticidade, capacidade do sistema nervoso de modificar e reorganizar suas conexões em resposta a estímulos e experiências.

Quando conseguimos atender um AVC rapidamente, o primeiro objetivo é preservar a vida e reduzir a extensão da lesão. Depois começa outro desafio: recuperar, dentro das possibilidades de cada caso, as funções e a autonomia desse paciente. E a capacidade de reorganização do cérebro tem um papel importante nesse processo, explica o Dr. Álvaro Pereira, angiologista, doutor em Cirurgia Vascular pela Divisão de Bioengenharia do INCOR-HCFMUSP e pós-doutor pelo B&H Hospital Harvard.

O papel da neurorreabilitação e novas tecnologias

Além das terapias já utilizadas na reabilitação, pesquisadores estudam recursos capazes de atuar sobre processos biológicos relacionados ao funcionamento e à recuperação cerebral.

Entre essas abordagens está a fotobiomodulação transcraniana (FBMt), técnica não invasiva que utiliza luz vermelha ou infravermelha próxima em parâmetros específicos aplicada sobre a região da cabeça.

Pesquisas investigam sua ação sobre mecanismos como função mitocondrial, produção de energia celular, fluxo sanguíneo cerebral, resposta inflamatória, estresse oxidativo, fatores neurotróficos e neuroplasticidade.

Uma revisão recente dedicada especificamente ao AVC reúne resultados de estudos experimentais e ensaios clínicos e discute o potencial da tecnologia nesse contexto.

A fotobiomodulação atua em mecanismos importantes para o funcionamento do tecido cerebral como metabolismo celular, circulação e modulação da resposta inflamatória. Quando integrada à reabilitação, pode ajudar a criar condições biológicas mais favoráveis para a resposta aos estímulos terapêuticos. A ideia é somar às estratégias já utilizadas por fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e outros profissionais, ampliando os recursos disponíveis durante o processo de recuperação do paciente, explica Pereira.

A forma de utilização, a frequência das aplicações e sua associação com outras abordagens devem ser avaliadas caso a caso pela equipe profissional responsável pelo acompanhamento do paciente, considerando o quadro clínico, os objetivos terapêuticos e sua evolução.

Quando falamos em recuperação após um AVC, não existe uma estratégia única que sirva para todos os pacientes. A fotobiomodulação pode ser considerada dentro do processo de reabilitação levando em conta as características e os objetivos de cada pessoa. Essa decisão precisa ser individualizada pela equipe que acompanha o caso, comenta Pereira que conclui, a neuroreabilitação é construída a partir da resposta de cada paciente. Quanto mais compreendemos os mecanismos envolvidos na recuperação cerebral, mais possibilidades temos de integrar diferentes recursos de maneira coerente dentro desse processo, afirma.

Personalização do tratamento para a autonomia

Fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e outras áreas da neuroreabilitação trabalham com estímulos direcionados às funções comprometidas. Movimentos, palavras, exercícios de linguagem e tarefas do cotidiano podem precisar ser repetidas diversas vezes para estimular processos de aprendizagem e reorganização das redes neurais.

Na reabilitação, repetir não significa simplesmente fazer a mesma coisa várias vezes. Existe um objetivo por trás daquele estímulo. O profissional observa o que foi comprometido, o que está preservado e, a partir disso, constrói estratégias para estimular determinadas funções, afirma Pereira.

A recuperação também varia de pessoa para pessoa, de acordo com fatores como localização e extensão da lesão, idade, tempo transcorrido desde o AVC e condições clínicas.

Não existe uma fórmula única para a reabilitação após um AVC. Cada paciente chega com uma história, uma lesão e necessidades diferentes. O acompanhamento precisa ser construído e ajustado conforme essa pessoa evolui, acrescenta o médico que conclui, ás vezes, recuperar autonomia significa voltar a caminhar. Em outro paciente, pode significar conseguir se comunicar, se alimentar sozinho, compreender uma conversa ou realizar novamente uma atividade simples da rotina. É preciso olhar para a pessoa como um todo, explica Pereira.