O caso de Ana Clara, menina de 5 anos morta em Niterói, é o ponto de partida para uma reflexão sobre luto, justiça e memória. O escritor Josué Souza, autor do livro Elefante, mostra como a literatura pode ajudar a não esquecer essas crianças.
Recentemente, viralizou o episódio "O Julgamento que Nunca Aconteceu", da série Revelando, apresentado por Camila Pitanga. O vídeo mostra o caso de Ana Clara Gomes Machado, uma menina de cinco anos morta em fevereiro de 2021, em Niterói, atingida por tiros enquanto brincava perto de casa. Como Camila, eu pensei na mãe de Ana Clara. Não porque exista alguma palavra que possa devolver uma criança tirada pela violência que afeta tantas comunidades periféricas do Brasil, mas porque algo também se interrompe nos adultos que ficam.
No episódio, a mãe diz que não quer vingança, mas justiça. A vingança olha para trás, procurando uma resposta para a dor; a justiça olha para o que a sociedade deve fazer quando uma vida é interrompida.
- Ana Clara tinha 5 anos e foi morta por tiros em Niterói em 2021.
- O julgamento do acusado ainda não aconteceu.
- O caso foi recontado na série Revelando, com Camila Pitanga.
- O livro Elefante, de Josué Souza, fala sobre luto e memória.
- O senador Flávio Bolsonaro tentou impedir o júri popular.
A história de Ana Clara e o livro Elefante
Ana Clara tinha cinco anos, idade em que uma criança deveria brincar sem precisar saber de onde vem um tiro. Essa realidade também aparece no livro Elefante, em que uma bala "perdida" interrompe a vida de Gugu. A ausência dele é sentida pelos pais, Guilherme e Joshua, e ele continua na memória e em POC, seu elefantinho imaginário. Escrevi o livro pensando em histórias reais, como as de João Pedro Mattos Pinto e Miguel Otávio Santana da Silva, mortos em 2020, sem reproduzi-las: eu quis pensar no que fazemos com aquilo que poderia ter sido evitado.
A morte de uma criança não termina quando ela morre. Ela continua na mãe que precisa falar dela, no irmão que um dia vai perguntar o que aconteceu, em quem pronuncia seu nome. E continua na Justiça. O episódio reconta o processo contra Bruno Dias Delaroli, acusado pela morte de Ana Clara, preso em flagrante e depois solto; o julgamento ainda não aconteceu. Também mostra a atuação do senador Flávio Bolsonaro em um recurso para impedir o júri popular. Mas, antes de qualquer disputa política ou judicial, é preciso ver as vidas por trás de processos e cargos: Ana Clara e Gugu, João Pedro e Miguel Otávio, e a dor de mães e pais que não pode ser apagada.
O papel da literatura
Minha preocupação vai além da violência: é o que vem antes e depois dela. Como olhamos para as crianças da periferia e para a infância negra, como aceitamos que algumas crianças vivam mais perto da violência e nos acostumamos a ouvir que houve confronto antes de perguntar quem estava no meio. Uma criança não deveria precisar viralizar para que seu nome volte a circular.
A literatura não impede o tiro nem substitui a Justiça. Mas ela pode se recusar a esquecer: guardar o nome, a infância, o que existia antes da notícia. Em Elefante, tentei isso com Gugu, para que uma criança continuasse existindo na memória de quem a ama.
Eu gostaria de viver em um país onde escrever sobre infâncias interrompidas fosse apenas literatura, e uma mãe não precisasse esperar anos para saber se a Justiça vai reconhecer o que sempre foi óbvio: aquela vida importava e uma criança tinha direito ao futuro. A memória permanece porque se recusa a desaparecer. E olhar novamente é, às vezes, o começo de não aceitar que tudo continue como está.

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